Já imaginou o Brasil do Norte enfrentando o Brasil do Sul? Ou a Argentina do Leste contra a do Oeste? Você, atleta, jogando contra aquele seu primo que por um acaso mora do outro lado da fronteira? Isso existe, mas não com esses países. São nações divididas, um só povo, uma só língua, separadas por vaidades históricas e que acabam por transferir este choque para o esporte.
Soldado sul-coreano vigia fronteira sob o olhar do “colega” do norte
A Guerra da Coréia (1950-1953) a separou em duas: a do Norte (República Democrática Popular da Coréia) aproximou-se da antiga União Soviética e seguiu um modelo socialista baseado em um regime ditatorial. Hoje em dia é a nação mais fechada do planeta, em grave crise sócio-econômica e constante decadência. A do Sul ficou sob influência dos Estados Unidos e adotou a economia de mercado. Atualmente o seu contexto é oposto ao vizinho do Norte. Recentemente as duas seleções de futebol destes países jogaram entre si, pelas eliminatórias da Copa do Mundo. Como o ditador norte-coreano não permitiu o hasteamento da bandeira e a execução do hino sul-coreano em seu território, o jogo teve que ser na China. Este foi o primeiro ato de truculência. O segundo foi que as torcidas tiveram que ser divididas, assim como os países e, no lado de fora, os norte-coreanos evitavam o contato com os do sul.
Sul-coreanos durante a Copa de 2002
Por não falar da Copa de 74, quando as então Alemanhas (Ocidental e Oriental) se enfrentaram, em Hamburgo, no lado Ocidental. Era o primeiro encontro oficial entre as duas seleções, e os Orientais venceram por 1 a 0. Simbolicamente, para o regime da socialista Alemanha Oriental, significava o triunfo do socialismo sobre o capitalismo. “Não tenho culpa de ter nascido na Alemanha Oriental“, dizia Jürgen Sparwasser, autor do único gol desse jogo. Quinze anos mais tarde, com a queda do muro de Berlim, o futebol colocaria a “cereja do bolo” na reunificação alemã com a conquista da Copa do Mundo de 1990, mesmo sendo apenas com jogadores ocidentais.
Alemanha x Alemanha, na Copa de 74
A partida entre as duas Coréias terminou politicamente correta, 0 a 0, e dentro do campo os jogadores demonstraram “fair-play” e muita diplomacia. É claro que os avanços são ainda tímidos. Neste ano, por exemplo, sul e norte-coreanos entrarão no estádio durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos sob uma mesma bandeira. O esporte só tem a ganhar quando esta truculência terminar. Imaginar em um futuro próximo equipes nacionais de uma Coréia unificada, de dois antigos países com excelentes retrospectos em diversas modalidades. No futebol, Pak-do-Ik – o dentista norte-coreano que fez o gol que eliminou a Itália do Mundial de 1966 – como técnico de um time com Ahn e Park (Sul-Coreanos)!
Comemoração norte-coreana após a vitória sobre a Itália
Nada dura para sempre, assim como os dois Iêmens, os dois Vietnãs e as duas Alemanhas.
Talvez a declaração de independência do Kosovo, declarada hoje, seja a última página de um livro acerca da formação e da triste e sangrenta desintegração da Iugoslávia. A antiga união dos povos eslavos do sul hoje dá origem a mais um novo país e somam agora 7 (Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Kosovo) desde a queda do governo central de Belgrado.
Mais um país para o COI, mais um país para a FIFA, UEFA e demais organismos esportivos internacionais. Mais um motivo para os europeus reclamarem mais vagas em Copas do Mundo. Na primeira delas, em 1930 no Uruguai, os iugoslavos foram um dos poucos europeus que se dispuseram a atravessar o Atlântico e disputar o mundial. Sempre foram um povo muito ligado à prática esportiva, potência no basquetebol, sendo campeão mundial por cinco vezes. Franjo Mihalic foi medalha de prata na Maratona durante os Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. Sarajevo sediou as Olimpíadas de Inverno de 1984. O futebol foi por duas vezes vice-campeão europeu (1960 e 1968), para não falar de futebolistas como Stojkovic, Prosinecki e Stankovic. Partizan, Dínamo de Zagreb e Estrela Vermelha sempre foram referências em termos clubísticos, com destaque à conquista da Liga dos Campeões da Europa pela última equipe, em 1991.
Jogadores do Estrela Vermelha, campeão da Liga dos Campeões da Europa’91
1991 que foi o ano do início da desfragmentação iugoslava. A situação política interna já não ia tão bem. Os exemplos de movimentos separatistas na ex-União Soviética também alimentavam a tensão. Os mais românticos dizem que o colapso da Iugoslávia se deu a partir de um jogo de futebol entre o Estrela Vermelha, de Belgrado e o Dínamo, em Zagreb (atual capital da Croácia). Os torcedores locais levaram ácido às arquibancadas para que os alambrados que os separavam dos visitantes fossem corroídos. Isso aconteceu realmente e o confronto foi inevitável. Os policiais, que em princípio tinham que garantir a segurança dos visitantes, foram coniventes com esta iniciativa, até mesmo tomando parte dela. Ao verem seus torcedores sendo atacados, os próprios jogadores do Estrela Vermelha atacaram os policiais. Enquanto isso, na final do mundial de basquete, croatas agitavam suas bandeiras e vaiavam o hino iugoslavo, fazendo com que Vlade Divac – que por muito tempo jogou na NBA – abandonasse a quadra e partisse para a agressão física aos separatistas. Já em uma escola de Belgrado, uma professora queria saber o porquê de o aluno haver faltado às aulas por muitos dias. De acordo com seu pai, o menino aprendera muito mais sobre cidadania e amor à pátria ao acompanhar um jogo do Partizan no exterior. Se ficasse na escola, nem tanto.
Seleção iugoslava de basquete, campeã mundial de 1990, com Vlade Divac e Dražen Petrović, jogadores que anos depois tiveram suas histórias contadas no documentário ‘Once Brothers’ > http://bit.ly/1suWBaU
A divisão da Iugoslávia proporcionou mais jogos para o apuramento à Eurocopa, ao Mundial de futebol, de basquetebol e de handball, por exemplo. Pode ter levado dor-de-cabeça aos dirigentes, mas, ao mesmo tempo, o esporte foi uma maneira de auto-determinação dos povos destes novoa países: a Croácia foi 3ª colocada na Copa de 1998, e tem tenistas de ponta como Ivan Ljubcic e Goran Ivanisevic (campeão de Wimbledon em 2001). Por sua vez, a Eslovênia participou de dois mundiais de futebol e a Bósnia-Herzegovina tem uma das melhores seleções de hóquei-no-gelo.
Bósnia-Herzegovina (azul) x Grécia, no handball
A partir disso tudo, com o Kosovo não será diferente e talvez uma das primeiras providências será a de participar das Olimpíadas em Beijing, em agosto próximo. Filiar-se ao COI e à FIFA é mais de meio caminho andado para o seu reconhecimento perante à comunidade internacional. Por enquanto deve-se desejar os parabéns aos kosovares pela independência!
Alguns assuntos chamaram minha atenção nesses dias que passei na Espanha. Não foram os preparativos com o Natal, não teve a ver com a economia espanhola, tampouco com Rajoy ou Zapatero. Teve, claro, a ver com o título deste blog, o esporte. Mais uma vez o futebol esteve no meio, com a realização de duas partidas interessantes: o Barcelona x Real Madrid de ontem e o País Basco x Catalunha no próximo dia 29, em Bilbao.
A Espanha é um país com várias nações, tanto é que aprendemos a falar castelhano, e não espanhol. Dentro daquele território há os galegos, os catalães, os andaluzes e os bascos, por exemplo. Vários possuem língua própria, como catalães, bascos e galegos. De um modo geral, casamentos e acordos entre membros da Família Real e das cortes destas regiões formam o que hoje se entende por ser o Reino da Espanha. As províncias espanholas, como os estados brasileiros, possuem características muito particulares, mas ao contrário do Brasil, o idioma não os une. O idioma é um fator de separação. Etnicamente falando, com exceção dos Bascos, todos ali são uma “mistura” entre celtas e mouros. No aspecto religioso, todos são (muito) católicos. É claro que alguém de Zaragoza (Aragón) ou de Sevilha (Andaluzia) declarar-se-á espanhol, por afinidades históricas. Porém, um galego não se diz espanhol, assim como um basco ou um catalão, por “desafinidades” históricas. Sem dúvida alguma que, quando estas regiões se submeteram ao governo central de Madri (seja por casamentos ou por tratados entre as elites), boa parte de suas populações (se não tiverem sido a maioria) foram contra. Mantiveram seus costumes e atitudes que iam de encontro à idéia da grande Espanha. Foi assim com a Catalunha, com a Galícia e o País Basco. Em Barcelona, predomina o catalão entre os seus habitantes. Em Bilbao, os assentos de San Mamés conversam em euskera[1]. Em Vigo ou em Compostela, fala-se o galego, muito mais fácil de entender do que propriamente o castelhano.
Mapa do Reino da Espanha, com suas províncias
Com a instalação da República da Espanha em meados do século XX, tais províncias (Catalunha, Galícia e País Basco), ganharam bastante autonomia e caminhavam para a plena independência. Porém, com a vitória do General Franco na Guerra Civil (1936-1939) todo este período de euforia diminuiu e o “generalíssimo” (como Franco era conhecido) reprimiu todas as maneiras de autonomia, a começar pelo idioma. Donostia, no País Basco, tornou-se San Sebastián. Por sua vez, o FC (Fútbol Club) Barcelona, nome catalão, tornou-se C. de F. (Club de Fútbol) Barcelona, nome em castelhano, isso pelo fato de o clube ter levado para outros países – principalmente aos EUA e ao México – a causa catalã e a luta contra o franquismo. Estes atos de rebeldia levaram a equipe de Barcelona a sofrer intervenção estatal e por isso a mudança do nome. Na década de 40, em uma decisão da Copa do Rei, o Barcelona recusou-se a vencer, justamente para não recebê-la das mãos de Franco e de membros da família Real. Esta partida foi contra o Real Madrid, que, ao contrário do clube catalão, era utilizado pelo “generalíssimo” para promover a Espanha pelo mundo, em que o Real Madrid representava mais que muitas embaixadas, segundo um próprio membro do governo franquista. Apenas em 1955 a Espanha faria parte da ONU.
Símbolo do Barcelona durante o governo de Franco.
Notem que em vez do catalão ‘F. C. Barcelona’, o nome do clube foi castelhanizado para ‘Club de Fútbol Barcelona’
Escudo atual do FC Barcelona, já com o nome catalão
Estava então levado para dentro das quatro linhas o embate entre o governo central espanhol e a causa catalã, representados pelo Real Madrid e Barcelona, respectivamente. Já no País Basco, o Athletic só voltou a ser Athletic depois da morte de Franco. Enquanto ele estava vivo, era Atlético de Bilbao, mas manteve – como mantém até hoje – a política de contratar e aceitar em seu plantel apenas jogadores Bascos. É por isso que encontros entre Barcelona x Real Madrid, Athletic Bilbao x Real Madrid são muito mais que apenas jogos. Há toda uma história e um significado por trás disso: idiomas, guerra, submissão, intervenção. Simbolicamente, uma vitória barcelonista ou do Athletic sobre o Real significa o triunfo da causa catalã ou basca sobre o governo central, que no passado era dominador e repressor. Hoje em dia a Espanha é uma democracia plena e um dos países que mais crescem no mundo. A Catalunha e o País Basco possuem estatutos de região autônoma, mas a luta pela independência continua e nada melhor que o esporte para demonstrar isso. Quando atuam pela seleção espanhola, Puyol e Xavi (catalães) abaixam parte de suas meias, escondendo as cores da bandeira. A Federação permite que as regiões autônomas realizem um certo número de amistosos com outros países, assim como a Catalunha fez com o Brasil há certo tempo. Entretanto, desta vez tais regiões decidiram jogar entre si e no dia 29, em Bilbao, jogarão País Basco x Catalunha. Para incentivar a presença do público, a televisão local colocou um anúncio em forma de desenho animado em que a seleção Basca está para jogar contra o Brasil, mas de repente invadem o campo, impedindo a realização da partida: um guarda civil espanhol, o Manolo el del Bumbo (torcedor símbolo da Espanha), um personagem com o cartaz da Federação Espanhola e um galo com as cores da França trazendo uma placa da federação daquele país (vale lembrar que parte do território basco está na França). De repente o público se revolta com a entrada destes personagens que saem em disparada com o tratamento hostil e, assim, a partida pode ser iniciada sem problemas. Tal anúncio pode ser visto, em euskera, em:
Seleção espanhola. Reparem que nas meias de Puyol (nº5) e Xavi (nº8), catalães, não se nota a bandeira da Espanha
Exemplo de Estado-Nação, a Espanha não é, sem dúvida alguma. Que tais regiões serão independentes? Um dia, quem sabe. Em curto prazo, apenas se uma grande mudança no governo espanhol acontecer, o que não ocorrerá. Bascos, galegos e catalães não vão querer abrir mão da estabilidade e crescimento por que a Espanha, o Reino da Espanha, onde todos eles vivem, vem passando. Desportiva e futebolisticamente falando, que graça teria se estas regiões fossem Estados soberanos? Nenhuma! Não teríamos mais Real Madrid x Barcelona e todo este debate acerca do esporte como meio de representar as nações-sem-Estado. Assim não há graça.
[1] Como Eduardo Galeano, em “O Futebol ao Sol e Sombra” escreve;