Marginal a 300

Em menos de 1 mês São Paulo receberá a primeira etapa da Fórmula Indy de 2010. Era para isso ter sido escrito há mais tempo por ser um tema delicado. Diante da recusa de algumas cidades, a capital paulista topou receber esta prova. Ela não será disputada em Interlagos, mas sim em um circuito de rua improvisado, a passar por parte da Marginal Tietê e do sambódromo do Anhembi.

Visualizem uma balança com dois pratos, como aquelas da Filizola. A balança é a cidade de São Paulo, representada pela Prefeitura Muncipal. Em um dos pratos, estão juntos: o oportunismo e a irresponsabilidade. No outro prato estão: a visibilidade e a geração de empregos.

Oportunismo porque São Paulo tirou proveito da situação em dado momento em benefício de seus interesses, aliado a irresponsabilidade de o dinheiro investido nesta corrida poder ser direcionado a questões mais urgentes do município. A pavimentação da Marginal Tietê não é nenhum exemplo, e parte do recurso público será aplicado para a recuperação da pista em benefício de apenas algumas centenas de metros, e não toda a extensão da via. Irresponsabilidade devido ao verão extremamente chuvoso e caótico por que passa a cidade, em conjunto com a falta de educação de parte dos cidadãos, que deixam diariamente toneladas de lixo nas ruas, o que torna mais complicado o serviço municipal de coleta: já não há lugar para tanto entulho. Vem a chuva, que sobrecarrega córregos, rios e leva o lixo junto. Já o lixo entope a galeria. A água não flui e vêm as enchentes. É um ciclo em que o político sempre leva a culpa. Pois bem, a culpa também é do cidadão nem um pouco educado. No entanto, o político podia incentivar através de investimentos públicos a coleta seletiva e as boas maneiras dos cidadãos.

Um parêntesis aqui: parece que já vi esse filme! Pouco antes das Olimpíadas de Pequim em 2008, o governo local fez uma campanha contra o hábito chinês de cuspir e urinar em vias públicas, em nome das boas maneiras. Em nome da convivência, melhor! No Rio já estão a prender gente que faz isso.

Falou-se apenas de coisas ruins, mas há o lado bom da vinda dessa prova ao Brasil e a São Paulo, principalmente: visibilidade é uma delas. São Paulo será mais vista na imprensa internacional, muito se falará dela, o que pode gerar investimentos futuros na cidade. Em segundo lugar, a geração de empregos e circulação de riquezas que esta etapa da F-Indy trará, principalmente no setor da prestação de serviços, como o hospitality da prova, o setor hoteleiro, de restaurantes e de transportes.

Percurso da F-Indy SP300

Percurso da F-Indy SP300

Obviamente, faltou planejamento ao firmar o compromisso de receber esta etapa de tão importante categoria. Tudo podia ter sido melhor organizado, sem tanta pressa, como se vê. Um evento esportivo – como todos -, para ser bem sucedido, é necessário fazer com antecedência, com planejamento. Ademais, é saber envolver toda a população da cidade, para que a maioria a veja com agrado. Planejar para que as pessoas se preparem em não pegar a Marginal Tietê durante a sua realização; que se preparem em não utilizar algum serviço que envolva o evento, a fim de evitar constrangimentos, tumultos e dores-de-cabeça. Infelizmente não era para escrever dessa forma. Os serviços devem ser prestados para todos, independentemente de participarem ou não do evento. No entanto, faz-se necessário: o Brasil não atingiu ainda um nível de obediência civil, educação e respeito ao próximo capazes de fazer com que o bem público seja bem administrado – pelo poder e pelos utentes – com o único e principal interesse de bem servir à população.

Ser contra a prova? Ficar contra a sua realização – isso significa ficar em contra a todos os benefícios por ela criados? Não. É preciso fazê-la e trabalhar para que em 2011 não sejam cometidos os erros de 2010 e que todos os paulistanos ganhem com esta prova.

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