Archive for the 'Opinião' Category



A Cartilha

Foi divulgada hoje parte de uma cartilha para o atleta que faz parte da seleção brasileira de futebol. É um código de conduta e vestimenta, que dentre outras coisas proíbe o futebolista – em serviço da equipe nacional de futebol – se apresentar em traje de passeio, com brincos e acessórios, além de chinelos.

Certíssima a adoção desta cartilha. A entidade é uma organização, com missão, visão e valores/propósitos a serem zelados. O modo de agir, falar e se vestir dos seus integrantes refletem a imagem dela, de como ela é vista, falada e lembrada. A maneira como o futebol brasileiro é reconhecido – independente do 7 a 1 – foi construído dentro de um passado riquíssimo e centenário. Dentro de inúmeras histórias e lendas, que vão desde Friedenreich, Maracanã, da camisa amarela, do canarinho, e que hoje estão em Neymar e demais integrantes do time atual. E são esses que vão passar isso adiante.

O futebol da Noruega não tem a mesma história que o do Brasil. Mas a maneira como os jogadores da equipe norueguesa se comportam e se apresentam, trazem-me boa impressão – não do país – da maneira como o esporte é tratado por lá.

Tudo isso é para o bom andamento da organização, com direitos e deveres para todos. Como qualquer organização, desportiva ou não.

Código de Conduta do Centro de Treinamento do Rugby Brasileiro: acesse aqui

Em um programa de TV desses da hora do almoço, disseram que a cartilha lembra o militarismo. Acredito que nos veículos de comunicação em que eles trabalham também exista um código semelhante, de não poderem trabalhar de bermuda ou chinelo, de se atrasarem, em relação ao vocabulário também. É uma estupidez fazer alusão dessa cartilha a uma rotina militar. Ignorá-la e condená-la publicamente é corroborar o comportamento de uma sociedade individualista, sem valores, consumista, que não respeita faixa de pedestres, que tem o trânsito mais violento do mundo, que corrompe e é corrompida. E que vai votar neste próximo domingo!

“Tamu bem!”

O 'Livro Vermelho', de Mao Tse Tung

O ‘Livro Vermelho’, de Mao Tse Tung

7 Anos

Hoje este blog pinta o sete. Completa 7 anos. São 2557 dias online com 420 posts (este é o 421º) e 102.500 visitas aproximadamente. Isso dá um post pra cada 6,08 dias (há tempos de mais e de menos frequência nos textos) e cerca de 40 visitas por dia.

Obrigado pela paciência na leitura dos devaneios e disparates. Àqueles que seguem o blog, um obrigado ainda maior.

Multinacional

Temos na história alguns casos de megaeventos esportivos multinacionais. As Copas do Mundo de Rugby de 1991 e de 2007 são exemplos, além da EURO 2000 (Bélgica e Holanda) e do Mundial FIFA de 2002 (Coreia do Sul e Japão).

No entanto a proposta para o campeonato europeu de seleções de futebol de 2020 é sem precedentes. Foram escolhidas 13 cidades por todo o continente para abrigarem jogos de todo o torneio. São elas: Londres (ING), Glasgow (ESC), Baku (AZE), Bruxelas (BEL), Copenhague (DIN), Munique (ALE), Budapeste (HUN), Bilbao (ESP), Bucareste (ROM), Roma (ITA), São Petersburgo (RUS), Amsterdã (HOL) e Dublin (IRL).

Isso só é possível graças a um nível de integração política, de transporte e telecomunicações que apenas a Europa possui. Excelente iniciativa, além de muito boas cidades as escolhidas (em minha opinião faltou alguma de Portugal e da Escandinávia).

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Baku, no mar Cáspio, capital do Azerbaijão

Anão Diplomático

Yigal Palmor, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores de Israel qualificou o Brasil como ‘Anão Diplomático’. É uma reação sobre a convocação do governo Brasileiro do Embaixador do Brasil naquele país para consulta, acerca do recente conflito entre Hamas e as Forças Armadas Israelenses.

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Em entrevista a uma emissora de TV, Palmor acrescentou que a resposta do Estado Judaico tem sido proporcional em relação aos ataques que sofre, que não é como no futebol, quando ocorre um 7 a 1, numa alusão clara à derrota sofrida para a Alemanha no passado 8 de Julho.

Palmor disse a verdade, porque realmente o Brasil não é protagonista na política internacional, sobretudo em uma questão tão delicada como é a da Palestina. Ele não usou as palavras mais ‘diplomáticas’ para expressar a opinião do governo de Israel. Ainda bem. O Brasil realmente precisa situar-se melhor em algumas questões que envolvem a política internacional a fim de não cometer mais trapalhadas como a do ano passado, quando deu abrigo e proporcionou a fuga do senador Boliviano, Roger Pinto, para o território brasileiro.

Tudo isso consequência de um quadro de funcionários que vêm de uma camada da população distante da realidade política e sócio-econômica do país, quadro este em parte arrogante e prepotente, capaz de fazer declarações inoportunas como a em relação ao conflito do Oriente Médio e no caso do Senador estrangeiro, quando o Diplomata envolvido dissera que as condições de vida do político boliviano na Embaixada do Brasil se assemelhavam às prisões do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) durante os anos 1970. Até a Presidente Rousseff declarou: ‘A Embaixada do Brasil está longe de ser o DOPS. Eu sei o que é o DOPS, eu estive lá, eu posso falar.”

O que Yigal Palmor disse é pura verdade. Foi infeliz ao comparar com o esporte. Uma guerra é um jogo, mas há vidas em questão. É um recado para o Brasil se colocar em seu lugar, trabalhar mais e melhor, numa política internacional que verdadeiramente reflita os objetivos do país, em que o conflito do Oriente Médio entre Hamas e Israel não faz sentido estar.

Copado

E acabou o Mundial FIFA Brasil 2014. Foi um grande sucesso, sem sombra de dúvidas, mostrou pontos positivos mas deixou muito claro os negativos.

Os positivos muitos sabem: a cortesia e a receptividade, sobretudo. Os negativos: a falta de infra-estrutura, a dificuldade para fazer turismo (preço, infra-estrutura, inadequação de serviços), o transporte público ineficiente e a imprudência no trânsito. O Ministério do Turismo quer trabalhar para aumentar o fluxo de visitantes no Brasil, ao ressaltar os itens positivos supracitados. Entretanto, este não é um trabalho do Ministério do Turismo apenas. Se há uma percepção negativa do país, todo o Executivo deve trabalhar em conjunto. O Brasil não transmite credibilidade suficiente para atrair turistas. A qualidade percebida é baixíssima e, ainda mais com os 7 a 1 do último dia 8 de Julho, menos ainda.

Isso não é besteira. De fato acontece e se chama ‘marca país’. Obviamente a vitória alemã não vai fazer as pessoas a preferirem BMWs ou Porsches, até mesmo porque essas marcas já são muito bem reconhecidas. Mas o quarto título mundial aumenta a qualidade percebida do esporte alemão e da capacidade de planejamento e execução de uma organização alemã (esportiva ou não).

O Brasil não possui empresas ou marcas como Porsches ou BMWs, por isso o desempenho de uma delegação esportiva brasileira é mais importante ainda para a credibilidade do país. Essa credibilidade traduz-se em turismo, posicionamento internacional pelo acesso a informação, pelo acesso a tecnologias, além das oportunidades de investimento externo.

Sem dúvida alguma o Brasil foi posto à prova. O Mundial de futebol escancarou que se o Brasil quer ser um grande país, há muito ainda para ser feito, muito ainda para a nossa sociedade mudar. Alguns comportamentos gestos e atitudes são primitivas, ridículas e inaceitáveis, dentre elas: levar vantagem nas situações, torcer contra um país ou não aceitar uma derrota. Não há grandeza nessas atitudes. São situações como estas que também colocam a sociedade à prova, por mais que não possam parecer.

Oxalá tenhamos aprendido algo e, tomara, vamos em frente.

O Legado, Afinal

Os grandes legados que o Mundial FIFA deixou antes mesmo de terminar: profissionalismo e humildade.

Profissionalismo porque para entregar um produto esportivo que satisfaça seus consumidores (para que continuem a consumir este produto), é preciso dedicar-se totalmente a uma função. Para que uma equipe nacional mantenha um alto padrão de desempenho é necessário profissionalismo. E atitude profissional, sem ‘Caldeirão do Huck’ no treino da Seleção Nacional.

Para receber turistas em uma boa rede de infra-estrutura turística, é preciso de um grande número de profissionais e de escolas de formação desses profissionais.

Para recebermos bem os turistas a fim de fazê-los quererem voltar ou indicarem o país para outro, é preciso profissionalismo e humildade em tratá-los bem, não importa o quanto ($$$) consumam.

Para haver um bom desempenho esportivo é preciso humildade em reconhecer que é preciso melhorar, com profissionalismo e, sobretudo, atitudes profissionais.

Humildade em reconhecer que o País em todos os aspectos precisa melhorar, com menos improviso e mais cultura de trabalho. Profissional em todos os sentidos.

Antes desse mundial eu dizia que o Brasil estava sendo colocado à prova, se quiser ser grande. E está sendo (colocado à prova). É preciso ser humilde – que beleza a Argentina na final, e todos os anúncios ridículos de TV do Brasil que enfatizam porcamente uma rivalidade que podia ser saudável; não é preciso chegar ao baixo nível de como é tratada essa rivalidade pela publicidade do País vizinho – e profissional, com planejamento, método e execução.

Planejamento + Método + Execução = 7 a 1.

Nada resiste ao trabalho.

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12º Fator

Não é o calor, não é pela cultura do improviso, não é pela competência futebolística. O sucesso das seleções da América Latina neste Mundial FIFA veste a camisa de número 12: é a torcida.

A Copa do Mundo no Brasil tem mostrado ao mundo o jeito latino-americano de torcer: um grande carnaval, repleto de cânticos e festa, diferente dos outros padrões, da cultura ‘Ultra’ na Europa e das ‘Torcidas Organizadas’ no Brasil. Outro dia mesmo ouvi pela Rádio Gaúcha um locutor – cujo nome não me lembro – que disse: ‘bom aquele tempo em que as torcidas não passavam de ser apenas organizadas‘. Organizadas no sentido de se colorirem e organizar as cantorias. Maneira que é adotada pelos estadunidenses também, que são numerosos e barulhentos.

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Diferentes dos demais. Na contramão dos europeus, holandeses, belgas e alemães, que estão em grande número e fazem enorme festa. Os australianos não ficam pra trás. Apesar das derrotas, não fizeram jogos ruins, além de ter uma torcida que ‘joga’ junto, agitada, animada e bem-humorada, que remete ao estereótipo de descontraído que o mundo tem de quem é da Austrália.

A França…a França ainda se mostra como incógnita! Mas há muito para acontecer ainda.

De fato a torcida sim faz a diferença. É o fator de número 12, o duodécimo fator. A distância favorece isso, afinal o evento é na América do Sul. Lembramos Uruguai 1 x 0 Itália e Espanha 0 x 2 Chile. Os estádios e as cidades estão tomados de uruguaios, chilenos, colombianos, argentinos, mexicanos, estadunidenses e, em menor número, de equatorianos, hondurenhos e costarriquenhos. É cientificamente provado que músicas provocam reações hormonais que estimulam a auto-estima em quem faz parte do espetáculo esportivo, torcida e jogadores.

Galeano já dizia: “jogar sem torcida é dançar sem música”. Se não for a torcida, este Mundial não tem explicação.

 

A Identidade Nacional através da Copa do Mundo

Já pararam e se perguntaram por que um jogo do Brasil em um mundial de futebol é importante?

Vamos voltar no tempo.

1648: formação de uma das principais instituições para um Estado-Nação, o Exército. Deu-se no contexto da Invasão Holandesa (1624-1654), quando houve a união de três líderes das principais etnias do Brasil naquela época: Vidal de Negreiros (branco, nascido na Paraíba), Filipe Camarão (Indígena) e Henrique Dias (negro nascido no Nordeste), para a Batalha dos Guararapes (19/4/1648). É este o Dia do Exército, quando houve a união das três raças para a libertação do Brasil.

1888: abolição da escravatura. 1889: proclamação da República e com isso o rompimento em definitivo com o passado político de Portugal. A abolição da escravatura ‘insere’ o negro na sociedade brasileira (sabemos que não foi assim e que até hoje não é assim) e a República consolidaria o processo de liberdade e democracia para todas as camadas da população. Também sabemos que não foi bem dessa maneira, mas o propósito era este.

Enquanto o propósito não era concretizado, o Brasil quase se desmantelou. Foram vários levantes e revoluções até a implementação do Estado Novo (1937-1945) por Getúlio Vargas, dentre elas: a Revolução Federalista (anos 1890), Canudos (final do século XIX), Revolta Tenentista (década de 1920) e a Revolução Constitucionalista (1932).

O que era ser brasileiro e pertencer ao Brasil até então? Nada. Eram países dentro de um país. Ademais, apenas uma elite era considerada apta para votar. As Forças Armadas, também estavam restritas a uma elite.

A primeira representação de algo genuinamente brasileiro foi a seleção nacional de futebol da Copa do Mundo FIFA de 1938. Ali estavam brancos (ex.: Bauer) e negros (ex.: Leônidas da Silva) de várias partes do país que conquistaram um grande 3º lugar. A seleção de futebol mostrava-se acessível para toda a população devido às origens de boa parte de seus jogadores, e era a mistura das raças – que Gilberto Freyre pregou em suas obras -, pilar da formação do Exército Brasileiro, instituição primária na constituição de um Estado-Nação.

E daqueles anos até hoje ela tem se mostrado dessa maneira. É a representação de um país multicultural e de vasta extensão territorial. Na necessidade de mostrar isso ao mundo todo e fazer valer a condição de soberania, a Copa do Mundo de futebol torna-se o melhor palco para essa manifestação.

Cara Pálida

Ontem pelo rádio ouvi que Franz Beckenbauer colaboraria para as investigações de suborno durante o processo de escolha para as próximas sedes das Copas do Mundo FIFA, na Rússia em 2018 e no Qatar em 2022.

Há motivos políticos atrás disso. Por que falaria disso em altura da provável reeleição de Joseph Blatter à presidência da FIFA? Ademais, poucos se lembram, mas o país mais cotado a receber o mundial de futebol de 2006 era a África do Sul. Foi a Alemanha a eleita, por 1 voto de diferença, com Beckenbauer à frente do Comitê Organizador Local. À época houve suspeita de compra de votos, mas logo isso foi colocado de lado.

A transparência – objetivo dele em colaborar para as investigações – deve começar a partir dele, com o que houve anos atrás.

12 de Junho de 2014

Chegou o grande dia!

Hoje é o pontapé de partida de mais uma situação que coloca o Brasil à prova, como este blog tem tratado nos últimos anos, sobre o mundo visto pelo Brasil e o contrário sobretudo.

Se o País quer ser atuante na conjuntura – em quaisquer dos aspectos – internacional, deve demonstrar sua grandeza ao realizar e organizar este evento. Encarar isso como um legado do Brasil ao mundo. E isso não parte apenas de quem organiza, mas também de todos os que aqui vivem. Afinal somos os anfitriões.

Qual a impressão que queremos deixar para o planeta? Nada mais apropriado do que usar uma expressão do rugby para vislumbrar o Brasil (fora de campo): “vai pra cima, vai por essa, Brasil!”



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