Archive for the 'Opinião' Category

Quando o futebol retornar

texto escrito em 27 de Abril de 2020

O mais importante entre as coisas menos importantes

Parece que se está numa contagem regressiva para o retorno às atividades do dia-a-dia. Daqui a algumas semanas abrandam as normas de isolamento social, setores do comércio e indústria retornam às atividades com algumas restrições, em meio à desconfiança de muitos e indiferença à pandemia de outros muitos também. Enquanto a Argentina encerrou o campeonato nacional e sugere uma temporada que começa em Janeiro, por cá cogita-se e vislumbra-se o retorno ao calendário, em sugestão vinda do topo. Não do topo do futebol!

Quando o futebol retornar, que seja com cautela, para os futebolistas, colaboradores e torcedores. A temporada foi interrompida, preparação e resultados não são mais os mesmos conforme o planejamento estabelecido no início do ano e que estava sendo posto em prática. As expectativas dos torcedores também não serão as mesmas. Claro, paixão e lealdade são inalteráveis, mas as prioridades serão outras: a economia precisa voltar à normalidade, a empregabilidade, a capacidade de produção, as pessoas mais próximas que demandam os nossos cuidados.

Bolas

Foto: reprodução/divulgação

Quando o futebol retornar, que os valores tenham sido repensados. Difícil, não? Mas não impossível. Que o respeito seja palavra de ordem e colocado em prática. Ele não pode ser usado para desviar a atenção em relação a outros problemas, o futebol é serviço público, importante para a sociedade e formador de opinião. Em tempos delicados, tem que dar o exemplo e servir. O futebol é importante, claro que é. No entanto, esta época de quarentena tem mostrado que há muito mais elementos importantes, instituições e patrimônios como a família, a solidariedade, o próximo e as normas de convívio social. Quisera tudo isso seja transferido ao futebol! Por que não pensar nisso? Pensar no respeito ao torcedor adversário e ao Árbitro (às leis), por exemplo. O futebol nos impede de sermos solidários? (Aliás, o que nos impede?) Não, claro que não.

Por que não ser tudo isso quando o futebol retornar?

Arrigo Sacchi uma vez mencionou que o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes. Certeiro. Já uns dizem que há tempo para tudo. E é isso, aos poucos tudo retornará à modalidade e o futebol vai reconquistar o destaque na cobertura das grandes mídias. Portanto, quando o futebol retornar, que volte mais humano, com respeito, e que transmita os valores esportivos que, quando da idealização da modalidade há mais de um século, deram a tônica para tornar-se o esporte que tanto amamos.

Por que não ser um difusor de boas práticas e bons costumes? Não há motivos para não ser.

Em tempo, a frase da semana:

“Dizem que o futebol não tem nada a ver com a vida do homem, com as suas coisas mais essenciais. Sinceramente, não sei o quanto essa gente sabe da vida; mas de algo estou certo: não sabem nada de futebol.”

Eduardo Sacheri,  escritor argentino.

Em tempo 2: texto em memória da amiga Letícia Fava, vítima da COVID na última semana. Querida amiga, obrigado pela confiança e carinho. ATÉ SEMPRE!

 

O time unificado coreano: nova etapa da política externa de Kim Jong-un?

Anteriormente no O Esporte e o Mundo, foi abordada a tensão entre as Coreias em seu confronto nas Eliminatórias para a Copa do Mundo FIFA de 2010, que você lê aqui. Curiosamente, no dia 17 de janeiro, os países anunciaram que teriam pela primeira vez desde a separação da Coreia ao fim da Segunda Guerra Mundial, um time unificado de Hóquei em uma competição internacional oficial, no caso, as Olimpíadas de Inverno de 2018, sediada na Coreia do Sul, em PyeongChang. Tendo em vista as recentes tensões provocadas pelos testes nucleares realizados pelo governante norte-coreano Kim Jong-un e sua interação com o presidente estadunidense Donald Trump, qual poderia ser a intenção por trás desta tentativa de aproximação?

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Rio 2016: a ginasta sul-coreana Lee Goim (direita) em selfie com a norte-coreana Hong Un-Jong (esquerda)

O que se pode afirmar é que de fato a atitude da Coreia do Norte de participar do evento esportivo em seu vizinho ao sul não pode ser desconsiderado do cenário político envolvendo ambos os países. Em seu discurso de ano novo, Kim Jong-un afirmou ter convicção de a Coreia do Sul teria êxito em sediar as Olimpíadas de Inverno, além de propor o diálogo imediato entre as Coreias. O mesmo discurso, transmitido na rede de TV estatal, conteve também manteve a hostilidade aos Estados Unidos e a Trump, afirmando que o país agora possui capacidade de ataca-los com poderio nuclear quando desejar.

O isolamento causado pelas atitudes do líder norte-coreano também pode ser mitigado pela iniciativa, tendo algum tipo de impacto sobre as sanções econômicas que a ONU mantém sobre o país. Representantes de altos cargos na organização internacional como o Secretário-Geral António Guterres, e o presidente da Assembleia Geral, Miroslav Lajcak se manifestaram positivamente sobre a iniciativa. A ida de Kim Jong-un e seu encontro com líderes de outros países e da ONU num evento transmitido para todo o mundo pode ajudar a diminuir o ideário de isolamento total da Coreia do Norte, e reabrir diálogos.

Também, é uma possibilidade para a Kim Jong-un mostrar algum sucesso de seu regime, como o local oferecido para o treinamento do time unificado de Hóquei, o recém-inaugurado Masikryong Ski Resort (foto abaixo).

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Enfim, não é novidade a tentativa de utilizar o esporte na reconstrução do diálogo entre as Coreias, o que já foi visto em outras oportunidades, mas o que se destaca é justamente o contexto no qual a atitude se insere. O inédito time unificado entre as Coreias é criado num momento onde, com a consequência de um grande isolamento e tensão em relação ao país, a Coreia do Norte enfim consegue (palavra deles) obter armas nucleares, o colocando num patamar com apenas outros 8 países. Tendo mão desse trunfo, o país deve passar a reabrir diálogo, negociar. Seus principais objetivos em médio prazo são a retirada das sanções econômicas aplicadas ao país, e a retirada da presença militar dos EUA na Coreia do Sul, e para ambos, a participação nas Olimpíadas de Inverno, onde se compete com amizade, pode ser o início de uma nova fase da política externa de Kim Jong-un.

Filipe de Figueiredo dos Santos Reis, graduado em Relações Internacionais pela PUC Minas.

Contato: filipedefigueiredo@hotmail.com

Jiu Jitsu Brasileiro é Poder Brando

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Jiu-Jitsu Brasileiro nas Filipinas

Neste último texto do ano ainda levanto alguns pontos sobre o esporte como “poder brando”, o soft power (Nye, 1990). São fontes de poder intangíveis, como cultura, ideologia e demais instituições, em detrimento das formas de poder tradicionais, como a militar (“hard power”). Usa-se o “soft power” para conseguir o que se quer sem usar o “hard power”. É capaz de moldar, influenciar e determinar as crenças e desejos dos demais. Com isso se alcançam objetivos para uma política externa através de meios não materiais.

Imagino o quanto o futebol inglês colabora com a imagem do Reino Unido pela Europa com o “Brexit” em curso. Ou então o apoio à independência catalã em função da diplomacia pública que exerce o FC Barcelona. Sem falar do Qatar e Emirados Árabes Unidos com seus patrocínios milionários e conglomerados esportivos que estão por disneificar* o esporte.

Foi com esta tempestade cerebral que tomou boa parte do meu tempo livre – ou de trabalho – nas últimas semanas, que comecei a refletir onde estão a diplomacia pública e o poder brando do Brasil. No esporte. Face à irrelevante atuação brasileira na política internacional, a diplomacia pública exerce importante papel na projeção do país pelo mundo. Não apenas na política, mas na opinião pública. As telenovelas, por exemplo. No entanto, dentro do esporte, a seleção de futebol outrora excelente instrumento de relações públicas, já não possui tanta força. Marta foi eleita a melhor do mundo por muitas vezes consecutivas recentemente. Entretanto, o futebol feminino – infelizmente – não possui semelhante projeção como o masculino. Existe sim, uma grande oportunidade com Neymar, Gabriel Jesus e uma eventual conquista da Copa 2018. Mas não, não é suficiente.

E então eu abro o facebook e vejo a postagem de um conhecido meu, instrutor de Jiu-Jitsu, que vive em Oslo (Noruega), com uma foto da franquia da academia da família Gracie. Na parede, uma bandeira do Brasil e a foto do Sr. Hélio Gracie. Na fachada, a inscrição: “Brazilian Jiu Jitsu” (BJJ). Uma pesquisa de 30 minutos na internet foram suficientes para constatar o quando que a luta é admirada no mundo todo, com milhões de seguidores, que carrega o nome e o pavilhão do Brasil. Ademais, com uma cultura de valores que colaboram com a imagem do país (sobretudo quando a bandeira está exposta). Pena não ser tão popular como é o futebol. Sem sombra de dúvidas é o principal representante de uma diplomacia pública brasileira.

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Com tudo isso, é mais que na hora para que haja maior integração entre o esporte brasileiro e a política externa do país. Afinal, são atores como o BJJ que fazem muito mais que embaixadas e diplomatas espalhados mundo afora.

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Em tempo: o BJJ é condição “sine qua non” para ingressar nas Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos. Para crescer na hierarquia militar daquele país, é necessária a aprovação no exame para subir de faixa.

* Disneificação (Disneyfication): processo pelo qual tem se transformado o futebol em função da aquisição de clubes/equipes/franquias de diversas modalidades dentro de conglomerados empresariais. Caso do Liverpool FC (Inglaterra) cujo dono é também proprietário dos Red Sox de Boston (beisebol) e no caso do futebol, Manchester City FC e New York City FC pertencem ao mesmo grupo. Existem outras “holdings” também, como a do Atlético de Madrid (ESP) com o do Club San Luís (MEX).

A questão Catalã e o lema de um clube

O lema do clube de futebol Barcelona é “Més que un club” (“Mais que um clube”, traduzido). Isso remete à histórica causa de autonomia e independência catalã em relação à monarquia da Espanha, com sede em Madri. Há algumas décadas, o nome oficial do clube era em espanhol (“Club de Fútbol Barcelona”). Outrora o uso do catalão bastante reprimido, apenas após o fim do governo Franco (1936-1975) a instituição passou a fazer sua comunicação neste idioma, tendo inclusive mudado seu nome oficial para “Fútbol Club Barcelona”.

Haja vista toda uma causa política e por toda uma história – ao mesmo tempo global – desde as origens de seu fundador suíço, a passar pela genialidade de Cruijff, Romário, Stoichkov e Messi; das equipes de basquete e handebol, do trabalho social que fazem na Catalunha e no mundo, “mais que um clube” simboliza bastante o que é o FC Barcelona. Dentro dessa linha de pensamento, não surpreende saber que Neymar – quando futebolista do clube – tinha que aprender o catalão.

Quando dos confrontos contra as equipes de Madrid (Real e Atlético), o “mais que um clube” alcança ainda maior projeção porque a rivalidade atinge níveis extremos. Uma vitória em campo simbolicamente representa a vitória da Catalunha sobre a Espanha, da República sobre a Monarquia, da independência sobre o centralismo. É a aplicação do papel de ser “mais que um clube”, que é o que quer representar – e consegue – o FC Barcelona. É uma identidade.

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FC Barcelona entrou em campo em 1º de Outubro (dia do referendo catalão) com uma camiseta que remonta à bandeira da Catalunha. Foto: Getty Images

Agora, em um cenário que a Catalunha sim, consegue a independência: não teremos mais o duelo Madri x Barcelona, o antagonismo tão forte que gera e vende milhões mundo afora em que dois dos pilares são o centralismo da capital da Espanha e a causa dos catalães. Perde a liga espanhola de futebol, mas também perde o Barcelona. Continuará sendo “mais que um clube”, sem dúvida. Entretanto, qual o propósito disso a partir de então, uma vez que o principal fator motivador (autonomia e independência catalã) foi conquistado? Para quem eles seriam mais que um clube? O Barcelona jogaria uma liga local fraca, os resultados seriam previsíveis, a assistência média de público iria cair na mesma proporção que a projeção o seu futebol pelo planeta. Por consequência, os patrocinadores. Resultado: menores investimentos financeiros.

Há quem diga que agora é preciso redefinir o branding do clube!

Ora, dentro da Sociologia há uma corrente que diz que você só existe porque existe o outro, o rival, o antagonista. Se isso acaba, a motivação para seguir a “marcha” é afetada. Não sou espanhol e tampouco catalão para falar de uma região a que não pertenço. É a análise de uma questão – delicada – dentro do universo do meu trabalho. A causa catalã e a manutenção da soberania espanhola são muito mais que futebol, são muito mais que clubes.

Em tempo: por ironia, na rodada de 1º de Outubro do futebol espanhol, o Real Madrid (clube que mais representa a Monarquia e centralismo de Madri) jogou contra o RCD Espanyol, o outro clube de Barcelona que simbolicamente representa a Monarquia espanhola na Catalunha.

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Filosofia de Trabalho II

Como continuação do post anterior, escrito há mais de 2 meses, dou sequência no tema da “Filosofia de Trabalho”, tão importante para quaisquer organizações, esportivas ou não.

O conhecido Club Atlético River Plate (Buenos Aires/ARG) foi rebaixado dentro de campo em Junho/2011. Fora de campo, afundado em dívidas. Realizaram eleições e assumiu um novo presidente – remunerado e de dedicação integral -, responsável por criar uma equipe de gestores que daria a volta por cima com o clube anos mais tarde, e conquistaria a Copa Bridgestone Libertadores de 2015.

Recorto aqui alguns trechos da matéria “This is the Story of the Fall and Rise of River” (Esta é a Estória da Queda e Ascensão do River) da renomada revista inglesa “Four Four Two”. Algumas das mudanças mais significativas foi o resgate da filosofia do clube e o estabelecimento de uma cultura e ética de trabalho.

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“Mas algo se destaca, a coisa mais importante foi filosofia. Nós voltamos às nossas origens, desde as categorias de base até a equipe principal, de respeitar o estilo que nos tornou grandes e a nossa maneira de se jogar futebol. ” (tradução nossa)

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“…River começou a desempenhar com os 3 Gs que foram uma parte importante da aproximação do clube com o seu jogo: Ganar (Ganhar), Gustar (aproveitar/divertir-se) e Golear (golear).” (tradução nossa)

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“E para o River, ser River novamente foi, sobretudo, uma vitória de caráter.” (tradução nossa)

É cada vez mais evidente a questão de estabelecer uma filosofia organizacional nas instituições esportivas. Os próprios resultados das grandes equipes de ponta nas mais diversas modalidades deixam isso ainda mais claro.

Mundo Oval

10 dias de Copa do Mundo. 19 partidas, com média de público de 51.201 pessoas. Jogos excelentes, de encher os olhos. Duelos de Titãs, como o Inglaterra x País de Gales do último sábado; o Escócia x Estados Unidos, do último domingo. Felizmente em 19 jogos, nenhum cartão vermelho, para o bem do esporte.

No entanto vê-se cada vez mais competitividade e profissionalismo entre as principais seleções do mundo: Inglaterra, País de Gales, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Irlanda e França. A competitividade aumenta mas a diferença diminui de pouco em pouco. O Japão superou os poderosos Springboks (África do Sul) neste Mundial. O país que não acompanhar este crescimento terá toda a sustentabilidade do rugby local comprometida. A Itália é um desses casos. Sem seleção de 7s e com uma seleção de XV que não se renova. Por outro lado, trabalham incansavelmente o Japão, a Argentina e os Estados Unidos. Com menos recursos (humanos e financeiros), o Uruguai trabalha para o crescimento e desenvolvimento. Fora do Mundial, o Brasil, através da Confederação nacional, Federações estaduais e clubes trabalha muito bem esse crescimento, de maneira sustentável.

Por fim, o crescimento e desenvolvimento sustentados na Disciplina, no Respeito, na Integridade, Solidariedade e Paixão, pilares – hooker, segunda-linha, asas, oitavo, scrum-half, abertura, pontas, centros e full-back – deste jogo apaixonante.

Japoneses comemoram triunfo de 34 a 32 sobre os Boks

Japoneses comemoram triunfo de 34 a 32 sobre os Boks

Feliz 7 a 1

Há um ano a seleção brasileira de futebol era derrotada pela Alemanha por 7 a 1 em plena semifinal de Copa do Mundo, jogada em casa. 5 a 0 ao intervalo. Inesquecível. Chocante e assustador. Eterno.

A Pátria é fundada através da história, de mitos, lendas e tradições. Em Portugal, são as conquistas pelo mar e a Língua Portuguesa com seus expoentes, como Bartolomeu Dias e Vasco da Gama (mar); Luís de Camões e Fernando Pessoa (língua portuguesa). Na Espanha (não em todo território), a Família Real. Na Catalunha e no País Basco, seus idiomas estão ao alcance de todos e expressam populações por séculos reprimidas. No Uruguai, o mate e o doce de leite.

Uma das instituições máximas de qualquer nação é o Exército. Ele defende e protege um povo, ou seja, o representa. Seus logros são também – simbolicamente – os de todo um povo. O Exército Brasileiro foi fundado na história da união das raças (o índio, o negro e o branco) para a expulsão dos holandeses na Batalha dos Guararapes, em 19 de Abril de 1648 (também Dia do Exército). Ao contrário de outros países, durante o período de consolidação do Estado-Nação do Brasil (século XX), as ações do seu Exército – no propósito dele – que mais ganharam projeção foram no exterior: FEB, Suez, Sinai e Angola.

Durante o século passado, o futebol alcançou grande popularidade. As publicações de Gilberto Freyre sobre a nação brasileira, fundada na mistura das raças, caíam no gosto dos intelectuais das principais cidades da República. Ao mesmo tempo o Brasil fazia muito boa campanha na Copa do Mundo de 1938, na França. Uma equipe constituída por integrantes de todas as raças que fazem o cotidiano do País. Não demorou muito para a seleção nacional de futebol se tornar a maior representante de todos os brasileiros. Para o bem e para o mal, gostem ou não, suas derrotas e vitórias passariam a ser decepções e realizações de todos.

O 7 a 1 de 8 de Julho de 2014 foi um nocaute. Não apenas dentro de campo. Além. Quem somos os brasileiros? De onde viemos e para onde iremos? Improviso ganha jogo (?)…no improviso conseguimos fazer um grande País? O “jeitinho brasileiro” é a nossa vantagem competitiva (?) …com o “jeitinho brasileiro” conseguimos fazer um grande País? O talento individual garante resultados (?) …com o talento individual sem um espírito coletivo seremos um grande País?
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Ambição, levar vantagem nas situações, fingimento, malandragem, individualismo – tão observados nos futebolistas brasileiros que nos representam em forma de Seleção e que a sociedade deixa um reconhecimento público – não são valores que fazem um grande País. Nessa linha de pensamento, a cultura da gorda gorjeta, o não respeitar a faixa de pedestre, o trânsito desorganizado (todos querem levar vantagem né?), o “Mensalão”, o “Lava Jato”, a politicagem nojenta e o desrespeito geral e irrestrito (que obriga por exemplo o governo do Rio de Janeiro a promover operações chamadas de “Choque de Ordem”) são espelhos do que somos. É medíocre. País sério não precisa promover choque de ordem. Em país sério a ordem é a tônica.

O placar de um ano atrás foi triste, mas pode ser um marco de mudanças para valorizarmos setores (sobretudo educação), comportamentos e princípios que farão o Brasil maior e melhor, multicampeão em todos os aspectos.

Cuba, Estados Unidos e o Beisebol

Recentemente Cuba e Estados Unidos retomaram diálogo que pode conduzir ao retorno das relações diplomáticas entre os dois países, rompido desde o início dos anos 1960.

Por mais que não possa parecer, historicamente eles são muito conectados. A independência cubana deu-se em período em que a Flórida era anexada por Washington. O tráfego de pessoas e embarcações era tão alto quanto pelo rio da Prata entre Uruguai e Argentina. Consequentemente, as duas sociedades (da Flórida e de Cuba) possuem vários pontos em comum, e as relações comerciais e políticas também sempre foram muito intensas. Obviamente o esporte não ficou de lado disso.

Levado pelos estadunidenses para Cuba, o beisebol tornou-se a modalidade número na ilha para identificar um povo contra o domínio espanhol, representado pelo futebol, pelota basca e pelas touradas. Ao longo da primeira metade do século XX, o intercâmbio no esporte entre as duas nações foi muito alta. Na década de 40, Fidel Castro, um dos líderes da Revolução Cubana de 1959 e ex-presidente do país, tentou uma vaga nos Senators, de Washington, equipe das grandes ligas dos EUA. Em várias ocasiões os revolucionários utilizaram o esporte como propaganda e, claro, assim foi com o beisebol.

Nos Estados Unidos, o beisebol tem raízes no ambiente militar, e isso explica em parte a ‘patriotização’ dos seus jogos, além de boa parte dos seus comissários terem sido antes coronéis e generais. Uma das primeiras aparições públicas do ex-presidente George W. Bush depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, foi em um jogo dos Yankees de Nova York, ao arremessar a primeira bola.

Sem sombra de dúvidas que o beisebol terá um papel importantíssimo na reaproximação dos dos países.

Feliz 2015 a todos!

 

Valores em Crise

A bolha estourou. O futebol de alto desempenho no Brasil ficou caro de uma tal maneira que a sua sustentabilidade está inviável. Salários muito altos. De atletas. De membros da comissão técnica. Das comissões de terceiros. Ingressos caros para serviços mal prestados. Violência. Cultura de trabalho nem um pouco voltada para o mercado – a eleição de Eurico Miranda no CR Vasco da Gama é sinal dos tempos. Luís Fernandes, do Ministério do Esporte, ao falar que os estádios construídos para o mundial de futebol estão em plena utilização, é a constatação plena do desconhecimento do próprio ambiente de trabalho.

Parece que todos querem levar uma parte nas comissões, em patrocínio, demissões, contratações. Uma ganância sem precedentes. Os patrocinadores fogem em debandada: Emirates e Sony romperam o aporte à FIFA. No vôlei brasileiro, o Banco do Brasil suspendeu o patrocínio para a Confederação Brasileira de Voleibol depois da constatação de irregularidades no uso dos recursos repassados à entidade. A KIA Motors já não vê vantagem em associar-se ao futebol, em função do baixo retorno e da imagem negativa que a ela pode ser associada.

Essa crise é o reflexo da sociedade. Dos valores invertidos. Da sobrevalorização de quem ganha muito e faz pouco, de quem fala muito e faz muito menos. Dos que se valem de qualquer coisa para promoção pessoal. Do carro que não para na faixa de pedestres, do que usa a vaga para deficientes a fim de favorecimento próprio. Ganância. Da sociedade que não respeita e não se dá ao respeito, que faz com que um deficiente físico suba as escadas de acesso a um voo comercial sem o auxílio de equipamentos. E em pouco mais de um ano seremos sede dos Jogos Paralímpicos!

O futebol explica a sociedade.

Por outro lado, existe esperança. Através de exemplos de quem trabalha. O basquete brasileiro tem dado um grande salto nos últimos anos. Com o acordo entre a NBA e a LNB (Liga Nacional de Basquete), tenho muita esperança de que sejamos contaminados com a cultura de trabalho norte-americana, voltada para o mercado, com teto salarial e regulamentação de todos os agentes.

É preciso valorizar o trabalho. E quem produz. Trabalho e produção movem o mundo adiante.

O Futebol Explica Santa Catarina

Marcel Mauss em suas obras citava o “fato social total”. Norbert Elias e Eric Dunning escreveram que o esporte é um fato social total, porque dele entendemos a economia, a geografia, dentre outros assuntos. O futebol é uma modalidade esportiva, logo, um fato social total. E pelo futebol entendemos a organização do estado de Santa Catarina.

Santa Catarina tem cerca de 95 mil km² e quase 7 milhões de habitantes. Portugal tem quase a mesma área, mas população de 11 milhões. O Paraguai tem o mesmo número de habitantes, mas 4 vezes maior de tamanho. A capital catarinense, antiga Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, não é a maior cidade e nem a economicamente mais importante.

Santa Catarina

Santa Catarina

Ao tomar o futebol para entender Santa Catarina, consideramos o cenário atual, com 3 equipes desse estado na primeira divisão do nacional de futebol: Criciúma EC (da cidade homônima), AF Chapecoense (Chapecó) e Figueirense FC (Florianópolis); 1 da segunda divisão porém recém-promovido Joinville EC (Joinville) e o outro clube de Floripa, o Avaí – caso terminasse hoje a segunda divisão ele estaria na Série A. Cinco times! Nessa linha de pensamento, estados economicamente mais representativos como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais teriam respectivamente 5 (São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos e Ponte Preta), 3 (Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama), 2 (Grêmio e Internacional) e 2 (Atlético e Cruzeiro) clubes!

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Possui Santa Catarina uma economia bastante diversificada e que se relaciona com a geografia de cada parte daquele estado. O extremo-oeste, cuja cidade mais importante é Chapecó, se baseia na agropecuária (Associação Chapecoense de Futebol). Joinville, no norte, pela indústria pesada (Joinville Esporte Clube). Florianópolis, pelos serviços (Figueirense Futebol Clube e Avaí Futebol Clube). O sul, representado pelo maior município, Criciúma, pela indústria de base (Criciúma Esporte Clube). Cada uma dessas regiões investe à sua maneira no esporte, em comum o futebol de alta competição. O resultado tem sido o êxito de vários clubes daquele estado, cuja representatividade sócio-econômica no cenário nacional está longe de ser protagonista.

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

Privilegia-se Santa Catarina por haver uma economia bastante diversificada e um vínculo relativamente pequeno do interior com a capital, em comparação com os outros estados da federação. Ademais, a capital não é o principal centro urbano. Nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, os adeptos do futebol torcem para clubes da capital e o investimento em alta competição tem se dado em outras modalidades, como o basquete, o vôlei e o futsal. Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, infelizmente não é longe de Porto Alegre (125km), o que facilita o deslocamento de torcedores a fim de ver jogos que representem o estado deles em competições Brasil afora, em detrimento da dupla CaJu (locais SER Caxias e Juventude EC). Isso não acontece com o migrante Gaúcho do oeste catarinense, que pode ver in loco a Chapecoense, potencializando a ligação identitária com a equipe.

O título deste blog é “O Esporte e o Mundo” e Santa Catarina faz parte dele. Mesmo pequeno de tamanho e em população, faz-se grande pelo exemplo dentro do universo desportivo brasileiro.



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