A África do Sul, o Rugby e o Apartheid*

* – política de segregação racial conduzida pela África do Sul entre 1948 e 1990 

O ano de 1948 marca a história da África do Sul pela implementação do Apartheid (vida separada, em africânder), regime em que os brancos detinham o poder político e econômico, em detrimento dos demais povos, que, além de terem que viver separadamente, sequer possuíam seus direitos de cidadão assegurados. Durante quase todo o século XX a sociedade sul-africana ficou marcada pela segregação racial. Os negros não podiam freqüentar as praias, os bairros, as escolas e as universidades dos brancos, as melhores. Não podiam andar nos mesmos ônibus e vagões de trem que os europeus, também melhores. Não podiam ocupar altas patentes das forças armadas, destinadas aos brancos. Oficialmente, eram proibidos de pertencer às seleções nacionais de alguma modalidade esportiva.

Estação de trens apenas para negros em Pretória, África do Sul, durante o Apartheid  

Por conta disso a África do Sul foi banida completamente da FIFA por João Havelange, em 1974. Também foi pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). As modalidades mais praticadas naquele país africano eram (e são): o Rugby, o críquete, o futebol e o boxe. O Rugby sempre foi associado à dominação branca – racista e repressora -, uma vez que era praticado pela elite. Isso não quer dizer que os negros não jogavam, mas eram organizados em ligas restritas. O futebol, praticado em sua maior parte pelos negros, esteve sempre em segundo plano e era pouco incentivado pelo governo. No final da década de 1960 a África do Sul propôs à FIFA a possibilidade de disputarem as eliminatórias da Copa de 70 com duas seleções: uma apenas de negros e outra só com brancos. Pedido negado. O mundo do futebol estava ao lado da maioria dos sul-africanos, ao contrário da International Rugby Board (IRB), que manteve os Springboks[1] em suas fileiras durante a política de segregação interna, porém proibidos de disputarem torneios internacionais. Mesmo assim, o Rugby foi a referência esportiva do Apartheid. 

Na época primeiro-ministro, Frederik de Klerk, pressionado pela opinião pública internacional, pôs fim a esse regime em 1990. Nelson Mandela, negro, líder do Congresso Nacional Africano, é solto após quase três décadas preso. Reformas políticas e sociais e econômicas são levadas a cabo com a finalidade de manter a África do Sul indivisível. Por muitas vezes, províncias como a do Cabo, a de Orange, a do Transvaal e os Bantustões chegaram perto de proclamarem a independência. Em abril de 1994 realizam-se as primeiras eleições livres e multirraciais, com a vitória de Mandela. 

O ano seguinte marcaria a vida do esporte na África do Sul. Pela primeira vez o país era aceito em uma competição internacional, a Copa do Mundo de Rugby, que seria disputada em sua própria casa. Antes divididos, os sul-africanos agora torciam com um objetivo em comum, porém com desconfiança: além de ninguém se esquecer de que os Springboks recordavam o Apartheid, a seleção consistia apenas por brancos. Tal situação mudou quando o negro Chester Williams foi convocado às pressas para substituir um companheiro lesionado, sendo de fundamental importância para a conquista da Copa, contra a Nova Zelândia. A vitória foi um marco para a história da República da África do Sul e o Rugby era responsável por isso. Pela primeira vez o país era legitimamente representado em nível internacional por uma seleção multirracial. A união dos sul-africanos e a euforia em torno deste objetivo em comum (a vitória na Copa) ficaram demonstradas nas palavras do então capitão da seleção, François Pienaar, ao receber o troféu das mãos de Nelson Mandela: “Hoje não são apenas os 60 mil aqui do estádio a comemorar o título, mas sim os 43 milhões de sul-africanos!”.

Pienaar recebe de Mandela a taça da Copa do Mundo de Rugby’95  

Anos mais tarde, já ex-presidente, Nelson Mandela disse que a África do Sul não seria a mesma caso os Springboks não tivessem vencido o mundial de 1995. Para quem fala que o esporte é apenas jogo, considere a autoridade de quem disse isso. Já dizia Nélson Rodrigues: “O pior cego é aquele que só vê a bola”.


[1] Como é conhecida a seleção sul-africana de Rugby

14 Responses to “A África do Sul, o Rugby e o Apartheid*”


  1. 1 vania 18/10/2008 às 1:52 am

    acho que o apartheid ainda é muito presente nos nossos dias ,mas com uma nova roupagem,e vergonhoso como seres da mesma materia se julgam melhores do que outros….

  2. 3 marcus alexandre mammana 28/07/2009 às 2:29 am

    guardar

  3. 4 João Carlos Carvalho 09/02/2010 às 12:52 pm

    Parabéns companheiro, artigo sensacional e muito esclarecedor, tanto no contexto histórico como no que diz respeito à importância do esporte para um país.

  4. 6 gugu e samukael 11/06/2010 às 5:34 pm

    Muuuito shooow Brod veelho tenhoo pena dos neego
    Ingleses idiotaas

  5. 7 helio burzaca 22/04/2011 às 12:46 am

    Assistam ao filme Invictus de 2009 com Morgan Freman e Matt Demon, conta toda a hitoria do campeonato mundial de rugby de 1995 na africa do sul, e muito bom.

  6. 8 Elizabete A.Oliveira 03/06/2011 às 2:43 am

    Assisti ao filme Invictus, o qual despertou minha curiosidade sobre todo o contexto e como o esporte passa a assumir uma condição definitiva como agregador de indivíduos antes tão hostis entre si. O texto é muito esclarecedor. Parabéns por conseguir ser conciso sem perder a profundidade.

  7. 9 Bruna Torres 11/11/2011 às 9:07 pm

    Pra mim aquele titulo de rugby da Africa do Sul foi mas que merecido, ainda mais depois de Nelson Mandela ser preso voltando e sendo presidente aquele titulo foi pra a africa perceber que cair e levantar são os exercicios fundamental da vida.

  8. 11 Lacy 18/07/2013 às 4:46 pm

    Assisti o filme Amistad e pensei;. não sei se choro ou dou risada, porem quando busquei na história,pensei: Não sei se tenho vergonha ou medo de ser gente.


  1. 1 Invictus | Paliativos Trackback em 30/09/2013 às 3:26 am
  2. 2 A difícil arte de tornar um país dividido uma só Nação | TIJOLAÇO | “A política, sem polêmica, é a arma das elites.” Trackback em 07/12/2013 às 6:54 pm
  3. 3 site desconto Trackback em 23/07/2014 às 5:59 pm

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27 de Maio

1703 – O Czar Pedro, o “Grande”, funda a cidade de São Petersburgo

28 de Maio

1993 – Eritreia e Mônaco se tornam membros da Organização das Nações Unidas

29 de Maio

1985 – Tragédia de “Heysel” (estádio em Bruxelas/BEL) em que mais de 30 torcedores da Juventus morrem antes do jogo final da Copa dos Campeões da Europa (atual Liga dos Campeões da UEFA)

30 de Maio

1961 – Rafael Leônidas Trujillo, ditador da República Dominicana, é assassinado em Santo Domingo (na altura chamada de “Ciudad Trujillo”)

31 de Maio

1910 – Criação da União Sul-Africana (atual África do Sul)

1961 – A União Sul-Africana sai da Comunidade Britânica (Commonwealth) e se torna “República da África do Sul”

1º de Junho

1967 – Os Beatles lançam o álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, um dos mais aclamados álbuns da história do rock e número 1 de todos os tempos segundo a revista Rolling Stone

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3 de Junho

1822 – Dom Pedro recusa fidelidade à Constituição portuguesa e convoca a primeira Assembleia Constituinte brasileira

4 de Junho

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5 de Junho

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1944 – Segunda Guerra Mundial: Desembarque na Normandia de 155.000 soldados das tropas aliadas (“Dia D”)

7 de Junho

1494 – Portugal e a Espanha assinam o Tratado de Tordesilhas

8 de Junho

1990 – Começa o XIV Campeonato Mundial de Futebol na Itália com o jogo de abertura Camarões 1 x 0 Argentina

9 de Junho

1934 – Estreia do “Pato Donald” em The Wise Little Hen

10 de Junho

1539 – Hernando de Soto desembarca na baía do Espírito Santo (atual Sarasota, FL), nos Estados Unidos, com 600 homens

1770 – O governador de Buenos Aires, Bucarell, ordena que os ocupantes britânicos das ilhas Malvinas desocupem a zona

1776 – O Congresso de Filadélfia aprova a Declaração de Independência dos estados da união, nos Estados Unidos.

1829 – O governador das Províncias Unidas do Rio da Prata cria o Comando Político e Militar das Ilhas Malvinas

11 de Junho

***DATA MAGNA DA MARINHA DO BRASIL***

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