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As 3 Grandes

Tudo começou na década de 1930, quando os irmãos Dassler batiam de porta em porta nos quartos dos atletas a oferecer sapatos esportivos. Foram com eles que Jesse Owens conseguiu a medalha de ouro nos Jogos de 1936, em plena Berlim de Hitler. Com o final da II Grande Guerra, os Dassler brigaram e cada um foi para um lado: um dos irmãos criou a Puma. O outro, a adidas.

Adi Dassler, fundador da adidas

A amizade com o selecionador alemão na Copa de 1954 fez com que Adi Dassler (fundador da adidas), inventasse as chuteiras com travas de rosca, que possibilitavam a prática do futebol em todo o tipo de terreno e nas mais diversas condições climáticas. Capitaneados por Fritz Walter, todos os jogadores alemães, campeões mundiais daquela Copa, usavam adidas. Nas Olimpíadas de Melbourne, em 1956, o sucesso foi o mesmo com atletas de diversas modalidades. Até aí, o dinheiro não falava tão alto. Tudo resumia-se em oferecer um par de calçados.

Pelé com chuteiras Puma na Copa de 70

É nos Jogos Olímpicos de 1960, em Roma, que a Puma entra “no jogo” e, além de oferecer sapatos, oferecia também dinheiro. Estava iniciada a guerra do sports marketing. No início apenas entre Puma e adidas. Quem não se lembra do Pelé amarrando as chuteiras antes das partidas da Copa de 70? E Beckenbauer na célebre foto com o braço enfaixado durante o jogo com a Itália, vestido de adidas?

Os planos das grandes marcas iam, certamente, para além das 4 linhas, no caso do futebol. Boa parte dos projetos de Havelange, depois de ter sido eleito presidente da FIFA, foram financiados com dinheiro da adidas, patrocinadora da entidade. Na última hora a empresa alemã, que apoiava Stanley Rous ao cargo máximo do futebol, passou a apoiar o brasileiro, que tinha os votos dos países americanos e africanos. Dizem que Horst Dassler (filho do fundador da adidas) dizia a Havelange: “ajude-me no meu negócio que eu ajudo no seu”.

O swoosh da Nike (encomendado por US$35,00) e seu famoso slogan

É nos anos 70 que a Nike entra em campo, primeiramente apenas com sapatos de corrida, copiados dos japoneses Tiger (Asics). É no fim dos anos 70 e início dos 80 que revolucionam o mercado do basquete com o Nike Air e seu garoto propaganda, Michael Jordan. Só nos anos 90 que os “Guys of Beaverton” (em alusão à Nike) investem maciçamente no desporto-rei, patrocinando seleções como a brasileira e italiana e, com o passar dos anos, se tornam a maior empresa de artigos esportivos do planeta.

Não há dúvidas de que hoje em dia estas marcas rendem grandes volumes de negócios, sejam eles em vendas, publicidade ou patrocínios. Existem também várias marcas no mercado além das supracitadas, mas as maiores cifras são da Puma, adidas e Nike. A tendência é continuar neste triângulo, visto a aquisição da Reebok pela adidas e da Umbro pela Nike e, se o “impossible is nothing” ou o “just do it” não terem cuidado, a Puma – que aposta nos mercados emergentes – pode tomar a liderança em um futuro não tão distante. Que a briga seja à vontade, desde que o esporte seja preservado.

Brasil vs. Espanha

Já se sabe que Londres será a sede dos Jogos Olímpicos de 2012, depois de uma disputa com Paris na última rodada de votos, estabalecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Entretanto estas duas capitais não foram as que obtiveram as maiores notas naquilo que é avaliado: infra-estrutura, instalações esportivas e legado, por exemplo. As maiores notas foram obtidas pela capital espanhola, Madrid, que passou para a penúltima rodada de votação, mas mesmo sendo a melhor avaliada, não obteve tantos votos quanto às capitais francesa e inglesa, que seguiram adiante na disputa.

Logo da candidatura de Madrid aos jogos de 2016

Para 2016 Madrid já lançou a sua candidatura, mais amadurecida. Não houve grandes transformações estruturais ou no que diz respeito a estádios e pavilhões mulidesportivos. O diferencial desta candidatura está na criação de um departamento de Relações Internacionais (RI), que leve Madrid para todos os países membros do COI e a torne conhecida. Em outras palavras, o departamento de RI agirá como se fosse o corpo diplomático de um Estado. Tudo isso para conquistar os votos necessários para sediar os jogos. Não basta ter apenas boas notas.

Londres será a sede dos Jogos Olímpicos de Verão em 2012

Acreditam os espanhóis que a sua capital é a grande favorita, ao lado de Tóquio (Japão) e Chicago (EUA). Crêem também que, como neste ano Pequim, centro da cultura chinesa e da língua mais falada no mundo (mandarim), receberá as Olimpíadas e Londres – centro da cultura anglo-saxã e da segunda língua mais falada no planeta – será a sede em 2012, ficará a cargo de Madrid continuar esta tendência: pólo da cultura hispânica e do 3º idioma mais falado no mundo.

O problema deles é o Rio de Janeiro. Apesar de registrar um colapso urbano, a cidade brasileira tem um bom historial de grandes eventos esportivos e roubaria de Madrid os votos dos países Latino-Americanos. É por este motivo que a grande rival dos espanhóis será o Rio. Todos querem receber os Jogos Olímpicos, não convém aqui relacionar os benefícios de ser uma sede (isso será feito nos próximos textos). Só a candidatura já promove mundialmente a cidade.

Logo do Rio de Janeiro para receber as Olimpíadas de 2016

Tudo isso é mais uma prova de que o esporte e as Relações Internacionais caminham juntos. É possível promovê-las através do esporte e vice-versa. Será uma briga acirrada entre as duas cidades. Uma grande oportunidade para o Rio de Janeiro mudar. Uma chance para Madrid sair da sombra dos seus clubes de futebol e tornar-se conhecida no mundo. É esperar – e trabalhar mais – para ver!

Histórias e Previsões

É intrigante pensar no futuro do esporte moderno. Há duzentos anos não havia por exemplo o futebol e o handball, mas de lá pra cá surgiram no cotidiano e tornaram-se fenômenos sociais. Daqui a outros duzentos anos, pode ser que a Olimpíada seja virtual, com atletas projetados pelo computador, sem qualquer esforço físico e espírito esportivo. Se na antigüidade as modalidades eram, aos nossos olhos, tão sem graça e sem fim algum, mas acabaram por dar lugar ao esporte moderno, vislumbrar um futuro para ele torna-se muito difícil. Os esportes coletivos modernos, que conhecemos, tem aproximadamente entre 100 e 150 anos. Modalidades como o futebol, o Rugby, o basquete, o vôlei, o críquete e o hóquei foram criados na segunda metade do século XIX. Antes desta época praticava-se por exemplo, na Inglaterra, a caça à raposa, que era tida também como um esporte. Neste mesmo país jogava-se algo que daria origem ao futebol de hoje: o “folk football”, originário do “calcio” romano, em que populações inteiras de cidades diferentes lutavam fisicamente entre si para conduzirem uma bola até o pórtico de uma das localidades.

 

O “folk football”

Veio a revolução industrial e o surgimento de uma classe média na Inglaterra que podia manter seus filhos em uma escola. Escola que incentivava nos tempos livres a prática do “folk football” entre os seus alunos. Com um número reduzido de pessoas a jogar, cada colégio produzia o seu estilo de jogo. Uns davam preferência ao uso das mãos (como o colégio de Rugby) e outros, apenas o dos pés (como a escola de Eton). Uma reunião foi feita entre várias instituições inglesas de ensino em 1863, para padronizarem as regras do jogo. As poucas escolas que permitiam tanto o uso das mãos quanto o dos pés, se retiraram do encontro e instituíram o que conhecemos hoje por Rugby, que deve ser chamado de “Rugby Football”, ou seja, o futebol como é jogado em Rugby. Os demais colégios associaram-se em determinadas regras que originaram o “Football Association”, ou “soccer” (palavra originária de “asSOCiation), ou pura e simplesmente, o futebol.

A “Rugby School”, onde surgiu o Rugby Football

A magnitude da revolução industrial e o domínio britânico dos mares levou tais modalidades para o mundo todo. Cidades portuárias como Bilbao, Porto, Buenos Aires e Rio de Janeiro foram as primeiras a terem clubes criados para a prática do futebol, do Rugby e do críquete. A descolonização foi outro passo dado para que estas modalidades alcançassem a dimensão que possuem hoje: mais países no COI (Comitê Olímpico Internacional) e na FIFA (Federação Internacional de Football Association) do que propriamente na ONU (Organização das Nações Unidas).

Logo da Federação Internacional de Football Association (FIFA)

Vivencia-se hoje a revolução tecnológica, que se relaciona com o esporte. Algumas bolas de futebol vêm com chip; árbitros no Rugby a recorrer a imagens milimetricamente apuradas para tirarem suas dúvidas quanto a um lance difícil. Pela TV e internet, todas as informações desejadas sobre o esporte, estão disponíveis. Nas casas, mais e mais crianças jogam com os seus ídolos através do video-game. Nas casas das grandes cidades os pais mantêm, por segurança, seus filhos presos a este mesmo video-game, em detrimento à prática esportiva. Os campinhos dão lugar a imensos condomínios. As cidades – e o país – crescem sem planejamento, o que acaba por gerar delinqüência e violência, que são muitas vezes levadas para dentro dos estádios de futebol. Assim sendo, são capazes de afastar famílias inteiras do esporte.

Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas, 2004

Não, o esporte moderno que conhecemos hoje não vai acabar. Os mesmos organismos internacionais supracitados, como o COI e a FIFA (no caso do futebol) têm a missão de difundi-los e protegê-los. Muitos dizem que modalidades como o Rugby e o futebol são muito rígidos com as suas regras. Na verdade, a maioria das regras devem ser preservadas para que estes esportes estejam ao alcance de todos e que sejam jogados no mundo todo. Por isso que é certo que daqui a 200 anos uma Copa do Mundo terá a mesma emoção de sempre. 

O Futebol e a Geometria

Esta vale a pena. Estava eu ontem a escutar Sporting x Basiléia, pela Taça UEFA, através da rádio Antena 1 (RTP).  Certa altura o narrador diz:

“…e vai o guarda-redes para posicionar o esférico no vértice superior esquerdo da pequena área…” 

Demais! Em negrito estão as palavras que se relacionam com a geometria. Isso em plena narração de um jogo de futebol. Como dizia aquele antigo narrador dos anos 60 e 70: “Gol, gol, gol! TV2 Cultura de São Paulo…esporte também é cultura!

Abraços a todos.

Futebol no Mundo

Goh Hsien Smirappan é um jovem de Singapura, morador do distrito de Ang Mo Kio, fã de futebol e torcedor do Everton, o “clube do povo”, de Liverpool, que tinha também os membros dos Beatles como torcedores. Goh sempre acompanha os jogos da Liga Inglesa pela TV, reúne os amigos, coleciona figurinhas, cachecóis, tem os nomes dos jogadores na ponta da língua e está ansioso para adquirir um ingresso para um dos jogos do campeonato inglês que provavelmente será disputado em seu país na temporada 2010/2011.

Torcedora do Manchester United aguarda a chegada da equipe na China

Recentemente o CEO da Barclays Premiership (primeira divisão inglesa) anunciou que alguns jogos da época supracitada podem ser disputados em outros países, especialmente asiáticos, os principais responsáveis pela grande audiência do futebol inglês. O resultado disso serão as milhões de libras a mais nos cofres dos clubes. Não há dúvidas de que é o campeonato mais bem organizado e competitivo do mundo. Estádios sempre cheios, com bom comportamento dos torcedores e bons jogos, com jogadores de todo o planeta.

Há menos de 20 anos o futebol na Inglaterra não era assim. Há menos de 20 anos acontecia a tragédia de Hillsborough, em que 89 torcedores perderam a vida em uma partida da semi-final da Taça da Inglaterra. Há menos de 20 anos os clubes ingleses eram proibidos de disputarem torneios continentais devido à tragédia de Heysel*. As famílias estavam afastadas dos estádios. As receitas dos clubes, mínimas. Patrocínios, zero. Futebol, nada!

Incidente no estádio de Hillsborough, em 1989

A partir do início dos anos 90 houve uma profissionalização da estrutura de organização do futebol britânico. Por incrível que possa parecer, as primeiras medidas tomadas foram colocar assentos numerados para os torcedores nas arquibancadas e retirar as grades que separavam o campo de jogo das bancadas. Depois disso é que foram resolver o problema com os hooligans. O torcedor passava a ser mais respeitado. Sem dúvida que os ingressos tornaram-se mais caros, mas em contrapartida um espaço esportivo mais confortável e sem confusões, atraiu de volta os mais pessimistas dos torcedores. Isso permitiu mais rendimentos aos clubes (não apenas de bilheteria, mas também de produtos licenciados), que puderam contratar bons jogadores – o futebolista inglês que atuava em outras ligas européias, já não tinha mais motivos para atuar fora de seu país -, o que por sua vez trouxe mais público aos jogos e interesse por parte das redes de televisão e dos patrocinadores, que juntaram-se ao futebol na tentativa de expandir seus negócios pelo mundo, através da venda dos direitos de transmissão para inúmeros países. Países alguns que vão receber esses jogos daqui poucos anos. É como se fosse uma bola de neve montanha abaixo. Só aumenta.

O Brasil possui bons jogadores, clubes tradicionalíssimos e milhões de torcedores. O futebol brasileiro é capaz de gerar milhões em receitas e em empregos. Para levantar os clubes não são necessárias Timemanias ou MSIs. Profissionalismo e visão são os itens que faltam para o esporte nacional, não só para o futebol. A partir do momento em que estes princípios forem empregados, seremos capazes de vislumbrar um jovem de Singapura ansioso para ver um jogo do Campeonato Brasileiro em seu país, ou de uma remota comunidade rural no Burundi torcendo pelo Brasil em uma Copa do Mundo, bem mais do já costumam torcer! Aí sim estaremos presentes de uma maneira global, transmitindo ao mundo o que o Brasil tem de melhor.

* – A tragédia de Heysel (estádio em Bruxelas) aconteceu em maio de 1985, na final Liga dos Campeões da Europa, quando cerca de 40 torcedores da Juventus foram mortos devido a tumulto causado pela torcida do Liverpool;

Texto inspirado por uma conversa no “autocarro” 201 (Cais do Sodré/Linda-a-Velha) com o César “Bigo”, na madrugada de 10.02.2008

O “Super Bowl”

Foto da Final do Super Bowl de 2007, entre Indianapolis Colts e Chicago Bears

Já dizia um antigo professor que não gostava de americanos: “…reconheço que eles sabem fazer música…”. A esta frase, acrescento que sabem também fazer espetáculos, espetáculos esportivos, mais precisamente.

Hoje é dia do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano. Os EUA param para ver este jogo. É o maior evento esportivo no planeta de apenas um dia, que acontece todos os anos. Segundos na televisão que valem centenas de milhões de dólares. Bilhetes com preços altíssimos. Empresas que gastam outros milhões nos atletas que estarão presentes. Fora a quantia gasta pelos torcedores, presentes ou não no estádio, em produtos licenciados das equipes, comida, estacionamento, cerveja, hotéis, passagens de avião, enfim, tudo isso inserido na grandeza e potencial do mercado consumidor estadunidense.

Um evento recheado de inúmeros outros. Para que se tenha uma idéia, os Rolling Stones fizeram uma apresentação no intervalo do Super Bowl de 2006. Tina Turner cantou o hino nacional antes dessa decisão, há alguns anos. Como é ano de eleições presidenciais, certamente os que disputam a corrida à Casa Branca de alguma forma estarão presentes, in loco, ou por breves comentários desta partida. Para os puritanos, é impossível fazer uma analogia deste jogo com a final de uma Copa do Mundo. Sem dúvida alguma que uma final de Copa pára o mundo inteiro, enquanto a decisão do futebol americano é capaz de fazer isso em apenas um país. Em contrapartida, o Super Bowl está ao alcance de toda uma nação, seja através do idioma, dos costumes e de um american-way-of-sport, baseado no espetáculo e no consumo. Muito diferente de uma final de Copa do Mundo, quando a presença dos torcedores é limitada pela territorialidade, não existem eventos paralelos, é pouco promovida e acontece apenas de quatro em quatro anos.

O futebol americano a cada ano supera as suas receitas com as transmissões de TV, patrocínios e vendas de produtos licenciados. Isso é capaz de gerar milhões de empregos diretos e indiretos. O que for feito com esta finalidade, no futebol que a gente conhece (o que é jogado em todo o mundo), será bem-vindo e para isso o jogo não precisa perder a sua essência, como os que temem que ele se tornaria muito “comercial”. O bom senso basta. É preciso ter em mente que, nos dias de hoje, sem patrocínios e anunciantes, o esporte fica inviável.

A África do Sul, o Rugby e o Apartheid*

* – política de segregação racial conduzida pela África do Sul entre 1948 e 1990 

O ano de 1948 marca a história da África do Sul pela implementação do Apartheid (vida separada, em africânder), regime em que os brancos detinham o poder político e econômico, em detrimento dos demais povos, que, além de terem que viver separadamente, sequer possuíam seus direitos de cidadão assegurados. Durante quase todo o século XX a sociedade sul-africana ficou marcada pela segregação racial. Os negros não podiam freqüentar as praias, os bairros, as escolas e as universidades dos brancos, as melhores. Não podiam andar nos mesmos ônibus e vagões de trem que os europeus, também melhores. Não podiam ocupar altas patentes das forças armadas, destinadas aos brancos. Oficialmente, eram proibidos de pertencer às seleções nacionais de alguma modalidade esportiva.

Estação de trens apenas para negros em Pretória, África do Sul, durante o Apartheid  

Por conta disso a África do Sul foi banida completamente da FIFA por João Havelange, em 1974. Também foi pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). As modalidades mais praticadas naquele país africano eram (e são): o Rugby, o críquete, o futebol e o boxe. O Rugby sempre foi associado à dominação branca – racista e repressora -, uma vez que era praticado pela elite. Isso não quer dizer que os negros não jogavam, mas eram organizados em ligas restritas. O futebol, praticado em sua maior parte pelos negros, esteve sempre em segundo plano e era pouco incentivado pelo governo. No final da década de 1960 a África do Sul propôs à FIFA a possibilidade de disputarem as eliminatórias da Copa de 70 com duas seleções: uma apenas de negros e outra só com brancos. Pedido negado. O mundo do futebol estava ao lado da maioria dos sul-africanos, ao contrário da International Rugby Board (IRB), que manteve os Springboks[1] em suas fileiras durante a política de segregação interna, porém proibidos de disputarem torneios internacionais. Mesmo assim, o Rugby foi a referência esportiva do Apartheid. 

Na época primeiro-ministro, Frederik de Klerk, pressionado pela opinião pública internacional, pôs fim a esse regime em 1990. Nelson Mandela, negro, líder do Congresso Nacional Africano, é solto após quase três décadas preso. Reformas políticas e sociais e econômicas são levadas a cabo com a finalidade de manter a África do Sul indivisível. Por muitas vezes, províncias como a do Cabo, a de Orange, a do Transvaal e os Bantustões chegaram perto de proclamarem a independência. Em abril de 1994 realizam-se as primeiras eleições livres e multirraciais, com a vitória de Mandela. 

O ano seguinte marcaria a vida do esporte na África do Sul. Pela primeira vez o país era aceito em uma competição internacional, a Copa do Mundo de Rugby, que seria disputada em sua própria casa. Antes divididos, os sul-africanos agora torciam com um objetivo em comum, porém com desconfiança: além de ninguém se esquecer de que os Springboks recordavam o Apartheid, a seleção consistia apenas por brancos. Tal situação mudou quando o negro Chester Williams foi convocado às pressas para substituir um companheiro lesionado, sendo de fundamental importância para a conquista da Copa, contra a Nova Zelândia. A vitória foi um marco para a história da República da África do Sul e o Rugby era responsável por isso. Pela primeira vez o país era legitimamente representado em nível internacional por uma seleção multirracial. A união dos sul-africanos e a euforia em torno deste objetivo em comum (a vitória na Copa) ficaram demonstradas nas palavras do então capitão da seleção, François Pienaar, ao receber o troféu das mãos de Nelson Mandela: “Hoje não são apenas os 60 mil aqui do estádio a comemorar o título, mas sim os 43 milhões de sul-africanos!”.

Pienaar recebe de Mandela a taça da Copa do Mundo de Rugby’95  

Anos mais tarde, já ex-presidente, Nelson Mandela disse que a África do Sul não seria a mesma caso os Springboks não tivessem vencido o mundial de 1995. Para quem fala que o esporte é apenas jogo, considere a autoridade de quem disse isso. Já dizia Nélson Rodrigues: “O pior cego é aquele que só vê a bola”.


[1] Como é conhecida a seleção sul-africana de Rugby

O Terrorismo no Esporte

Os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, jamais serão lembrados pelas sete medalhas de ouro conquistadas por Mark Spitz, nadador estadunidense. Nem também pela decisão do basquete masculino, entre União Soviética e Estados Unidos, decidida nos segundos finais. Essa Olimpíada será sempre lembrada como aquela em que o grupo terrorista Setembro Negro invadiu o prédio onde estava alojada a delegação de Israel, mantendo-a refém. O plano de resgate foi frustrado e resultou na morte dos onze atletas israelenses.

Membro do Setembro Negro no atentado durante os jogos de 1972 

Você, estimado leitor, deve estar aí se perguntando o porquê de o tema “terrorismo” ser abordado neste espaço. Em primeiro lugar, o terrorismo está cada vez mais presente em nosso cotidiano. O terrorismo hoje em dia é tema de inúmeros debates e políticas na sociedade e nas relações internacionais e, por tudo isso, o terrorismo também influencia o esporte. Como? Basta reler o exemplo do primeiro parágrafo, o mais evidente da história. 

Nesta semana o esporte também foi “vítima” do terrorismo. Bom, em outras palavras, evitou ser a vítima, mas acabou também se tornando, antes mesmo de ter sido. Isso porque o rali mais importante do mundo, o Dakar (antes conhecido como Paris-Dakar) era para ter começado no dia 5 de janeiro, a partir de Lisboa, com destino ao Dacar, no Senegal. O seu trajeto passava, por além de Portugal, pela Espanha, Marrocos, Saara Ocidental e Mauritânia, até atingir a capital senegalesa. Dias antes do início da prova, quatro cidadãos franceses foram assassinados na Mauritânia (país em que se passava o percurso) e o serviço secreto francês descobriu planos de uma célula do Al Qaeda (responsável pelos atentados nas estações de Madri) para raptar pilotos do rali, especialmente os franceses. Com isso, a direção da prova foi informada e provavelmente as seguradoras do evento não resolveram correr o risco de serem fortemente prejudicadas com o provável seqüestro dos pilotos. Se tais seguradoras não garantiam então as condições dos pilotos, o rali foi cancelado. E muito bem cancelado. Se a prova deste ano fosse marcada pela atuação do Al Qaeda, muito provavelmente esta seria a última edição desta prova tão tradicional. A organização falhou no aspecto de não haver o tal “plano B”. Sabe-se que o trajeto passa por países que são brandos e coniventes com a presença dos grupos terroristas em seu território e, além disso, os países que mais têm pilotos na prova são França e Espanha, cujas políticas externas não agradam aos olhos destas organizações criminosas. Se assim era, seria necessário haver um percurso alternativo, para que o evento fosse realizado e os compromissos, realizados. São milhões de dólares perdidos e outros milhões que se deixam de ganhar, além de milhares de empregos, diretos e indiretos que se perdem ao longo de muitos quilômetros, até Dacar.

Jogadores do Iraque, campeão da Copa da Ásia em 2007  

Depois de tudo isso, o terrorismo evita o esporte, no sentido de impedir, de acabar. O esporte também pode acabar com o terrorismo. Caso não queira ler devaneios ou ilusões, termine a leitura por aqui. Talvez o que a Real Federação Espanhola faz, que é permitir seleções regionais a jogar partidas amistosas com outros países (como por exemplo a Catalunha e o País Basco), parece correto. Assim acalmam-se os ânimos dos grupos separatistas e da ETA. Em uma outra situação, a conquista da Copa da Ásia pelo Iraque, em 2007, uniu em torno daquela seleção: curdos, xiitas, sunitas e cristãos. E o selecionado iraquiano tinha em seu plantel, membros de todos estes grupos citados. Não é preciso viver em Bagdá para dizer isso, mas não há dúvidas de que esta conquista levou ao povo iraquiano o sentimento de pertencer a uma nação, à percepção do outro como igual. Se fosse pela realização do rali e pelo bom andamento da prova, que dessem o direito ao Al Qaeda de ter uma equipe, e que vencessem! Oxalá Pequim (ou Beijing, como preferirem) e a África do Sul estejam preparadíssimos, porque tudo e mais um pouco ainda pode acontecer.

Os Melhores do Mundo

Independentemente de Kaká ter sido escolhido como o melhor jogador do mundo em 2007 – alguns dirão que o prêmio foi para o Brasil, para salvar o ano –, dos três finalistas (Messi, Kaká e Cristiano Ronaldo), os três são latinos, dois falam português, jogam em grandes clubes nas três maiores ligas do planeta e são as figuras principais das marcas desportivas que os patrocinam (Messi e Kaká, adidas; Cristiano Ronaldo, Nike). 

Com exceção de Cristiano Ronaldo, Messi e Kaká são latino-americanos. Um argentino e um brasileiro, respectivamente. Argentina e Brasil, 7 títulos mundiais juntos, líder e vice-líder do ranking da FIFA, onde o futebol surgiu por influência dos marinheiros e estudantes ingleses nas principais cidades destes países, como Buenos Aires e o Rio de Janeiro. Daí percebe-se o porquê de o Fluminense ser Football Club e do Newell’s possuir um nome tão inglês. Países que fizeram-se valer da mistura de etnias para abrilhantar o esporte mais popular do planeta e que assim, ganhariam o mundo (como mesmo ganharam e estão a ganhar). Em Portugal não é diferente: o futebol foi levado por marinheiros ingleses e o futebol português valeu-se do domínio colonial para variar o estilo de jogo da sua seleção e da modalidade em seu país. Levou os melhores jogadores das ex-colônias a jogar nos grandes clubes, como Eusébio e Mário Coluna, ambos de Moçambique, os mais recordados. Com o passar do tempo, mais tem-se a idéia de que Messi, Kaká e Cristiano Ronaldo estão perdendo suas identidades. Isso mesmo. A cada dia que passa Messi é menos argentino (ou nunca foi!), Kaká não é brasileiro e Cristiano Ronaldo menos português. Mesmo quando são convocados às suas respectivas seleções. Messi possui por acaso a mesma elasticidade de um Marangoni ou um Kempes (o de 78)? E Kaká? Habilidoso, sem sombra de dúvidas! Porém, incomparável a Júnior, Sócrates ou Tostão. Já Cristiano Ronaldo não é nem sombra de Eusébio ou Futre. Além disso, Messi foi completamente moldado ao estilo europeu de jogo (está na Catalunha desde os 13 anos). Não se fala tanto nele quando joga pela alvi-celeste. Kaká também não é o mesmo na seleção brasileira e Cristiano Ronaldo não é o mesmo de Manchester. Além disso, comportam-se como mandam os clubes, treinadores, agentes e patrocinadores. Afinal, são eles quem pagam. A bandeira nacional não lhes dá nada. Seria muita inocência pensar desta maneira, nos dias de hoje. 

Um brasileiro, um argentino e um português, muitos pensaram quando os indicados ao melhor jogador de 2007 foram anunciados. Outros disseram: Milan, Barcelona e United, ou Bwin, Unicef e AIG. Um protestante, um católico e outro não-sei-o-quê. Houve aqueles que bradaram: adidas, adidas e Nike (eu fui um deles). O próximo ano promete. Esses três jogadores, indiscutivelmente mereceram a indicação. Pelo menos isso. Atualmente as seleções nacionais estão desprestigiadas e talvez seja esta a tendência, com exceção da realização da Copa do Mundo. 

Que o jogo continue a ser jogado, em seu estado puro, imaculado. E que os atletas e os torcedores de todo o mundo sejam respeitados.

H.E. Mr. George Weah

Além de ter sido um dos melhores futebolistas da história (melhor jogador do mundo em 1995), George Weah é uma figura-chave na reconstrução de seu país, outrora arrasado pela guerra civil: a Libéria.

Este país foi o primeiro da África a ser independente (1847). Sua população era constituída de antigos escravos dos Estados Unidos, que os presenteou com um país em seu continente natal. Tal medida foi tomada pelo ex-presidente americano Monroe. Daí o nome da capital, Monróvia. O nome Libéria, por sua vez, remete à liberdade conquistada pelos ex-escravos. De 1847 até o início deste século este país vivenciou constantes trocas de poder, repressão, corrupção, pobreza e desigualdade. Milhares de liberianos procuravam uma vida melhor nos países vizinhos. Foi o que aconteceu com George Weah, que da Libéria partiu para os Camarões. De lá, ganhou a França. Mônaco, Paris. Do PSG (Paris Saint-Germain), rumo para o AC Milan, onde foi o melhor de sempre. O único. Ainda mais em seu país. Com ele, a Libéria era conhecida em todo o mundo.

  

Em 1995 os liberianos estavam à beira de um colapso. Era o auge da guerra civil e da disputa pelo poder. Qual era o motivo para o liberiano sentir-se liberiano? George Weah. Com recursos próprios o ex-jogador garantiu a participação da Libéria nas eliminatórias para a Copa de 98: era ao mesmo tempo treinador e jogador, convocava-os, pagava as passagens de avião e a hospedagem, além de garantir-lhes material esportivo. Em uma perspectiva avançada – idealista até, alguns podem dizer -, garantiu a existência de um país. E assim foi até o início deste século, quando sob a intervenção da Organização das Nações Unidas a Libéria conseguiu maior estabilidade política e realizou em 2005 as primeiras eleições multipartidárias depois de décadas de guerra civil. Os candidatos principais eram dois: Ellen Johnson-Sirleaf, economista com Doutoramento em Harvard, tendo trabalhado por muitos anos em organismos internacionais, como o Banco Mundial. Do outro lado estava – sim, era ele mesmo – George Weah, que já havia abandonado a carreira de jogador e que atuava na fundação de assistência a crianças carentes de seu país, e que levava o seu nome.  

  

O ex-jogador não venceu as eleições, mas é inegável que ele foi um símbolo para a sustentação de um país em sua época mais complicada. Aos poucos a Libéria vem conquistando mais estabilidade sócio-econômica, com um crescimento ainda tímido. O bom é saber que o país foi reconduzido a uma democracia, em que George Weah será ainda mais atuante, sem dúvida alguma.


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