Para Ser G-“Alguma Coisa”

Está na moda ser “G”, às vezes é bom ser “G”. G-8 para os países mais ricos do planeta; G-4 para quem quer se classificar para a Libertadores; G-77 para os países que se consideram “não-alinhados”; G-Magazine para outros interesses. A Deloitte recentemente divulgou uma lista dos G-20, os 20 maiores clubes de futebol do planeta em termos de rendimentos. Muitos clubes queriam fazer parte desta lista – aliás, está neste blog em “Utilidade Pública” -, outros não deviam fazer parte e outros ainda incrível e incompetentemente não fazem parte.

Desta lista todos os clubes são europeus, na maioria ingleses. Nenhum clube das Américas: nenhum mexicano, nem brasileiro, ou mesmo – um campeão de vendas – o Boca Juniors, de Buenos Aires. Chama a atenção na lista a inclusão de um clube turco, o Fenerbahçe, de Istambul (é com cedilha mesmo).

*temp*

Estádio do Fenerbahçe, em Istambul (fenerbahce.org/pt)

A economia brasileira é a 8ª do mundo, a turca a 15ª. O Fenerbahçe não tem o mesmo número de torcedores que têm Corinthians, Flamengo ou São Paulo. Que tem o Boca, América (México DF) ou Chivas de Guadalajara. A Turquia não tem o mesmo palmarés no futebol que tem a Argentina ou o Brasil. Mesmo assim o “Fener” – como é carinhosamente conhecido pelos torcedores – está lá, figurando entre os G-20 da Deloitte, listagem que a cada ano fica tão importante quanto ganhar um campeonato. É um motivo para aumentar a reputação e credibilidade da organização desportiva, que é um clube.

As receitas dos clubes dependem de 4 variáveis: direitos de transmissão pela TV, transferências de jogadores, bilheteria e comercialização (merchandising, publicidade e patrocínios).

O “Fener” está lá este ano porque no ano passado chegou às quartas-de-final da Liga dos Campeões da Europa, o que rendeu ao clube dezenas de milhões de euros (€) (os benefícios com os direitos de transmissão são altíssimos). No ano passado alguns jogadores do clube de Istambul saíram para jogar em outras ligas europeias e asiáticas, o que rendeu alguns “trocados” ao clube. Entretanto o grande trunfo dos turcos está em adquirir jogadores da América do Sul – neste caso onde o preço do passe é menor devido ao câmbio, o famoso “bom e barato” -, o que torna a equipe mais competitiva e em contrapartida ganha mais mercado consumidor. Quantos brasileiros não passaram a acompanhar e comprar produtos relacionados ao Fenerbahçe depois que Zico, Alex, Edu Dracena e Lugano foram lá treinar e jogar? Eu, inclusive!

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Torcida do “Fener” (fener-fanatix.tr)

Bilheteria: não se vê jogos do Fenerbahçe com as bancadas vazias. Sempre lotadas, estádio seguro, viável e moderno. Alto índice de assistência, mesmo com os ingressos caros. Mas, claro, há um plano de compra antecipada, o popular “sócio-torcedor”. Mesmo assim, não é barato. O “Fener” tem um excelente plantel, com nomes que se destacam. Mantê-lo é caro. Certamente os torcedores sabem disso. Não se distribuem ingressos a determinados torcedores. Os responsáveis pelo clube seguem a seguinte equação:

Assento Preenchido = renda do ingresso + renda do consumo no estádio + renda com o merchandising

ou

Assento Preenchido + Vitória da Equipe = renda do ingresso + (renda do consumo no estádio)² + (renda com o merchandising)²

em longo prazo:

Assento Preenchido + Vitória da Equipe = (renda do ingresso)² + (renda do consumo no estádio)² + (renda com o merchandising)² + aumento dos direitos de transmissão pela TV + patrocínios (!!!)

Consequência disso: mais dinheiro para investir no plantel e aumentar a competitividade da equipe; para aumentar o conforto do estádio; para aproximar mais os torcedores ao clube. Em suma, satisfazer a torcida.

Quanto à comercialização, o “Fener” leva muito a sério o licenciamento dos seus produtos. Claro que os seus torcedores são conhecidos por serem muito fanáticos. Se fanatismo significasse renda, Boca Juniors e Corinthians seriam os clubes mais ricos do mundo. No Fenerbahçe existe planejamento de como vender e oferecer o clube para os torcedores, mesmo que o seu número não seja alto. O site oficial é oferecido em vários idiomas. Os produtos oficiais são caros, certamente, e por isso mesmo que os turcos têm uma marca própria de artigos oficiais licenciados que permite um preço mais em conta. E a gama de produtos é vasta. O adepto, quando compra, sabe que o dinheiro é revertido para o “Fener”. Isso sim é fidelidade e lealdade ao clube.

Enquanto isso, no Brasil, falta planejamento e profissionalismo dos clubes, salvo alguns. Câmbio desfavorável frente ao euro (€) não é desculpa para terem que vender logo cedo os craques para a Europa, Oriente Médio e Japão. Os clubes ainda são reféns de mal-negociados direitos de transmissão e o fato de o Campeonato Brasileiro e a Taça Libertadores estarem nas mãos de confederações e não serem Ligas independentes diminui a possibilidade de aumento dos rendimentos. Além disso, o “paternalismo” exercido por vários dirigentes de federações e dos clubes brasileiros é conivente com a distribuição dos ingressos (a baixo ou a nenhum custo), e conivente com a violência entre os torcedores. Isso causa o desinteresse nos demais torcedores em frequentarem os estádios: não há conforto e segurança. Mesmo com um ingresso caro, os serviços não estão à altura do preço. Não há respeito pelo torcedor, que, quer-queira-quer-não, é um cliente.

“Quanta oportunidade!” (farm3.static.flickr.com)

Somado a tudo isso, os produtos oficiais são caros e não há alternativas senão comprá-los no mercado informal, grotescamente não-oficiais, mas mais baratos. O combate à pirataria inexiste. Por outro lado, não existe profissionalismo por parte de quem vende e oferece o clube aos torcedores de futebol no Brasil. Se o torcedor verifica resultados no trabalho levado a cabo pelo clube, sem dúvida alguma que ele vai se sentir incentivado em adquirir os artigos oficiais, mesmo que mais caros em relação ao mercado informal. O futebol do Brasil é reconhecido e bem visto pelo mundo, e isso significa mais mercado consumidor. Por que não conquistar estes mercados ao contratar um jogador de lá? Como fez o Manchester United na Coreia do Sul, com o Park. Como faz o Boca Juniors em países como a Colômbia e o Uruguai.

Pensar que clubes como Flamengo e Corinthians têm mais torcida que muitos países do mundo e estão longe de estarem entre os maiores do mundo. Maiores em do mundo em número de torcedores? Desde quando isso significa ser o maior do mundo? Se pelo menos garantisse rendimentos, aí sim. Claro que em um país como o Brasil, que conta com quase 200 milhões de habitantes, é relativamente mais fácil um clube ter mais torcedores do que um clube em um país como a Espanha, com 40 milhões de habitantes. É tudo questão de vontade, iniciativa, planejamento, profissionalismo e visão. De querer servir em vez de “levar vantagem”. E não venha se desculpar pelo câmbio desfavorável!

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