De Letras

Eduardo Galeano, escritor uruguaio, faleceu ontem. Conhecido mundialmente por obras como “As Veias Abertas da América Latina” e “Memória do Fogo”, eu tive ‘acesso’ a ele através do futebol. Como?!

Ora, meu livro de cabeceira é “O Futebol ao Sol e à Sombra” (1995). Leitura deliciosa que recomendo a todos os apaixonados pelo esporte e que vivem a cultura do futebol. Deixo aqui algumas frases marcantes deste livro:

futebol-ao-sol-e-a-sombra

“É raro o torcedor que diz: ‘Meu time joga hoje’. Sempre diz: ‘Nós jogamos hoje’”.

“Durante mais de um século, o árbitro vestiu-se de luto. Por quem? Por ele. Agora disfarça, com cores”.

“O treinador dizia: Vamos jogar. O técnico diz: Vamos trabalhar”.

“Jogou, venceu, mijou, perdeu.” (sobre Maradona)

“Hoje em dia, o estádio é um gigantesco estúdio de televisão. Joga-se para a televisão, que oferece a partida em casa. E a televisão manda.”

“Uma jornalista perguntou à teóloga alemã Dorothee Solle: – Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade? – Não explicaria – respondeu. – Daria uma bola para que jogasse”.

Sobre o estádio:

“Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém.

Em Wembley ainda soa a gritaria do Mundial de 66, que a Inglaterra ganhou, mas aguçando o ouvido você pode escutar gemidos que vêm de 53, quando os húngaros golearam a seleção inglesa.

O Estádio Centenário, de Montevidéu, suspira de nostalgia pelas glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua chorando a derrota brasileira no Mundial de 50. Na Bombonera, de Buenos Aires, trepidam tambores de há meio século.

Das profundezas do estádio Azteca, ressoam os ecos dos cânticos cerimoniais do antigo jogo mexicano de pelota.

Fala em catalão o cimento do Camp Nou, em Barcelona, e em basco conversam as arquibancadas do San Mamés, em Bilbao.

Em Milão, o fantasma de Giuseppe Meazza mete gols que fazem vibrar o estádio que leva seu nome.

A final do Mundial de 74, vencida pela Alemanha, continua sendo jogada, dia após dia e noite após noite, no estádio Olímpico de Munique.

O estádio Rei Fahd, na Arábia Saudita, tem camarote de ouro e mármore, tribunas atapetadas, mas não tem memória nem grande coisa que dizer.”

Obrigado, Galeano. Descanse em paz.

Eduardo-Galeano

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