Nazio Bat, Selekzio Bat*

* – uma nação, uma seleção (em euskera) 

Alguns assuntos chamaram minha atenção nesses dias que passei na Espanha. Não foram os preparativos com o Natal, não teve a ver com a economia espanhola, tampouco com Rajoy ou Zapatero. Teve, claro, a ver com o título deste blog, o esporte. Mais uma vez o futebol esteve no meio, com a realização de duas partidas interessantes: o Barcelona x Real Madrid de ontem e o País Basco x Catalunha no próximo dia 29, em Bilbao.

A Espanha é um país com várias nações, tanto é que aprendemos a falar castelhano, e não espanhol. Dentro daquele território há os galegos, os catalães, os andaluzes e os bascos, por exemplo. Vários possuem língua própria, como catalães, bascos e galegos. De um modo geral, casamentos e acordos entre membros da Família Real e das cortes destas regiões formam o que hoje se entende por ser o Reino da Espanha. As províncias espanholas, como os estados brasileiros, possuem características muito particulares, mas ao contrário do Brasil, o idioma não os une. O idioma é um fator de separação. Etnicamente falando, com exceção dos Bascos, todos ali são uma “mistura” entre celtas e mouros. No aspecto religioso, todos são (muito) católicos. É claro que alguém de Zaragoza (Aragón) ou de Sevilha (Andaluzia) declarar-se-á espanhol, por afinidades históricas. Porém, um galego não se diz espanhol, assim como um basco ou um catalão, por “desafinidades” históricas.  Sem dúvida alguma que, quando estas regiões se submeteram ao governo central de Madri (seja por casamentos ou por tratados entre as elites), boa parte de suas populações (se não tiverem sido a maioria) foram contra. Mantiveram seus costumes e atitudes que iam de encontro à idéia da grande Espanha. Foi assim com a Catalunha, com a Galícia e o País Basco. Em Barcelona, predomina o catalão entre os seus habitantes. Em Bilbao, os assentos de San Mamés conversam em euskera[1]. Em Vigo ou em Compostela, fala-se o galego, muito mais fácil de entender do que propriamente o castelhano.

Mapa do Reino da Espanha, com suas províncias

Com a instalação da República da Espanha em meados do século XX, tais províncias (Catalunha, Galícia e País Basco), ganharam bastante autonomia e caminhavam para a plena independência. Porém, com a vitória do General Franco na Guerra Civil (1936-1939) todo este período de euforia diminuiu e o “generalíssimo” (como Franco era conhecido) reprimiu todas as maneiras de autonomia, a começar pelo idioma. Donostia, no País Basco, tornou-se San Sebastián. Por sua vez, o FC (Fútbol Club) Barcelona, nome catalão, tornou-se C. de F. (Club de Fútbol) Barcelona, nome em castelhano, isso pelo fato de o clube ter levado para outros países – principalmente aos EUA e ao México – a causa catalã e a luta contra o franquismo. Estes atos de rebeldia levaram a equipe de Barcelona a sofrer intervenção estatal e por isso a mudança do nome. Na década de 40, em uma decisão da Copa do Rei, o Barcelona recusou-se a vencer, justamente para não recebê-la das mãos de Franco e de membros da família Real. Esta partida foi contra o Real Madrid, que, ao contrário do clube catalão, era utilizado pelo “generalíssimo” para promover a Espanha pelo mundo, em que o Real Madrid representava mais que muitas embaixadas, segundo um próprio membro do governo franquista. Apenas em 1955 a Espanha faria parte da ONU.

escu1960

Símbolo do Barcelona durante o governo de Franco. 

Notem que em vez do catalão ‘F. C. Barcelona’, o nome do clube foi castelhanizado para ‘Club de Fútbol Barcelona’

 

225px-FCB.svg

Escudo atual do FC Barcelona, já com o nome catalão 

Estava então levado para dentro das quatro linhas o embate entre o governo central espanhol e a causa catalã, representados pelo Real Madrid e Barcelona, respectivamente. Já no País Basco, o Athletic só voltou a ser Athletic depois da morte de Franco. Enquanto ele estava vivo, era Atlético de Bilbao, mas manteve – como mantém até hoje – a política de contratar e aceitar em seu plantel apenas jogadores Bascos. É por isso que encontros entre Barcelona x Real Madrid, Athletic Bilbao x Real Madrid são muito mais que apenas jogos. Há toda uma história e um significado por trás disso: idiomas, guerra, submissão, intervenção. Simbolicamente, uma vitória barcelonista ou do Athletic sobre o Real significa o triunfo da causa catalã ou basca sobre o governo central, que no passado era dominador e repressor. Hoje em dia a Espanha é uma democracia plena e um dos países que mais crescem no mundo. A Catalunha e o País Basco possuem estatutos de região autônoma, mas a luta pela independência continua e nada melhor que o esporte para demonstrar isso. Quando atuam pela seleção espanhola, Puyol e Xavi (catalães) abaixam parte de suas meias, escondendo as cores da bandeira. A Federação permite que as regiões autônomas realizem um certo número de amistosos com outros países, assim como a Catalunha fez com o Brasil há certo tempo. Entretanto, desta vez tais regiões decidiram jogar entre si e no dia 29, em Bilbao, jogarão País Basco x Catalunha. Para incentivar a presença do público, a televisão local colocou um anúncio em forma de desenho animado em que a seleção Basca está para jogar contra o Brasil, mas de repente invadem o campo, impedindo a realização da partida: um guarda civil espanhol, o Manolo el del Bumbo (torcedor símbolo da Espanha), um personagem com o cartaz da Federação Espanhola e um galo com as cores da França trazendo uma placa da federação daquele país (vale lembrar que parte do território basco está na França). De repente o público se revolta com a entrada destes personagens que saem em disparada com o tratamento hostil e, assim, a partida pode ser iniciada sem problemas. Tal anúncio pode ser visto, em euskera, em:

 

Seleção espanhola. Reparem que nas meias de Puyol (nº5) e Xavi (nº8), catalães, não se nota a bandeira da Espanha

Exemplo de Estado-Nação, a Espanha não é, sem dúvida alguma. Que tais regiões serão independentes? Um dia, quem sabe. Em curto prazo, apenas se uma grande mudança no governo espanhol acontecer, o que não ocorrerá. Bascos, galegos e catalães não vão querer abrir mão da estabilidade e  crescimento por que a Espanha, o Reino da Espanha, onde todos eles vivem, vem passando. Desportiva e futebolisticamente falando, que graça teria se estas regiões fossem Estados soberanos? Nenhuma! Não teríamos mais Real Madrid x Barcelona e todo este debate acerca do esporte como meio de representar as nações-sem-Estado. Assim não há graça.

 


[1] Como Eduardo Galeano, em “O Futebol ao Sol e Sombra” escreve;

2 Responses to “Nazio Bat, Selekzio Bat*”


  1. 1 roseli santos 08/01/2008 às 5:15 pm

    Preciso localizar a provincia de origem do Sr. Gregorio Anguiano e Sra. Bernardina Morales, casados, ambos já falecidos, pois é necessário a obtenção, com URGENCIA, da certidão de óbito para a instrução de um processo aqui no Brasil. Contudo, com o decorrer dos anos, não existe nenhum contato capaz de indicar qual a provincia de origem desses senhores. Havendo alguém que possa me ajudar, favor contactar-me, com URGÊNCIA.

    TK, TK, TK!

  2. 2 Delfino 09/01/2008 às 7:37 pm

    Bom seria se as nações (etnicas, políticas, etc) se unissem em prol da paz, assim como se unem em prol do esporte.


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