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Mais Voltas

A Irlanda quer sediar o mundial de rúgbi de 2023. Concorrerá com mais outros países, entre eles os Estados Unidos, que quer se afirmar como potência da modalidade, afinal são os atuais campeões Olímpicos, em 1924, em Paris. A capital francesa é sede do Stade Français, que manda seus jogos no estádio do Parque dos Príncipes, que também recebe jogos de futebol do Paris St Germain, cujo diretor é  o ex-jogador brasileiro Leonardo e recebe investimentos de um milionário árabe.

E foi o mundo árabe palco de uma das maiores tragédias do esporte, há algumas semanas, no Egito, que vive momentos turbulentos depois da queda de Hosni Mubarak, que subira ao poder com o assassinato de Anwar Sadat por extremistas islâmicos há 30 anos, uma vez que reconheceu Israel em troca da Península do Sinai, que pertencia aos israelenses à época da Copa do Mundo de 1970, mundial que o Brasil foi campeão, classificado para o evento sob o comando de João Saldanha, tido por muitos como comunista e simpatizante da União Soviética.

Os soviéticos, à época, travavam a Guerra Fria com os estadunidenses e no fim da década de 1950 colocaram em órbita o primeiro satélite artificial, o ‘Sputnik’, que em russo significa: “companheiro”. Isso levou a uma corrida espacial entre os dois países e a promessa, no início da década de 1960, pelo então presidente norte-americano, John F. Kennedy, de que colocariam um homem na lua em 10 anos. Kennedy foi o único presidente católico dos EUA, e o catolicismo é a religião predominante na Irlanda, País que quer receber a Copa do Mundo de rúgbi de 2023.

Zâmbia no Mapa

Recolocaram a Zâmbia no mapa! Claro, ela já lá estava, mas havia pouquíssimo espaço para este país da África meridional envolto por vizinhos mais famosos, turbulentos ou não, como o Zimbábue, a África do Sul e a República Democrática do Congo. A Zâmbia, por ali, é uma das nações mais estáveis, política e economicamente. Portanto, pouco sabe-se de lá.

Lusaka, capital da Zâmbia

Lusaka, capital da Zâmbia

O esporte tratou por colocar este país no mapa e, por isso, sabermos um pouco mais dele. Quase 19 anos atrás, tentaram colocá-lo, mas um desastre aéreo no Gabão impediu isso e matou 18 jogadores da seleção de futebol que disputava o apuramento para o Mundial FIFA de 1994 nos EUA. A próxima geração de jogadores demorou até 2012 para aparecer com mais destaque e vencer a Copa Africana de Nações.

O futebol, dizia Mauss, é o fato social total. Através do jogo se entende a sociedade de um país. Com a Zâmbia não é diferente: país estável, de pouca população e com boas impressões no cenário internacional. Quase duas décadas de espera e a Zâmbia está de novo em evidência, mas desta vez por terem conquistado a Copa Africana de Nações, através de muita paciência e com base em resultados de longo prazo, assim como tem sido com o crescimento da sua economia e condução política.

Parabéns, Zâmbia!

Como o Futebol explica o Egito

Tragédia de Hillsborough em 1989

Tragédia de Hillsborough em 1989

Uma das maiores tragédias do esporte aconteceu no Egito, ontem, após o encerramento da partida entre os locais do Al-Masry e o Al-Ahly, em Porto Saïd, com a vitória dos donos-da-casa por 2 a 1. Setenta e quatro mortos até agora e aproximadamente 150 feridos.

Em pleno século XXI, com toda a tecnologia de conforto e segurança de recintos esportivos que existe, com toda a consciência na preservação de vidas humanas – que se achava haver -, dezenas de mortos em o que deveria ser um jogo de futebol. E pensar que na Inglaterra, há 23 anos, em 1989, Hillsborough contava 96 mortos na semifinal da Taça da Clubes entre Liverpool e Nottingham Forest.  Desta vez, no Egito, um dos clubes envolvidos era o Al-Ahly, que é comum vê-lo em grandes disputas internacionais. Está longe de ser considerado um grande clube como os europeus e os sul-americanos, mas é um dos principais, levando em consideração cada continente, no caso, o africano. Sobretudo por ser do Egito e pela tragédia haver acontecido lá, País que tem o maior número de títulos na África.

do Egito vamos lembrar o que há de bom

do Egito vamos lembrar o que há de bom

O que aconteceu ontem é um espelho do atual cenário político e social do Egito. Não faz tempo a população destituiu um Presidente, Hosni Mubarak. Desde então, não conseguiram se organizar em um novo governo. Como consequência, não há lá um Estado de Direito, que coloque deveres e direitos aos cidadãos. Cada um faz o que bem entende. A Força Pública não tem mais autoridade: não conseguiram conter uma revolta popular, que teve resultado ao derrubar um Presidente, quanto mais qualquer mobilização menor.

E isso se deu, infelizmente, no esporte. Oras, já é um ambiente de o espectador (torcedor) fugir da rotina, de vivenciar o conflito e a tensão, a experiência. Não há qualquer explicação para tal barbárie. Explicação sim há em o futebol, infelizmente neste caso, espelhar as falidas instituições que o Egito possui. Por haver vencido os campeões nacionais, de virada, os torcedores do Al-Masry ficaram mais hostis aos adversários do Al-Ahly e impuseram essa agressividade – sem qualquer fundamento – nos torcedores da outra equipe, além de invadirem o campo e agredirem os atletas. Resultado: dezenas de mortos e feridos.

Cada um faz, portanto, o que bem entender. E salve-se quem puder.

As Voltas

As Seleções de Rúgbi-de-Sete do Brasil, masculina e feminina, jogarão em Las Vegas, em fevereiro, pelo circuito mundial. Las Vegas que sempre teve identificação com o esporte, desde o início do século passado com o boxe, onde a legislação era mais branda para as apostas. Várias lutas foram lá organizadas, inclusive por Don King, que levou George Foreman e Muhammad Ali para o Zaire, do ex-ditador Mobutu Sese Seko. O Zaire que jogou a Copa do Mundo FIFA de 1974 na Alemanha Ocidental, que hoje é apenas Alemanha e que tem como Chanceler Angela Merkel.

Don King

Don King

Merkel nasceu na antiga Alemanha Oriental, gosta de futebol e torce para o Energie Cottbus, um dos principais clubes daquele extinto país que teve Kristin Otto como grande referência na natação, medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Seul, na Coreia do Sul, em 1988. A Coreia do Sul está tecnicamente em guerra com a do Norte, que jogou duas Copas do Mundo FIFA. A última foi a de 2010, na África do Sul. A primeira delas, em 1966, na Inglaterra.

Ora, a Inglaterra é o berço dos esportes modernos. Foi lá onde estudou Charles Miller, brasileiro, filho de britânicos que, ao regressar o Brasil depois de uma temporada de estudos no exterior, voltou com livros de regras, uma bola de futebol e outra de rúgbi. Um é o principal esporte do país. O outro, o que mais cresce, e é pela bola oval que os brasileiros seguem para aquela Las Vegas de lá do início do texto.

Além Fronteiras

Novos mercados. É isso que quer o esporte brasileiro, em especial o futebol. Estrangeiros que consumam o futebol nacional para além da seleção brasileira. Não é verdade que a CBF não queira que os clubes procurem por novas oportunidades fora do país. Ela não tem nada a perder com isso, pelo contrário.

Internacionalizar uma marca esportiva, que é um clube de futebol, ou uma modalidade, ou uma liga, não é contratar um jogador de São Tomé e Príncipe, outro do Sri Lanka, ou um da Etiópia. Quantos seriam os tomeenses, cingaleses ou etíopes que assistiriam os jogos do Campeonato Brasileiro, ou comprariam as camisas oficiais da equipe? Nenhuma.

A internacionalização da marca esportiva deve seguir, por exemplo, as diretrizes da Política Externa Brasileira. Saber onde e como o Brasil mais atua, quem são seus principais parceiros e quais poderão ser, para, com a ajuda da diplomacia construir uma base sólida para a marca esportiva a fim de obter uma relação duradoura. O futebol brasileiro poderia fazer melhor isso. A indústria da moda faz muito bem, a Osklen é exemplo. Além disso, é muito comum vermos chinelos, camisetas e blusas com bandeiras do Brasil, vestindo todas as nacionalidades.

Atualmente as marcas esportivas consideradas internacionais (Barcelona, NFL, NBA, Real Madrid, Chelsea) colhem os frutos plantados em um primeiro momento pelas políticas externas de seus países de origem: o colonialismo espanhol, o Império Britânico e a expansão estadunidense (“big stick”). Quando forem contratar alguém de algum país, para chamar a atenção, considere 4 fatores:

– Adesão dos nacionais daquele país pela modalidade em questão

– Tamanho do mercado consumidor

– Poder de consumo

– Historial de relacionamento com o Brasil

Que chamem um árabe, um coreano, um russo ou um mexicano. Para tudo isso é preciso planejamento e conhecimento, ter uma base bem feita para poder trabalhar livremente. Saber, antes de tudo, onde se quer chegar. Não basta apenas contratar gringos e assinar contratos com marcas mundiais. Elas ajudam, mas não mantêm.

FuteNobel

João Havelange será indicado pela Academia Brasileira de Filosofia (ABF) para receber o Prêmio Nobel da Paz. Havelange foi por muitos anos presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e da Federação Internacional de Futebol (FIFA). Participou dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. O Nobel da Paz é dos cinco prêmios Nobel, destinado a pessoas que contribuíram com a paz no mundo. Entre os seus premiados estão Martin Luther King, Nelson Mandela e Ramos-Horta.

Havelange será indicado em meio a acusações e denúncias de corrupção e tráfico de influência enquanto presidente da FIFA, entre 1974 e 1998. Acredito que a escolha deva levar em consideração a idoneidade. Há quem diga: Kissinger promoveu tantas guerras e recebeu o Nobel da Paz. Se observarmos exclusivamente o trabalho do dirigente para a promoção do esporte, realmente ele fez por onde para ser indicado a receber tal prêmio. Ele conseguiu fazer com que a entidade tivesse mais membros que a Organização das Nações Unidas (ONU). Mas não só isso, é notável o trabalho imenso no combate ao racismo, à dopagem e também promoveu a integração mundial. Não há dúvidas disso.

Infelizmente a governança deste sistema deu-se na base do tráfico de influência, na barganha, chantagem, corrupção e manutenção do poder.

E ainda há quem possa perguntar: “de que interessa a corrupção da FIFA na escolha do premiado, se até Kissinger foi escolhido”?

Já dizia Manuel Sérgio: “futebol é um serviço público”!

Roupa Nova

A Reebok deixará de vestir o Cruzeiro, que passará a ser Olympikus. O Flamengo já é, mas a adidas quer o clube. O São Paulo permanece com a Reebok. Inter, Bahia, Santos e Coritiba deixam de ser Reebok, Lotto e Umbro, para serem Nike. Atlético-MG e Grêmio permanecem Topper. Botafogo é Puma. XV de Jaú também segue com a Nizam.

O contrato da Olympikus com o Comitê Olímpico Brasileiro termina neste ano e a adidas já está de olho. Enquanto isso, a Mitre chega com força.

As grandes marcas querem mercado consumidor com os grandes clubes. O cerco à pirataria está cada vez maior e o torcedor toma ciência de que o que não é oficial, prejudica o seu clube. A gama de produtos que estas marcas colocam no mercado é vasta, e dá a opção ao consumidor entre comprar algo caro e outra coisa barata, porém oficial. Prática comum em outros lugares, mas que só agora toma forma no Brasil. Anteriormente não eram as grandes marcas que detinham o mercado nacional e, nessa linha de pensamento, disponibilizavam poucos produtos ao público. A pirataria, naquela época era intensa.

O aumento da concorrência fez com que Penalty, Topper, Diadora, Kappa e Umbro (nomes mais comuns há cerca de uma década) se reorganizassem ou deixassem de operar no País. Ademais, outras modalidades foram amplamente favorecidas, como é o caso do rúgbi com a Topper e da Nike com o basquetebol.

No outro lado, os clubes querem com isso agregar valor à instituição. Em o Botafogo estabelecer um contrato com a Puma, é conferido ao clube atributos históricos e de qualidade que a marca alemã possui. Também ganha a marca pelo poder de consumo do torcedor botafoguense e pela tradição que a instituição possui.

Por último, a Nike assinou com a seleção argentina de rúgbi, os “Pumas”. Será que o Pichot – que bem vem atuando nos bastidores da modalidade – tem algum envolvimento nisso? Ele veste Nike.

É a dança das camisas.

Foto: Cruijff pela Holanda, contra o Uruguai, na Copa FIFA 1974. A camisa holandesa era fornecida pela adidas, conhecida pelas 3 listas. Sob a alegação de que não recebia nada da adidas para usar a vestimenta da marca alemã, Cruijff era o único jogador cuja camisa havia apenas 2 listas. Pablo Forlán, pai de Diego Forlán, fazia a marcação sobre o batavo.

Conto Chinês

Muito boa a ideia de o Corinthians trazer o chinês Chen Zhi Zhao para o seu plantel. Se ele jogar bem, excelente. Agora, com que propósito o clube traz  um jogador de um país sem tradição no futebol? O futebol? Não, duvido. Para isso formam na base. Mercado consumidor? Ou seja, um chinês no Corinthians levaria a comunidade chinesa no Brasil e os chineses na China e no mundo a acompanharem mais a equipe e os campeonatos locais. É mais pertinente. No entanto, ninguém vê o futebol brasileiro. Nem mesmo o chinês.

Se o campeonato brasileiro é pouquíssimo visto, não vai ser o chinês que vai atrair os olhos do planeta pra cá. Nem mesmo a China, que acompanha os torneios da Inglaterra e Espanha. Motivo principal: antecedentes históricos, as relações comerciais entre Inglaterra, Espanha e o Extremo Oriente. Por que acompanhamos a Liga Portuguesa? Motivos mais que óbvios! Por que a Colômbia segue o futebol argentino e as atividades dos clubes locais? A resposta disso está nos anos 40 e o “Eldorado do Futebol” que foi a Colômbia – que por não ser filiada à FIFA na época, não seguia determinados estatutos que restringiam os compromissos financeiros de um futebolista profissional -, que atraiu jogadores como Adolfo Pedernera e Di Stefano.

Portanto, se os campeonatos locais do Brasil mal são vistos, neste momento o Chen Zhi Zhao não vai ser capaz, sozinho, de mudar esse cenário. No entanto, com planejamento de longo prazo e confiança, o chinês pode ser um marco para a internacionalização do futebol brasileiro.

Dois Mil e Dúzia

Ano de Jogos Olímpicos, de Europeu de Futebol, de inúmeros eventos esportivos mundiais. O ano reserva grandes acontecimentos, recordes, alegrias e algumas decepções.

Veremos muitos aspectos em que poderemos entender o planeta através do esporte. As Olimpíadas, para isso, são prato cheio. Ao resgatar um exemplo recente, percebemos a incógnita que é a Coreia do Norte com a morte de seu ex-presidente, Kim Jong-Il. Em 2010, já fazíamos (o Brasil) ideia disso quando do jogo da Copa do Mundo FIFA na África do Sul: a partida não foi transmitida ao vivo para Pyongyang e os torcedores norte-coreanos no estádio nada mais eram que atores chineses contratados.

Poderemos entender a África através da Copa Africana de Nações, que tem início no próximo dia 21, no Gabão e na Guiné Equatorial. Ora, onde ficam esses dois países? O Brasil esteve no Gabão ano passado. A Guiné Equatorial, mesmo com o espanhol como língua oficial, faz parte da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Gabão tem petróleo, a Guiné Equatorial também. Se somados os territórios dos dois países, são ainda menores que a metade do estado de São Paulo. Se somadas suas populações, a cidade de Porto Alegre ainda é maior. Obviamente querem com isso projeção internacional ao sediar um torneio como a Copa Africana de Nações. Certamente querem andar ao lado de grandes mercados consumidores, como são os países de língua portuguesa.

Mais um ano para analisarmos tendências, fatos; contarmos histórias, publicarmos devaneios e disparates. Que seja um grande ano, de muito trabalho e ótimos resultados para todos.

Lições

Há quase 10 dias o Santos foi derrotado na Final do Mundial Interclubes para o Barcelona, no Japão. Todos devem estar muito cansados de lerem, ouvirem e verem assuntos que têm aquele jogo como tema. Aproveito e deixo aqui o meu pitaco.

A divinização e endeusamento da equipe do Santos é e foi ridícula. Assim como é também com o Barcelona, como se esquecessem dos planteis-referência de outras épocas. Bom, mas com o Santos foi pior, não pela derrota, mas pela soberba – brasileira e não santista – em achar que somos os bons em tudo, que a arte prevalecerá sobre a “robótica” europeia e em sobretudo acreditar que o individual supera o coletivo. Essa soberba vem em um momento em que o Brasil sim atravessa um período econômico muito melhor que há muito tempo e a cada dia conquista mais destaque no cenário mundial, esportivamente ou não. Entretanto, há muito que aprender – com os exemplos de fora -, há muito a se fazer. Não será com soberba, individualismo e mediocridade que faremos um país melhor.

Que aquele jogo nos sirva para sonhar com os pés no chão e trabalhar com planejamento para um sólido futuro.


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