Kiev e Caracas. Capitais distantes, mas com muita coisa em comum. Ambas são palco de manifestações contra o governo de (e dessa) situação em seus países, Ucrânia e Venezuela, respectivamente. O europeu, marionete russa. O sul-americano, controlado por uma ditadura imbecil, de falsos socialistas.
É tanta repressão na Ucrânia que alguns atletas do país nos Jogos Olímpicos de Sochi deixaram as competições. O prefeito de Kiev, pertencente ao partido dessa situação, renunciou ao mandato e abandonou a legenda. O principal líder da oposição na Ucrânia e pró-União Europeia é Wladimir Klitschko, ex-pugilista, um dos maiores do mundo. Metaforicamente um cruzado ou um uppercut bem aplicado derrubam o governo.
Na Venezuela chegam ao absurdo de colocarem no salão da presidência um quadro do ex-presidente daquele país Hugo Chávez ao lado do de Simón Bolívar. Não há o que comparar. É falso socialismo porque a pobreza aumenta a cada dia. Nos supermercados, uma garrafa de um litro de Coca-Cola custa dez reais. Por cinco reais se enche o tanque de gasolina do carro.
Isso é certo? Não. Por isso a insatisfação. Isso porque não citei o Brasil.
O jogo mais ridículo que já existiu, só que nunca aconteceu.
A seleção chilena de futebol passou em 1973 para a repescagem na classificação ao Mundial FIFA de 1974. Enfrentaria a então União Soviética em dois jogos, dias 26 de Setembro, em Moscou, e dia 21 de Novembro, em Santiago.
Aos 11 de Setembro de 1973 um Golpe-de-Estado no Chile colocava fim ao governo de Salvador Allende, pró-socialista, alinhado aos soviéticos. Dias mais tarde chilenos e soviéticos empatavam em 0 a 0, em Moscou. Enquanto isso o Estádio Nacional servia de campo de concentração de opositores ao novo regime no país sul-americano.
Entretanto deixaram o mesmo estádio pronto para o jogo da volta. Os soviéticos alegaram que não viajariam por falta de condições de segurança e pelo fato de o local ter sido usado como centro de detenção e tortura.
Não viajaram mesmo. Os chilenos sim compareceram e representaram a classificação ao Mundial FIFA 1974 através das cenas abaixo:
O jogo mais ridículo que já existiu, só que nunca aconteceu.
Quando da Guerra da Bósnia (1992-1995) eu tinha treze, quatorze anos. Era a segunda guerra que acompanhava. A primeira tinha sido do Iraque, em 1991. Tomahawk e Exocet tornaram-se infelizmente nomes comuns e lembro-me da cobertura da TV à época. Cobriam o conflito como se fosse esporte. Lembro-me bem, o apresentador dizia: “…e nesta batalha os EUA atuaram com: F-16…três mísseis…enquanto as tropas de Saddam combateram com tais e tais armamentos…”.
O conflito nos Bálcãs não parecia ter fim. Em função da declaração de independência da Bósnia (1992), todos os dias, ininterruptamente, Sarajevo (capital da Bósnia e Herzegovina) era bombardeada, ou então as cidades de Mostar ou Srebrenica. Não havia apenas bósnios que habitavam o país. Havia sérvios e croatas, que queriam a anexação do território bósnio às respectivas pátrias-mãe. Era um dia pior que o outro, perseguição étnica, genocídio. Tudo isso ali, acontecendo a mais ou menos 100 quilômetros da Itália, da Áustria, da Europa Ocidental, há muito pouco tempo, 20 anos.
Com o Tratado de Dayton (1995), pôs-se fim ao conflito e a integridade bósnia é mantida, com líderes sérvios, croatas e bosníacos. Milosevic (Slobodan, ex-presidente iugoslavo) ainda tentaria sustentar a Iugoslávia, mas perde poder e é julgado, dentro e fora do país. Nova geração de políticos, moderados, assume o poder em Belgrado. A província do Kosovo passa por processo de desmembramento, Montenegro conseguiu mais tarde uma independência pacífica que deu origem a dois novos países, o próprio Montenegro e a Sérvia, cuja capital continua sendo Belgrado.
Voltemos à Bósnia. Sarajevo fora sede das Olimpíadas de Inverno, de 1984. Entretanto, até hoje, quando vem-me o nome “Sarajevo” (saraievo), vem à mente edifícios destruídos e imagens de horror. Por pouquíssimas vezes a Bósnia e Herzegovina teve chances de mostrar-se ao mundo como país. Ou não teve.
Mas terá. Nesta última semana o país conquistou vaga para a fase final da Copa do Mundo FIFA que será disputada no Brasil, em 2014. O esporte simbolicamente explicita para a opinião pública internacional que a Bósnia é uma soberania e independente. Declarações de independência, reconhecimento de soberania por outros países e acordos de paz, não bastam.
O reconhecimento público dá-se apenas através de uma via, a do esporte, como se o(s) atleta(s) dissessem: “sim, existimos e somos um país”.
Dennis Rodman (ex-jogador da NBA) tem feito constantes viagens para a Coreia do Norte. Diz-se amigo do ditador, Kim Jung-Un, de aproximadamente 30 anos de idade, educado bem longe de Pyongyang e preparado para assumir o lugar do pai, falecido há alguns anos.
Mais uma vez o esporte usado pra fins políticos.
Kim Jong-Un conhece o mundo ocidental, sabe o que é a NBA, quem foi e quem é Dennis Rodman. Por isso o recebe de braços abertos. Abertura que apenas o esporte é capaz de fazer. Ora, Rodman é estadunidense, nacionalidade a quem os norte-coreanos dirigem todas as suas hostilidades propagandísticas. Ele não vai à toa até lá. A aproximação à República Popular da Coreia é política de Estado norte-americana.
Se as viagens de Rodman não possuem fins políticos, outra explicação portanto não existe, se até o ping pong (!) aproximou a República Popular da China (Mao Tse Tung) dos EUA (Richard Nixon) nos anos 1970.
Na Guerra do Pacífico (1879-1883), Duque de Caxias ‘dedurou’ a aliança entre Peru e Bolívia para o Chile.
Em 1903 o Acre se torna território brasileiro.
Mais recentemente, um senador boliviano pediu asilo político na Embaixada do Brasil em La Paz. Enquanto isso, nacionalizaram empresas brasileiras em território boliviano. Ao mesmo tempo a influência brasileira no cotidiano do país é cada vez maior.
Brasileiros mataram um torcedor local em Oruro, em fevereiro, em plena partida de futebol. Sem critério, escolheram alguns para prender. Sem critério aparente, soltaram.
Fizeram revista em avião do governo do Brasil quando passava por território boliviano.
E levaram o senador boliviano para o Brasil sem o salvo-conduto. Uma afronta ao governo de La Paz.
Tantos desaforos que culminaram na queda do Ministro das Relações Exteriores. Infelizmente o esporte é também responsável porque não souberam administrá-lo e preservá-lo.
Depois de mais de 10 anos o Afeganistão disputou uma partida internacional em casa, na capital Cabul.
O Estádio Nacional de Cabul hoje
Venceu o Paquistão por 3 x 0. Um marco histórico. Por quase uma década, enquanto o grupo extremista Talibã esteve no poder naquele país (1996-2001), quaisquer práticas esportivas eram proibidas e o estádio Nacional de Cabul, palco de fuzilamentos.
O que faz um político utilizar equipamentos esportivos? Tudo o que o esporte representa: juventude, vanguarda, abertura, diálogo, dinamismo, visão, esforço, luta, humildade, transparência, e pelo esporte ser popular, ao alcance de todos. Bons valores que o esporte dissemina e que, por associação, pelo dirigente utilizá-lo, diretamente podem ser relacionados à pessoa.
Fidel Castro faz isso, seja com adidas, Nike ou Puma, como na montagem. O português José Sócrates também, em foto de 2007. Mostrar ao mundo um Portugal eficiente, jovem e pujante. Vejamos a Venezuela. É notória a evolução do futebol venezuelano. Recentemente classificou-se a um mundial júnior. A seleção principal chegou às semifinais da Copa América de 2011 e a chance de se classificarem ao Mundial FIFA Brasil 2014 é alta. Vejam, portanto, o que o futebol representa hoje para os venezuelanos: resultado e excelência, o que o povo quer. Ao vestir algo relacionado à ‘vinotinto’, mandatários e candidatos ‘adquirem’ esses atributos. O opositor Henrique Capriles utilizou jaqueta da Federação Venezuelana de Futebol durante a campanha presidencial após a morte do ex-presidente Hugo Chávez. Nicolás Maduro, chavista, preferiu modelo mais popular, mas com o passar do tempo, vestiu adidas. Há sim um porquê nisso, e é o da imagem associada.
É uma questão bastante delicada porque não há como controlar esse uso. Uma política de Estado mal conduzida pode conferir valor negativo à marca. Esporte é política e vice-versa, até na roupa.
Dia importante na história de Cuba, marco para a revolução de 1959 cujo grupo político detém os poderes da ilha até hoje. Usam o esporte para sustentar esse sistema político. Nos resultados esportivos, pelo tamanho do país e número de habitantes possuem relativo sucesso em comparação com países de indicadores semelhantes. Entretanto não é o mesmo sucesso como há décadas, quando a busca por resultados esportivos não envolvia tanto investimento financeiro.
Boxe, atletismo e algumas modalidades coletivas sempre foram referência daquela ilha ao mundo. Stevenson (pugilisimo), Soto Mayor (salto em altura), Regla Torres e Mireya Luis (voleibol) são nomes conhecidos. Atualmente o esporte já não é mais referência para as políticas internas de Cuba e nem para promover o país para o mundo. Mantidos os embargos políticos e econômicos, aliados a uma política de Estado restrita e fechada – o que agrava a saúde financeira do país -, a ilha vê o esporte como não sendo mais prioridade em função das crises em outros setores e seus atletas de alto-rendimento cada vez mais pedirem asilo político em competições internacionais.
Cada vez mais ligado à inovação, a indústria do esporte demanda cada vez mais recursos financeiros e a utilização do esporte como política – interna e externa do Estado – é parte importante desta indústria.
Li ontem no blog do Diego Saralegui a sugestão do senador estadunidense Lindsay Graham (R, Carolina do Sul) de os EUA boicotarem os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi (Rússia), em 2014, caso os russos concedam asilo a Edward Snowden (ex-funcionário terceirizado de agências de segurança norte-americanas, que divulgou sigilosas informações dos EUA).
Se isso acontecer, o evento corre sério risco de ter um péssimo desempenho comercial. Os norte-americanos têm grande poder de consumo. Fornecem turistas, telespectadores/audiência e consomem artigos esportivos. Boicotar está na ‘moda’? Não! Mas existe essa possibilidade e dificilmente os russos vão querer correr esse risco.
Antes usado como represália política, o boicote no esporte possui um poder de barganha tão alto em função das receitas geradas em torno de espetáculos esportivos, que possivelmente a sua ameaça se torne prática comum.
Brasil campeão da Copa das Confederações da FIFA, com uma partida final de encher os olhos. Muito foco, atitude, fibra e excelência na condução do jogo. Percebia-se isso desde o início, com o Hino Nacional. Sabiam desde sempre o que queriam. E queriam muito ganhar. Queríamos, porque a torcida fez muito a diferença.
Oxalá a postura dentro de campo seja transferida para fora dele. O Brasil quer ser grande e uma vitória esportiva não soluciona os problemas, não acaba com a corrupção, não erradica a fome. Entretanto pode servir de exemplo de como podemos exigir as coisas e de como devemos agir no dia-a-dia para construirmos um lugar melhor pra se viver: com atitude, respeito ao próximo, pró-atividade e ousadia em inovar e acabar fazendo melhor o que ninguém esperava que fosse acontecer. Talvez isso seja improvisar? Não. Muitos acreditam que improvisar é dar um jeito, e aí esse termo acaba por ficar pejorativo porque remete ao famigerado ‘jeitinho brasileiro’ de fazer tudo ‘nas coxas’, sem excelência, pró-atividade e respeito. Improvisar é também planejar, é ter mais opções à disposição para trabalhar.
Estamos cansados desse ‘jeitinho’. Não há espaço para isso entre os melhores do mundo, dentro e fora de campo. Parabéns, Confederados!