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Dia de Futebol Japonês

Ao aproveitar a passagem pela “Terra do Sol Nascente”, fui convidado pelo Carlos ‘Manikim’ Suriano para um jogo válido pela segunda divisão do futebol local (J-League 2), entre o JEF United Chiba e o Tokushima Vortis. O ‘Manikim’ (apelido de infância) é preparador físico do Tokushima e amigo de longa data. Vive no Japão há 13 anos com a esposa e os filhos.

Aceitei o convite, claro, e fui com a camisa do nosso clube de coração, o Esporte Clube XV de Novembro de Jaú. O maior ídolo do futebol japonês, Kazuioshi ‘Kazu’ Miura, atuou no Brasil por alguns anos e o seu primeiro clube em nosso país foi justamente o XV de Jaú. Abaixo, um jogo do XV contra o Corinthians, de 1988, em que ele faz um dos gols:

E agora, abaixo, o vídeo que fiz sobre o dia de futebol japonês:

Recomendo assistirem o documentário do amigo Tiago Pavini, com uma entrevista com o pai do Kazu, para terem uma ideia da importância do XV de Jaú para o futebol do Japão:

O “Derby” do futebol angolano

No Sábado dia 9 de Fevereiro estive no estádio 11 de Novembro (a. k. a. “Gigante do Camama”), em Luanda/Angola para o grande clássico do futebol local: Primeiro de Agosto versus Atlético Petróleos (Petro). As informações do jogo eram escassas, soube por um post do Primeiro de Agosto no facebook, apenas. O estádio estava a cerca de 40km de onde eu estava hospedado e o transporte era bastante restrito. Procurei por uma agência de turismo que fizesse o serviço, entretanto o preço mais barato que consegui para ele foi de R$650,00. Com o ingresso incluído, “diga-se de passagem”.

Inviável.

Em um gesto de boníssima vontade, o irmão deste que vos escreve ofereceu de levar-me ao jogo. Na sexta-feira que antecedeu a partida, sim encontrei na internet informações sobre o derby, como o preçário dos ingressos, hora de venda e abertura dos portões. Pois bem.

Amanhece o Sábado e, por precaução, chego ao estádio pelas 11 horas. Compro o ingresso: 1500Kz (R$15,00). Bom, diante de muito tempo livre, restava dar uma volta pelo “Gigante do Camama” e registrar alguns momentos com vídeos e fotografias. Não demorou bastante para ver um furgão da Rádio Nacional de Angola (RNA). Por curiosidade fiquei ali a assistir o programa de antevisão ao grande clássico do futebol local. Minutos depois sou abordado pelo produtor da emissora, que me convida a fazer uma participação. Pedido atendido e fui entrevistado pelo grande locutor, Jornalista Sr. Carlos Pacavira.

Depois de encerrada a minha participação, pretendia – agora sim – dar uma volta por fora do estádio (construído para a Copa Africana de Nações de 2010). No entanto, paro para conversar com torcedores e não demora muito para termos uma roda ali de três ou quatro a falar sobre futebol: de Angola, do Brasil e do mundo. Conversa vai, conversa vem, chega um novo pedido para participar da emissão de rádio, desta vez dentro do “Jornal de Sábado” da mesma Rádio Nacional de Angola. Após esta participação, sou convidado a estar com a equipe da RNA desde as cabines de imprensa. Acompanharia o derby desde lá.

E assim foi. Aos poucos a torcida começou a chegar. Dos 50 mil lugares, 35 mil foram preenchidos e o barulho era ensurdecedor. O Primeiro de Agosto (fundado em 1977) é o clube das Forças Armadas de Angola. Seus torcedores são conhecidos como os “Rubro-Negros”. O Atlético Petróleos surge em 1980, nasce da indústria petrolífera e dos seus sindicatos. Popularmente é conhecido como “Petro” e seu escudo é um dos mais bonitos que já vi.

O jogo termina 1 a 0 para os Rubro-Negros, com o gol marcado ao final do primeiro tempo. Uma experiência única e talvez indescritível. Preparei um vídeo que em breve poderá ser visto. Por enquanto fiquem com a prévia dele:

Simplesmente inesquecível. É como resumo o dia em que vivi o derby do futebol de Angola.

Conquistadores da América

O ano foi repleto de grandes acontecimentos no futebol. Entretanto a novela da final da “Taça Libertadores da América” pessoalmente deixa-me triste. Alguns sabem da relação pessoal que tive com a taça ao transportá-la para Assunção, em um roteiro cinematográfico. Fico macambúzio por conta dos casos de violência, pelas indecisões, pela falta de profissionalismo, pelo desserviço e falta de zelo em relação ao futebol da América do Sul.

É pública a forte influência de alguns clubes e federações na Confederação Sul-Americana de Futebol, em detrimento de outros. É escancarado na história o benefício que alguns tiveram nas competições continentais. Um “prende e manda soltar” característicos de um sistema corruptor e corruptível.

A gestão do futebol na América do Sul é reflexo da sociedade local, salvo exceções. Raras exceções.

As corriqueiras cenas de policiais com escudos a protegerem os futebolistas que batem o escanteio, dos estádios que caem aos pedaços, dos atrasos em função de quedas de energia e os inchaços das competições para satisfazer elites políticas só servem para justamente ficarem no passado. Um dia, lá atrás, isso fez parte. Os europeus devem ter aprendido com Heysel, Hillsborough e Valley Parade. O futebol de alta competição atual não aceita estas situações mencionadas no início deste parágrafo. Isso não é romântico e não dá nenhum glamour ao torneio. Dá, na verdade, vergonha.

Ademais, decide-se que a grande final do principal torneio de futebol de clubes da América do Sul será fora daqui. Será na capital da Espanha, Madri. Cidade que por séculos foi sede do domínio espanhol nesta parte do mundo. Das inesgotáveis mágoas e rancores que o Sul da América, os povos nativos e adotivos, muitos deles, têm pela Península Ibérica.

Quem conquistaria a América, afinal? Os campeões ou a cidade apontada para receber o segundo jogo da final? Sinceramente, fico sem saber. A novela é longa e os seus capítulos diários desenham um enredo cujo vencedor não vai ser o protagonista.

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Torcedores do River Plate (ARG) no Monumental, estádio onde devia ter sido disputado o segundo jogo da final da Taça Libertadores da América (Foto: Metro Jornal)

A protagonista da decisão será esta indecisão arrastada por dias! O resultado é que todos os sul-americanos perdemos.

Sem quaisquer coitadismos ou terceiro-mundismos, é incoerente, doloroso e dolorido golpe para os sul-americanos a decisão da Taça Libertadores América ser jogada fora daqui. Independente de ser em Madri, Miami ou em Doha.

Ao mesmo tempo é um prêmio. É um prêmio a tudo aquilo que não conseguimos ser.

Com tudo isso, não sei se aprenderemos com os acontecimentos. A ânsia pelo poder, a ganância e o dinheiro não podem valer mais que o ser humano, que um campeonato melhor organizado, com garantias aos atletas e aos torcedores.

É preciso voltar-se para o mercado, atender as demandas do público, em vez de atender as demandas vindas da forte influência de alguns clubes e federações dentro da Confederação Sul-Americana de futebol.

Em tempo: enquanto escrevia esta crônica, tive acesso a uma notícia que dizia o CA River Plate recusar-se a jogar a final da “Taça Libertadores da América” em Madri. No mínimo ridículo. Gesto de criança mimada. Joguem e resolvam isso logo.

Em tempo 2: esta novela condena a candidatura sul-americana para a Copa do Mundo de Futebol de 2030.

Copa do Mundo de Futebol e Poder Brando: Putin

Rússia e Arábia Saudita são muito inimigos na política internacional. Possuem zonas de interesses e influenciam nos assuntos internos de inúmeros países, sobretudo do Oriente Médio. Os sauditas têm como aliados, os norte-americanos. Os russos, portanto, quer seja por herança da Guerra-Fria ou não, procuram contra-balançar a presença estadunidense na região. Resumo: a relação de ambos não é a melhor.

O líder russo, Vladimir Putin, há quase duas décadas no poder, sempre passou uma imagem de liderança, mas também de rigidez, agressividade, intransigência e intolerância. Pouco se sabe da vida pessoal dele, e raramente demonstra emoções publicamente. É pela força bélica e poderio econômico (“Hard Power”) que a Rússia obtém suas vantagens na política internacional. Entretanto, a partir de 14 de Junho, abertura do Mundial de Futebol em Moscou, foi transmitida uma outra imagem: um Putin amistoso, aberto, global e sorridente no discurso de abertura e também ao ver o jogo ao lado do seu similar saudita, o Rei Salman. Este contexto, somado aos 5 a 0 da Rússia sobre a Arábia Saudita, de um modo geral faz com que o planeta tenha uma boa impressão do país-sede da Copa. Não aquele que patrocina ditaduras que restringem as liberdades ou que invade regiões e toma posse delas, como foi com a Crimeia. A prazo, a boa imagem de um país pode se tornar um importante poder de barganha, exemplo de um poder brando (“Soft Power”).

Aliás: se você leu este texto, com base no que você viu no jogo de abertura e cerimônia, a Rússia te causou boa impressão ou mudou aquela que você possui? Se sim, este é apenas o primeiro exemplo do poder brando neste mundial de futebol. A esperar pelos próximos.

Valores em Crise

A bolha estourou. O futebol de alto desempenho no Brasil ficou caro de uma tal maneira que a sua sustentabilidade está inviável. Salários muito altos. De atletas. De membros da comissão técnica. Das comissões de terceiros. Ingressos caros para serviços mal prestados. Violência. Cultura de trabalho nem um pouco voltada para o mercado – a eleição de Eurico Miranda no CR Vasco da Gama é sinal dos tempos. Luís Fernandes, do Ministério do Esporte, ao falar que os estádios construídos para o mundial de futebol estão em plena utilização, é a constatação plena do desconhecimento do próprio ambiente de trabalho.

Parece que todos querem levar uma parte nas comissões, em patrocínio, demissões, contratações. Uma ganância sem precedentes. Os patrocinadores fogem em debandada: Emirates e Sony romperam o aporte à FIFA. No vôlei brasileiro, o Banco do Brasil suspendeu o patrocínio para a Confederação Brasileira de Voleibol depois da constatação de irregularidades no uso dos recursos repassados à entidade. A KIA Motors já não vê vantagem em associar-se ao futebol, em função do baixo retorno e da imagem negativa que a ela pode ser associada.

Essa crise é o reflexo da sociedade. Dos valores invertidos. Da sobrevalorização de quem ganha muito e faz pouco, de quem fala muito e faz muito menos. Dos que se valem de qualquer coisa para promoção pessoal. Do carro que não para na faixa de pedestres, do que usa a vaga para deficientes a fim de favorecimento próprio. Ganância. Da sociedade que não respeita e não se dá ao respeito, que faz com que um deficiente físico suba as escadas de acesso a um voo comercial sem o auxílio de equipamentos. E em pouco mais de um ano seremos sede dos Jogos Paralímpicos!

O futebol explica a sociedade.

Por outro lado, existe esperança. Através de exemplos de quem trabalha. O basquete brasileiro tem dado um grande salto nos últimos anos. Com o acordo entre a NBA e a LNB (Liga Nacional de Basquete), tenho muita esperança de que sejamos contaminados com a cultura de trabalho norte-americana, voltada para o mercado, com teto salarial e regulamentação de todos os agentes.

É preciso valorizar o trabalho. E quem produz. Trabalho e produção movem o mundo adiante.

Money Talks – محادثات المال –

O mercado fala mais alto, quem tem o poder de compra detém as preferências e os produtos precisam se adaptar ao mercado. Nessa linha de pensamento, para conquistar o mercado Islâmico, Real Madrid e Barcelona fizeram significativas mudanças em seus escudos.

O FC Barcelona suprimiu a cruz de São Jorge no quarto quadrante, que também representava as Cruzadas na antiguidade, cujos objetivos eram sobretudo a Cristianização de territórios onde hoje habitam povos de imensa maioria muçulmana.

Historicamente a Casa de Bourbon sempre foi vinculada à Igreja Católica. Pot isso o Real Madrid CF fez algo parecido. Para ter um produto mais aceito entre os Islâmicos, retirou a cruz acima da coroa de seu símbolo.

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O mercado fala alto, o dinheiro fala alto, e fala em árabe: محادثات المال

O Futebol Explica Santa Catarina

Marcel Mauss em suas obras citava o “fato social total”. Norbert Elias e Eric Dunning escreveram que o esporte é um fato social total, porque dele entendemos a economia, a geografia, dentre outros assuntos. O futebol é uma modalidade esportiva, logo, um fato social total. E pelo futebol entendemos a organização do estado de Santa Catarina.

Santa Catarina tem cerca de 95 mil km² e quase 7 milhões de habitantes. Portugal tem quase a mesma área, mas população de 11 milhões. O Paraguai tem o mesmo número de habitantes, mas 4 vezes maior de tamanho. A capital catarinense, antiga Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, não é a maior cidade e nem a economicamente mais importante.

Santa Catarina

Santa Catarina

Ao tomar o futebol para entender Santa Catarina, consideramos o cenário atual, com 3 equipes desse estado na primeira divisão do nacional de futebol: Criciúma EC (da cidade homônima), AF Chapecoense (Chapecó) e Figueirense FC (Florianópolis); 1 da segunda divisão porém recém-promovido Joinville EC (Joinville) e o outro clube de Floripa, o Avaí – caso terminasse hoje a segunda divisão ele estaria na Série A. Cinco times! Nessa linha de pensamento, estados economicamente mais representativos como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais teriam respectivamente 5 (São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos e Ponte Preta), 3 (Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama), 2 (Grêmio e Internacional) e 2 (Atlético e Cruzeiro) clubes!

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Possui Santa Catarina uma economia bastante diversificada e que se relaciona com a geografia de cada parte daquele estado. O extremo-oeste, cuja cidade mais importante é Chapecó, se baseia na agropecuária (Associação Chapecoense de Futebol). Joinville, no norte, pela indústria pesada (Joinville Esporte Clube). Florianópolis, pelos serviços (Figueirense Futebol Clube e Avaí Futebol Clube). O sul, representado pelo maior município, Criciúma, pela indústria de base (Criciúma Esporte Clube). Cada uma dessas regiões investe à sua maneira no esporte, em comum o futebol de alta competição. O resultado tem sido o êxito de vários clubes daquele estado, cuja representatividade sócio-econômica no cenário nacional está longe de ser protagonista.

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

Privilegia-se Santa Catarina por haver uma economia bastante diversificada e um vínculo relativamente pequeno do interior com a capital, em comparação com os outros estados da federação. Ademais, a capital não é o principal centro urbano. Nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, os adeptos do futebol torcem para clubes da capital e o investimento em alta competição tem se dado em outras modalidades, como o basquete, o vôlei e o futsal. Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, infelizmente não é longe de Porto Alegre (125km), o que facilita o deslocamento de torcedores a fim de ver jogos que representem o estado deles em competições Brasil afora, em detrimento da dupla CaJu (locais SER Caxias e Juventude EC). Isso não acontece com o migrante Gaúcho do oeste catarinense, que pode ver in loco a Chapecoense, potencializando a ligação identitária com a equipe.

O título deste blog é “O Esporte e o Mundo” e Santa Catarina faz parte dele. Mesmo pequeno de tamanho e em população, faz-se grande pelo exemplo dentro do universo desportivo brasileiro.



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