A Guerra, a Bósnia, a Copa e o Reconhecimento

Quando da Guerra da Bósnia (1992-1995) eu tinha treze, quatorze anos. Era a segunda guerra que acompanhava. A primeira tinha sido do Iraque, em 1991. Tomahawk e Exocet tornaram-se infelizmente nomes comuns e lembro-me da cobertura da TV à época. Cobriam o conflito como se fosse esporte. Lembro-me bem, o apresentador dizia: “…e nesta batalha os EUA atuaram com: F-16…três mísseis…enquanto as tropas de Saddam combateram com tais e tais armamentos…”.

sarajevo

O conflito nos Bálcãs não parecia ter fim. Em função da declaração de independência da Bósnia (1992), todos os dias, ininterruptamente, Sarajevo (capital da Bósnia e Herzegovina) era bombardeada, ou então as cidades de Mostar ou Srebrenica. Não havia apenas bósnios que habitavam o país. Havia sérvios e croatas, que queriam a anexação do território bósnio às respectivas pátrias-mãe. Era um dia pior que o outro, perseguição étnica, genocídio. Tudo isso ali, acontecendo a mais ou menos 100 quilômetros da Itália, da Áustria, da Europa Ocidental, há muito pouco tempo, 20 anos.

Com o Tratado de Dayton (1995), pôs-se fim ao conflito e a integridade bósnia é mantida, com líderes sérvios, croatas e bosníacos. Milosevic (Slobodan, ex-presidente iugoslavo) ainda tentaria sustentar a Iugoslávia, mas perde poder e é julgado, dentro e fora do país. Nova geração de políticos, moderados, assume o poder em Belgrado. A província do Kosovo passa por processo de desmembramento, Montenegro conseguiu mais tarde uma independência pacífica que deu origem a dois novos países, o próprio Montenegro e a Sérvia, cuja capital continua sendo Belgrado.

Voltemos à Bósnia. Sarajevo fora sede das Olimpíadas de Inverno, de 1984. Entretanto, até hoje, quando vem-me o nome “Sarajevo” (saraievo), vem à mente edifícios destruídos e imagens de horror. Por pouquíssimas vezes a Bósnia e Herzegovina teve chances de mostrar-se ao mundo como país. Ou não teve.

Mas terá. Nesta última semana o país conquistou vaga para a fase final da Copa do Mundo FIFA que será disputada no Brasil, em 2014. O esporte simbolicamente explicita para a opinião pública internacional que a Bósnia é uma soberania e independente. Declarações de independência, reconhecimento de soberania por outros países e acordos de paz, não bastam.

Bosnia soccer national team fans celebrate their 2014 World Cup qualifying match victory over Lithuania, in Sarajevo

O reconhecimento público dá-se apenas através de uma via, a do esporte, como se o(s) atleta(s) dissessem: “sim, existimos e somos um país”.

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