Archive for the 'Esporte e Política' Category



Lá da Armênia

Sou um grande fã do Papa Francisco.

Outro grande gesto dele foi dizer no último domingo que a primeira grande matança do Século XX foi o Genocídio Armênio (1915-1923), levado a cabo pelo Império Otomano. A Turquia herdou grande parte deste Império e não reconhece este fato. Por isso mesmo condenou o discurso do Papa e retirou o seu diplomata da Santa Sé, a fim de explicações.

Os armênios foram o primeiro povo que se constituiu como nação oficialmente Cristã. Tem pouco mais de 5 milhões de habitantes. Há muito mais descendentes de armênios espalhados pelo mundo. Diante do protagonismo político e econômico da Turquia, esse genocídio foi por muito tempo esquecido. Menos pelos armênios e descendentes. E agora, pelo Santo Padre! Em tempo: uma das contrapartidas para a Turquia ser aceita na União Europeia é o reconhecimento do Genocídio e pedido de desculpas formais.

A diáspora do povo armênio é consequência da perseguição dos Otomanos. Muitos deles vieram para o Brasil, Argentina, Estados Unidos e França. Por aqui pelo Brasil, contribuíram bastante para o esporte nacional:

Marcelo Djian é o 2ª da direita para a esquerda

Marcelo Djian é o 2ª da direita para a esquerda

Marcelo Kiremitdjian, ou simplesmente, Marcelo Djian, foi zagueiro do Corinthians, Lyon, Cruzeiro e Atlético Mineiro. Fábio Mahseredjian, um dos maiores profissionais em preparação física do futebol na atualidade. Krikor Mekhitarian, um dos maiores enxadristas do país. Na Argentina, David Nalbandian é notável tenista.

David Nalbandian

David Nalbandian

A Armênia é conhecida como a “Nação do Xadrez”. Entretanto, mundialmente temos como exponentes daquele país: Henrikh Mkhitaryan, atacante do Borussia Dortmund; Gokor Chivichyan é renomado treinador de MMA, que reside em Los Angeles/EUA; Karo Parisyan compete no MMA; Armen Nazaryan foi medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1996, na Luta Greco-Romana; e Arsen Julfalakyan, medalha de prata na mesma modalidade, em 2012.

Não nos esqueçamos do Genocídio Armênio cujo início completa 1 século neste ano.

Viva esse grande povo!

Cuba, Estados Unidos e o Beisebol

Recentemente Cuba e Estados Unidos retomaram diálogo que pode conduzir ao retorno das relações diplomáticas entre os dois países, rompido desde o início dos anos 1960.

Por mais que não possa parecer, historicamente eles são muito conectados. A independência cubana deu-se em período em que a Flórida era anexada por Washington. O tráfego de pessoas e embarcações era tão alto quanto pelo rio da Prata entre Uruguai e Argentina. Consequentemente, as duas sociedades (da Flórida e de Cuba) possuem vários pontos em comum, e as relações comerciais e políticas também sempre foram muito intensas. Obviamente o esporte não ficou de lado disso.

Levado pelos estadunidenses para Cuba, o beisebol tornou-se a modalidade número na ilha para identificar um povo contra o domínio espanhol, representado pelo futebol, pelota basca e pelas touradas. Ao longo da primeira metade do século XX, o intercâmbio no esporte entre as duas nações foi muito alta. Na década de 40, Fidel Castro, um dos líderes da Revolução Cubana de 1959 e ex-presidente do país, tentou uma vaga nos Senators, de Washington, equipe das grandes ligas dos EUA. Em várias ocasiões os revolucionários utilizaram o esporte como propaganda e, claro, assim foi com o beisebol.

Nos Estados Unidos, o beisebol tem raízes no ambiente militar, e isso explica em parte a ‘patriotização’ dos seus jogos, além de boa parte dos seus comissários terem sido antes coronéis e generais. Uma das primeiras aparições públicas do ex-presidente George W. Bush depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001, foi em um jogo dos Yankees de Nova York, ao arremessar a primeira bola.

Sem sombra de dúvidas que o beisebol terá um papel importantíssimo na reaproximação dos dos países.

Feliz 2015 a todos!

 

Money Talks – محادثات المال –

O mercado fala mais alto, quem tem o poder de compra detém as preferências e os produtos precisam se adaptar ao mercado. Nessa linha de pensamento, para conquistar o mercado Islâmico, Real Madrid e Barcelona fizeram significativas mudanças em seus escudos.

O FC Barcelona suprimiu a cruz de São Jorge no quarto quadrante, que também representava as Cruzadas na antiguidade, cujos objetivos eram sobretudo a Cristianização de territórios onde hoje habitam povos de imensa maioria muçulmana.

Historicamente a Casa de Bourbon sempre foi vinculada à Igreja Católica. Pot isso o Real Madrid CF fez algo parecido. Para ter um produto mais aceito entre os Islâmicos, retirou a cruz acima da coroa de seu símbolo.

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O mercado fala alto, o dinheiro fala alto, e fala em árabe: محادثات المال

Oh my Drone!

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Um drone (pequeno helicóptero não tripulado) invadiu ontem o espaço aéreo do estádio do Partizan, em Belgrado, no jogo de futebol entre as vizinhas Sérvia e Albânia, pelo apuramento ao Campeonato Europeu de Seleções Nacionais (Eurocopa). Levava consigo uma bandeira com mapa da ‘Grande Albânia’, que toma parte do território sérvio, com a inscrição: “Autonomia”. Claro, os sérvios não gostaram e um jogador saltou e colocou abaixo drone e bandeira. Alguns albaneses, em reprovação ao ato contra a bandeira, partiram para cima do sérvio. Depois disso viu-se uma batalha campal, invasão de campo e consequente suspensão da partida.

O fato lembrou-me o episódio da bandeira croata no mundial de basquetebol de 1990. À época, a Iugoslávia se desintegrava: croatas, eslovenos, sérvios, bosníacos, macedônios, montenegrinos e kosovares não se entendiam e os movimentos separatistas ganhavam mais força. Ao mesmo tempo os iugoslavos tornam-se os campeões mundiais no basquete. Na comemoração, um jovem invade a quadra com a bandeira da Croácia. Vlade Divac, pivô de origem sérvia, tira a bandeira das mãos do jovem e a joga ao chão. Seu colega de equipe Drazen Petrovic (de origem croata) não gosta da atitude e rompe a amizade com Divac. Tudo isso é contado no documentário “Once Brothers”, da ESPN.

As tensões nos Bálcãs são seculares. Se antes as hostilidades eram transferidas para a conflito bélico, hoje é através do esporte, um dos principais instrumentos de representação nacional.

Missionários

No universo do marketing esportivo fala-se muito da digressão, da excursão de equipes esportivas para o exterior para fins comerciais. Na primeira metade do século XX elas aconteciam mas com finalidades mais ‘românticas’. As equipes de futebol da Inglaterra, da Itália e da Espanha vinham com frequência para a América do Sul. No entanto, não havia a lógica de mercado como existe hoje.

Atualmente essas equipes vão para a Ásia e a América do Norte: é comum ver Arsenal, Manchester United e Internazionale jogarem contra times da MLS (Major League Soccer). Por outro lado, franquias e ligas da América do Norte vão para a Europa e Ásia, como a NFL que organiza jogos em Londres e a NBA que tem o “Global Tour”. Iniciativas como esta posicionam a franquia, o jogo, a liga e o país, Estados Unidos (isso explica de as logos das ligas estadunidenses terem as cores branca, azul e vermelha). No século XIX o beisebol já fazia a política externa americana.

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Se na antiguidade as Cruzadas e as navegações tinham como um dos objetivos a catequização de outros povos. As digressões esportivas não deixam de ser diferentes, mas com outra religião.

Multinacional

Temos na história alguns casos de megaeventos esportivos multinacionais. As Copas do Mundo de Rugby de 1991 e de 2007 são exemplos, além da EURO 2000 (Bélgica e Holanda) e do Mundial FIFA de 2002 (Coreia do Sul e Japão).

No entanto a proposta para o campeonato europeu de seleções de futebol de 2020 é sem precedentes. Foram escolhidas 13 cidades por todo o continente para abrigarem jogos de todo o torneio. São elas: Londres (ING), Glasgow (ESC), Baku (AZE), Bruxelas (BEL), Copenhague (DIN), Munique (ALE), Budapeste (HUN), Bilbao (ESP), Bucareste (ROM), Roma (ITA), São Petersburgo (RUS), Amsterdã (HOL) e Dublin (IRL).

Isso só é possível graças a um nível de integração política, de transporte e telecomunicações que apenas a Europa possui. Excelente iniciativa, além de muito boas cidades as escolhidas (em minha opinião faltou alguma de Portugal e da Escandinávia).

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Baku, no mar Cáspio, capital do Azerbaijão

Easy Way

Obama é exemplo de estadista acessível, que faz a política de um jeito simples e de certa maneira, carismático, sem segredos, como se fosse mais alguém como nós, do jeito que tem mesmo que ser feito. Fazer isso com o esporte como tema, ainda melhor, pois atinge milhões de pessoas ao mesmo tempo com um custo relativamente baixo ao tocar o emocional de cada um.

Além de ser fã de diversas modalidades esportivas, ele acompanha o ‘Sunday’ e o ‘Monday Night Football’ (tradicional transmissão da rodada do futebol americano às segundas-feiras) e joga o ‘Fantasy Football’ (espécie de ‘Cartola FC’ de lá). No video abaixo, ainda Senador, ele faz um “pronunciamento” de introdução à transmissão de um jogo dos Bears da sua terra natal, Chicago:

No mundial FIFA do Brasil, ele acompanhou alguns jogos da seleção estadunidense dentro da própria Casa Branca:

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Mais recentemente ele foi desafiado pelo twitter pelo Primeiro-Ministro belga, Elio di Rupo, em algumas caixas de cerveja no jogo entre EUA x Bélgica pelo mundial de futebol. Obama não respondeu ao desafio pelo twitter. Os norte-americanos perderam e, na última sexta-feira (12 de Setembro) ele enviou para a embaixada da Bélgica em Washington, duas caixas de Samuel Adams para di Rupo, com uma carta escrita à mão, com o selo da Casa Branca.

Aposta aceita, perdida e paga, assim como em qualquer aposta entre quaisquer pessoas pelo mundo todo.

De efeito mundial, um jeito eficiente, simples e fácil de fazer política.

Futebol e Política Externa Brasileira

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Hoje (18 de Agosto) faz 10 anos do “Jogo da Paz”, amistoso entre Brasil e Haiti, em Porto Príncipe, capital haitiana. A presença militar brasileira lá (MINUSTAH) – através da Ocupação de Forças de Paz (PKO) era recente, a fim de garantir a ordem para o bom funcionamento das instituições que sustentam o país.

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Não era previsto em primeiro momento, mas na inauguração do Estádio Nacional local, a seleção brasileira de futebol viajou para a sua inauguração. Para conhecimento, o estádio fora financiado pelo governo de Taiwan, em troca de reconhecimento diplomático, ou seja, o Haiti não reconhece a República Popular da China, e sim a República da China (Ilha de Formosa/Taiwan). A voltar pro futebol e para o tal jogo: ora, uma digressão para o Haiti envolve inúmeros riscos de segurança, mas sobretudo de higiene e mesmo de contusões, uma vez que as condições de campo não eram as melhores.

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Haja vista ter futebolistas com contratos profissionais de alto valor e outros compromissos, viajar para o Haiti em um meio de semana (o jogo foi em uma quarta-feira) é altamente arriscado. A utilização do jogo para a promoção das Forças de Paz do Brasil e da Política Externa Brasileira é evidente. Fim de partida: Brasil 6 x 0 Haiti. A presença militar brasileira por lá já dura mais de 10 anos e o Haiti há muito não passava por longos períodos de estabilidade política dentro de um período democrático. O jogo não permitiu medir esses dados, mas a aceitação das tropas do Brasil passou a ser maior depois daquele 18 de Agosto de 2004.

Foi uma excelente ideia!

Anão Diplomático

Yigal Palmor, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores de Israel qualificou o Brasil como ‘Anão Diplomático’. É uma reação sobre a convocação do governo Brasileiro do Embaixador do Brasil naquele país para consulta, acerca do recente conflito entre Hamas e as Forças Armadas Israelenses.

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Em entrevista a uma emissora de TV, Palmor acrescentou que a resposta do Estado Judaico tem sido proporcional em relação aos ataques que sofre, que não é como no futebol, quando ocorre um 7 a 1, numa alusão clara à derrota sofrida para a Alemanha no passado 8 de Julho.

Palmor disse a verdade, porque realmente o Brasil não é protagonista na política internacional, sobretudo em uma questão tão delicada como é a da Palestina. Ele não usou as palavras mais ‘diplomáticas’ para expressar a opinião do governo de Israel. Ainda bem. O Brasil realmente precisa situar-se melhor em algumas questões que envolvem a política internacional a fim de não cometer mais trapalhadas como a do ano passado, quando deu abrigo e proporcionou a fuga do senador Boliviano, Roger Pinto, para o território brasileiro.

Tudo isso consequência de um quadro de funcionários que vêm de uma camada da população distante da realidade política e sócio-econômica do país, quadro este em parte arrogante e prepotente, capaz de fazer declarações inoportunas como a em relação ao conflito do Oriente Médio e no caso do Senador estrangeiro, quando o Diplomata envolvido dissera que as condições de vida do político boliviano na Embaixada do Brasil se assemelhavam às prisões do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) durante os anos 1970. Até a Presidente Rousseff declarou: ‘A Embaixada do Brasil está longe de ser o DOPS. Eu sei o que é o DOPS, eu estive lá, eu posso falar.”

O que Yigal Palmor disse é pura verdade. Foi infeliz ao comparar com o esporte. Uma guerra é um jogo, mas há vidas em questão. É um recado para o Brasil se colocar em seu lugar, trabalhar mais e melhor, numa política internacional que verdadeiramente reflita os objetivos do país, em que o conflito do Oriente Médio entre Hamas e Israel não faz sentido estar.

A África do Sul, o Futebol e o pós-Apartheid

Maior economia da África, a República da África do Sul está fora do Mundial FIFA 2014. O estereótipo prevalece: um país com  população de maioria negra (em que os leigos dizem que preferem mais o futebol) não poderia ficar de fora.

Ora, os sul-africanos foram os anfitriões do último evento, mas o futebol por lá não dá grandes avanços. Não é a modalidade preferida deles. Lembro-me que quando lá estive, desembarquei no aeroporto de Joanesburgo (O. R. Tambo) durante um jogo. O aeroporto praticamente ‘parado’ com os olhos na TV. Não era futebol. Era jogo do antigo “Tri-Nations”, entre a Nova Zelândia e os Springboks.

Fish e Tovey

Fish e Tovey

Há mais negros hoje no rugby sul-africano de alto-rendimento do que brancos no futebol. E havia mais antes. Exemplos não faltam: Nos anos 1990, os dois craques dos Bafana-Bafana (montagem acima) eram brancos: Mark Fish e Neil Tovey (capitão da equipe campeã da Copa Africana de Nações de 1996). Hoje, as principais estrelas dos Springboks são negras: Cecil Afrika, Bryan Habana, por não falar em Tendai Mtawarira (montagem abaixo).

Afrika e Mtawarira

Afrika e Mtawarira

Uma equipe nacional multicultural representa muito – mas muito – mais os habitantes daquele país do que uma equipe apenas de brancos (como era a seleção de rugby/Springboks durante o Apartheid) ou de negros (como é a do futebol de hoje/Bafana-Bafana, pós-Apartheid).

Ademais, tudo isso teve o dedo de Mandela. Soube ele em 1995 trabalhar com o rugby ao transferir para a equipe nacional a representação da “Rainbow Nation” que ele propunha quando da sua eleição à presidência, em 1994 e, com isso, conferir ideia de nacionalidade, pertencimento e, consequentemente, integridade territorial, apesar de apenas Chester Williams ser o único não-branco da equipe. A vitória dos Springboks naquele mundial de rugby de 95 simbolicamente era a vitória do novo país, do sucesso de uma sociedade multiétnica e multicultural.

Não me surpreende o futebol da principal economia africana estar fora do Mundial. O esporte preferido deles, além de ser a manifestação desportiva do Estado-Nação da África do Sul – assim como falei do Brasil no texto anterior – é, sem dúvida alguma, o rugby.

O que a Copa do Mundo FIFA deixou de legado para o futebol da África do Sul? Até agora nada que se possa perceber. Talvez tenha influenciado geração cujos resultados serão apenas colhidos em quinze, vinte anos.

 



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