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Um País a Mais no Mundo do Esporte

Talvez a declaração de independência do Kosovo, declarada hoje, seja a última página de um livro acerca da formação e da triste e sangrenta desintegração da Iugoslávia. A antiga união dos povos eslavos do sul hoje dá origem a mais um novo país e somam agora 7 (Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Kosovo) desde a queda do governo central de Belgrado.

Mais um país para o COI, mais um país para a FIFA, UEFA e demais organismos esportivos internacionais. Mais um motivo para os europeus reclamarem mais vagas em Copas do Mundo. Na primeira delas, em 1930 no Uruguai, os iugoslavos foram um dos poucos europeus que se dispuseram a atravessar o Atlântico e disputar o mundial. Sempre foram um povo muito ligado à prática esportiva, potência no basquetebol, sendo campeão mundial por cinco vezes. Franjo Mihalic foi medalha de prata na Maratona durante os Jogos Olímpicos de Roma, em 1960. Sarajevo sediou as Olimpíadas de Inverno de 1984. O futebol foi por duas vezes vice-campeão europeu (1960 e 1968), para não falar de futebolistas como Stojkovic, Prosinecki e Stankovic. Partizan, Dínamo de Zagreb e Estrela Vermelha sempre foram referências em termos clubísticos, com destaque à conquista da Liga dos Campeões da Europa pela última equipe, em 1991.

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Jogadores do Estrela Vermelha, campeão da Liga dos Campeões da Europa’91

1991 que foi o ano do início da desfragmentação iugoslava. A situação política interna já não ia tão bem. Os exemplos de movimentos separatistas na ex-União Soviética também alimentavam a tensão. Os mais românticos dizem que o colapso da Iugoslávia se deu a partir de um jogo de futebol entre o Estrela Vermelha, de Belgrado e o Dínamo, em Zagreb (atual capital da Croácia). Os torcedores locais levaram ácido às arquibancadas para que os alambrados que os separavam dos visitantes fossem corroídos. Isso aconteceu realmente e o confronto foi inevitável. Os policiais, que em princípio tinham que garantir a segurança dos visitantes, foram coniventes com esta iniciativa, até mesmo tomando parte dela. Ao verem seus torcedores sendo atacados, os próprios jogadores do Estrela Vermelha atacaram os policiais. Enquanto isso, na final do mundial de basquete, croatas agitavam suas bandeiras e vaiavam o hino iugoslavo, fazendo com que Vlade Divac – que por muito tempo jogou na NBA – abandonasse a quadra e partisse para a agressão física aos separatistas. Já em uma escola de Belgrado, uma professora queria saber o porquê de o aluno haver faltado às aulas por muitos dias. De acordo com seu pai, o menino aprendera muito mais sobre cidadania e amor à pátria ao acompanhar um jogo do Partizan no exterior. Se ficasse na escola, nem tanto.

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Seleção iugoslava de basquete, campeã mundial de 1990, com Vlade Divac e Dražen Petrović, jogadores que anos depois tiveram suas histórias contadas no documentário ‘Once Brothers’ > http://bit.ly/1suWBaU

A divisão da Iugoslávia proporcionou mais jogos para o apuramento à Eurocopa, ao Mundial de futebol, de basquetebol e de handball, por exemplo. Pode ter levado dor-de-cabeça aos dirigentes, mas, ao mesmo tempo, o esporte foi uma maneira de auto-determinação dos povos destes novoa países: a Croácia foi 3ª colocada na Copa de 1998, e tem tenistas de ponta como Ivan Ljubcic e Goran Ivanisevic (campeão de Wimbledon em 2001). Por sua vez, a Eslovênia participou de dois mundiais de futebol e a Bósnia-Herzegovina tem uma das melhores seleções de hóquei-no-gelo.

Bósnia-Herzegovina (azul) x Grécia, no handball

A partir disso tudo, com o Kosovo não será diferente e talvez uma das primeiras providências será a de participar das Olimpíadas em Beijing, em agosto próximo. Filiar-se ao COI e à FIFA é mais de meio caminho andado para o seu reconhecimento perante à comunidade internacional. Por enquanto deve-se desejar os parabéns aos kosovares pela independência!

O Futebol e a Geometria

Esta vale a pena. Estava eu ontem a escutar Sporting x Basiléia, pela Taça UEFA, através da rádio Antena 1 (RTP).  Certa altura o narrador diz:

“…e vai o guarda-redes para posicionar o esférico no vértice superior esquerdo da pequena área…” 

Demais! Em negrito estão as palavras que se relacionam com a geometria. Isso em plena narração de um jogo de futebol. Como dizia aquele antigo narrador dos anos 60 e 70: “Gol, gol, gol! TV2 Cultura de São Paulo…esporte também é cultura!

Abraços a todos.

Futebol no Mundo

Goh Hsien Smirappan é um jovem de Singapura, morador do distrito de Ang Mo Kio, fã de futebol e torcedor do Everton, o “clube do povo”, de Liverpool, que tinha também os membros dos Beatles como torcedores. Goh sempre acompanha os jogos da Liga Inglesa pela TV, reúne os amigos, coleciona figurinhas, cachecóis, tem os nomes dos jogadores na ponta da língua e está ansioso para adquirir um ingresso para um dos jogos do campeonato inglês que provavelmente será disputado em seu país na temporada 2010/2011.

Torcedora do Manchester United aguarda a chegada da equipe na China

Recentemente o CEO da Barclays Premiership (primeira divisão inglesa) anunciou que alguns jogos da época supracitada podem ser disputados em outros países, especialmente asiáticos, os principais responsáveis pela grande audiência do futebol inglês. O resultado disso serão as milhões de libras a mais nos cofres dos clubes. Não há dúvidas de que é o campeonato mais bem organizado e competitivo do mundo. Estádios sempre cheios, com bom comportamento dos torcedores e bons jogos, com jogadores de todo o planeta.

Há menos de 20 anos o futebol na Inglaterra não era assim. Há menos de 20 anos acontecia a tragédia de Hillsborough, em que 89 torcedores perderam a vida em uma partida da semi-final da Taça da Inglaterra. Há menos de 20 anos os clubes ingleses eram proibidos de disputarem torneios continentais devido à tragédia de Heysel*. As famílias estavam afastadas dos estádios. As receitas dos clubes, mínimas. Patrocínios, zero. Futebol, nada!

Incidente no estádio de Hillsborough, em 1989

A partir do início dos anos 90 houve uma profissionalização da estrutura de organização do futebol britânico. Por incrível que possa parecer, as primeiras medidas tomadas foram colocar assentos numerados para os torcedores nas arquibancadas e retirar as grades que separavam o campo de jogo das bancadas. Depois disso é que foram resolver o problema com os hooligans. O torcedor passava a ser mais respeitado. Sem dúvida que os ingressos tornaram-se mais caros, mas em contrapartida um espaço esportivo mais confortável e sem confusões, atraiu de volta os mais pessimistas dos torcedores. Isso permitiu mais rendimentos aos clubes (não apenas de bilheteria, mas também de produtos licenciados), que puderam contratar bons jogadores – o futebolista inglês que atuava em outras ligas européias, já não tinha mais motivos para atuar fora de seu país -, o que por sua vez trouxe mais público aos jogos e interesse por parte das redes de televisão e dos patrocinadores, que juntaram-se ao futebol na tentativa de expandir seus negócios pelo mundo, através da venda dos direitos de transmissão para inúmeros países. Países alguns que vão receber esses jogos daqui poucos anos. É como se fosse uma bola de neve montanha abaixo. Só aumenta.

O Brasil possui bons jogadores, clubes tradicionalíssimos e milhões de torcedores. O futebol brasileiro é capaz de gerar milhões em receitas e em empregos. Para levantar os clubes não são necessárias Timemanias ou MSIs. Profissionalismo e visão são os itens que faltam para o esporte nacional, não só para o futebol. A partir do momento em que estes princípios forem empregados, seremos capazes de vislumbrar um jovem de Singapura ansioso para ver um jogo do Campeonato Brasileiro em seu país, ou de uma remota comunidade rural no Burundi torcendo pelo Brasil em uma Copa do Mundo, bem mais do já costumam torcer! Aí sim estaremos presentes de uma maneira global, transmitindo ao mundo o que o Brasil tem de melhor.

* – A tragédia de Heysel (estádio em Bruxelas) aconteceu em maio de 1985, na final Liga dos Campeões da Europa, quando cerca de 40 torcedores da Juventus foram mortos devido a tumulto causado pela torcida do Liverpool;

Texto inspirado por uma conversa no “autocarro” 201 (Cais do Sodré/Linda-a-Velha) com o César “Bigo”, na madrugada de 10.02.2008

O “Super Bowl”

Foto da Final do Super Bowl de 2007, entre Indianapolis Colts e Chicago Bears

Já dizia um antigo professor que não gostava de americanos: “…reconheço que eles sabem fazer música…”. A esta frase, acrescento que sabem também fazer espetáculos, espetáculos esportivos, mais precisamente.

Hoje é dia do Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano. Os EUA param para ver este jogo. É o maior evento esportivo no planeta de apenas um dia, que acontece todos os anos. Segundos na televisão que valem centenas de milhões de dólares. Bilhetes com preços altíssimos. Empresas que gastam outros milhões nos atletas que estarão presentes. Fora a quantia gasta pelos torcedores, presentes ou não no estádio, em produtos licenciados das equipes, comida, estacionamento, cerveja, hotéis, passagens de avião, enfim, tudo isso inserido na grandeza e potencial do mercado consumidor estadunidense.

Um evento recheado de inúmeros outros. Para que se tenha uma idéia, os Rolling Stones fizeram uma apresentação no intervalo do Super Bowl de 2006. Tina Turner cantou o hino nacional antes dessa decisão, há alguns anos. Como é ano de eleições presidenciais, certamente os que disputam a corrida à Casa Branca de alguma forma estarão presentes, in loco, ou por breves comentários desta partida. Para os puritanos, é impossível fazer uma analogia deste jogo com a final de uma Copa do Mundo. Sem dúvida alguma que uma final de Copa pára o mundo inteiro, enquanto a decisão do futebol americano é capaz de fazer isso em apenas um país. Em contrapartida, o Super Bowl está ao alcance de toda uma nação, seja através do idioma, dos costumes e de um american-way-of-sport, baseado no espetáculo e no consumo. Muito diferente de uma final de Copa do Mundo, quando a presença dos torcedores é limitada pela territorialidade, não existem eventos paralelos, é pouco promovida e acontece apenas de quatro em quatro anos.

O futebol americano a cada ano supera as suas receitas com as transmissões de TV, patrocínios e vendas de produtos licenciados. Isso é capaz de gerar milhões de empregos diretos e indiretos. O que for feito com esta finalidade, no futebol que a gente conhece (o que é jogado em todo o mundo), será bem-vindo e para isso o jogo não precisa perder a sua essência, como os que temem que ele se tornaria muito “comercial”. O bom senso basta. É preciso ter em mente que, nos dias de hoje, sem patrocínios e anunciantes, o esporte fica inviável.

A África do Sul, o Rugby e o Apartheid*

* – política de segregação racial conduzida pela África do Sul entre 1948 e 1990 

O ano de 1948 marca a história da África do Sul pela implementação do Apartheid (vida separada, em africânder), regime em que os brancos detinham o poder político e econômico, em detrimento dos demais povos, que, além de terem que viver separadamente, sequer possuíam seus direitos de cidadão assegurados. Durante quase todo o século XX a sociedade sul-africana ficou marcada pela segregação racial. Os negros não podiam freqüentar as praias, os bairros, as escolas e as universidades dos brancos, as melhores. Não podiam andar nos mesmos ônibus e vagões de trem que os europeus, também melhores. Não podiam ocupar altas patentes das forças armadas, destinadas aos brancos. Oficialmente, eram proibidos de pertencer às seleções nacionais de alguma modalidade esportiva.

Estação de trens apenas para negros em Pretória, África do Sul, durante o Apartheid  

Por conta disso a África do Sul foi banida completamente da FIFA por João Havelange, em 1974. Também foi pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). As modalidades mais praticadas naquele país africano eram (e são): o Rugby, o críquete, o futebol e o boxe. O Rugby sempre foi associado à dominação branca – racista e repressora -, uma vez que era praticado pela elite. Isso não quer dizer que os negros não jogavam, mas eram organizados em ligas restritas. O futebol, praticado em sua maior parte pelos negros, esteve sempre em segundo plano e era pouco incentivado pelo governo. No final da década de 1960 a África do Sul propôs à FIFA a possibilidade de disputarem as eliminatórias da Copa de 70 com duas seleções: uma apenas de negros e outra só com brancos. Pedido negado. O mundo do futebol estava ao lado da maioria dos sul-africanos, ao contrário da International Rugby Board (IRB), que manteve os Springboks[1] em suas fileiras durante a política de segregação interna, porém proibidos de disputarem torneios internacionais. Mesmo assim, o Rugby foi a referência esportiva do Apartheid. 

Na época primeiro-ministro, Frederik de Klerk, pressionado pela opinião pública internacional, pôs fim a esse regime em 1990. Nelson Mandela, negro, líder do Congresso Nacional Africano, é solto após quase três décadas preso. Reformas políticas e sociais e econômicas são levadas a cabo com a finalidade de manter a África do Sul indivisível. Por muitas vezes, províncias como a do Cabo, a de Orange, a do Transvaal e os Bantustões chegaram perto de proclamarem a independência. Em abril de 1994 realizam-se as primeiras eleições livres e multirraciais, com a vitória de Mandela. 

O ano seguinte marcaria a vida do esporte na África do Sul. Pela primeira vez o país era aceito em uma competição internacional, a Copa do Mundo de Rugby, que seria disputada em sua própria casa. Antes divididos, os sul-africanos agora torciam com um objetivo em comum, porém com desconfiança: além de ninguém se esquecer de que os Springboks recordavam o Apartheid, a seleção consistia apenas por brancos. Tal situação mudou quando o negro Chester Williams foi convocado às pressas para substituir um companheiro lesionado, sendo de fundamental importância para a conquista da Copa, contra a Nova Zelândia. A vitória foi um marco para a história da República da África do Sul e o Rugby era responsável por isso. Pela primeira vez o país era legitimamente representado em nível internacional por uma seleção multirracial. A união dos sul-africanos e a euforia em torno deste objetivo em comum (a vitória na Copa) ficaram demonstradas nas palavras do então capitão da seleção, François Pienaar, ao receber o troféu das mãos de Nelson Mandela: “Hoje não são apenas os 60 mil aqui do estádio a comemorar o título, mas sim os 43 milhões de sul-africanos!”.

Pienaar recebe de Mandela a taça da Copa do Mundo de Rugby’95  

Anos mais tarde, já ex-presidente, Nelson Mandela disse que a África do Sul não seria a mesma caso os Springboks não tivessem vencido o mundial de 1995. Para quem fala que o esporte é apenas jogo, considere a autoridade de quem disse isso. Já dizia Nélson Rodrigues: “O pior cego é aquele que só vê a bola”.


[1] Como é conhecida a seleção sul-africana de Rugby

O Terrorismo no Esporte

Os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, jamais serão lembrados pelas sete medalhas de ouro conquistadas por Mark Spitz, nadador estadunidense. Nem também pela decisão do basquete masculino, entre União Soviética e Estados Unidos, decidida nos segundos finais. Essa Olimpíada será sempre lembrada como aquela em que o grupo terrorista Setembro Negro invadiu o prédio onde estava alojada a delegação de Israel, mantendo-a refém. O plano de resgate foi frustrado e resultou na morte dos onze atletas israelenses.

Membro do Setembro Negro no atentado durante os jogos de 1972 

Você, estimado leitor, deve estar aí se perguntando o porquê de o tema “terrorismo” ser abordado neste espaço. Em primeiro lugar, o terrorismo está cada vez mais presente em nosso cotidiano. O terrorismo hoje em dia é tema de inúmeros debates e políticas na sociedade e nas relações internacionais e, por tudo isso, o terrorismo também influencia o esporte. Como? Basta reler o exemplo do primeiro parágrafo, o mais evidente da história. 

Nesta semana o esporte também foi “vítima” do terrorismo. Bom, em outras palavras, evitou ser a vítima, mas acabou também se tornando, antes mesmo de ter sido. Isso porque o rali mais importante do mundo, o Dakar (antes conhecido como Paris-Dakar) era para ter começado no dia 5 de janeiro, a partir de Lisboa, com destino ao Dacar, no Senegal. O seu trajeto passava, por além de Portugal, pela Espanha, Marrocos, Saara Ocidental e Mauritânia, até atingir a capital senegalesa. Dias antes do início da prova, quatro cidadãos franceses foram assassinados na Mauritânia (país em que se passava o percurso) e o serviço secreto francês descobriu planos de uma célula do Al Qaeda (responsável pelos atentados nas estações de Madri) para raptar pilotos do rali, especialmente os franceses. Com isso, a direção da prova foi informada e provavelmente as seguradoras do evento não resolveram correr o risco de serem fortemente prejudicadas com o provável seqüestro dos pilotos. Se tais seguradoras não garantiam então as condições dos pilotos, o rali foi cancelado. E muito bem cancelado. Se a prova deste ano fosse marcada pela atuação do Al Qaeda, muito provavelmente esta seria a última edição desta prova tão tradicional. A organização falhou no aspecto de não haver o tal “plano B”. Sabe-se que o trajeto passa por países que são brandos e coniventes com a presença dos grupos terroristas em seu território e, além disso, os países que mais têm pilotos na prova são França e Espanha, cujas políticas externas não agradam aos olhos destas organizações criminosas. Se assim era, seria necessário haver um percurso alternativo, para que o evento fosse realizado e os compromissos, realizados. São milhões de dólares perdidos e outros milhões que se deixam de ganhar, além de milhares de empregos, diretos e indiretos que se perdem ao longo de muitos quilômetros, até Dacar.

Jogadores do Iraque, campeão da Copa da Ásia em 2007  

Depois de tudo isso, o terrorismo evita o esporte, no sentido de impedir, de acabar. O esporte também pode acabar com o terrorismo. Caso não queira ler devaneios ou ilusões, termine a leitura por aqui. Talvez o que a Real Federação Espanhola faz, que é permitir seleções regionais a jogar partidas amistosas com outros países (como por exemplo a Catalunha e o País Basco), parece correto. Assim acalmam-se os ânimos dos grupos separatistas e da ETA. Em uma outra situação, a conquista da Copa da Ásia pelo Iraque, em 2007, uniu em torno daquela seleção: curdos, xiitas, sunitas e cristãos. E o selecionado iraquiano tinha em seu plantel, membros de todos estes grupos citados. Não é preciso viver em Bagdá para dizer isso, mas não há dúvidas de que esta conquista levou ao povo iraquiano o sentimento de pertencer a uma nação, à percepção do outro como igual. Se fosse pela realização do rali e pelo bom andamento da prova, que dessem o direito ao Al Qaeda de ter uma equipe, e que vencessem! Oxalá Pequim (ou Beijing, como preferirem) e a África do Sul estejam preparadíssimos, porque tudo e mais um pouco ainda pode acontecer.

Nazio Bat, Selekzio Bat*

* – uma nação, uma seleção (em euskera) 

Alguns assuntos chamaram minha atenção nesses dias que passei na Espanha. Não foram os preparativos com o Natal, não teve a ver com a economia espanhola, tampouco com Rajoy ou Zapatero. Teve, claro, a ver com o título deste blog, o esporte. Mais uma vez o futebol esteve no meio, com a realização de duas partidas interessantes: o Barcelona x Real Madrid de ontem e o País Basco x Catalunha no próximo dia 29, em Bilbao.

A Espanha é um país com várias nações, tanto é que aprendemos a falar castelhano, e não espanhol. Dentro daquele território há os galegos, os catalães, os andaluzes e os bascos, por exemplo. Vários possuem língua própria, como catalães, bascos e galegos. De um modo geral, casamentos e acordos entre membros da Família Real e das cortes destas regiões formam o que hoje se entende por ser o Reino da Espanha. As províncias espanholas, como os estados brasileiros, possuem características muito particulares, mas ao contrário do Brasil, o idioma não os une. O idioma é um fator de separação. Etnicamente falando, com exceção dos Bascos, todos ali são uma “mistura” entre celtas e mouros. No aspecto religioso, todos são (muito) católicos. É claro que alguém de Zaragoza (Aragón) ou de Sevilha (Andaluzia) declarar-se-á espanhol, por afinidades históricas. Porém, um galego não se diz espanhol, assim como um basco ou um catalão, por “desafinidades” históricas.  Sem dúvida alguma que, quando estas regiões se submeteram ao governo central de Madri (seja por casamentos ou por tratados entre as elites), boa parte de suas populações (se não tiverem sido a maioria) foram contra. Mantiveram seus costumes e atitudes que iam de encontro à idéia da grande Espanha. Foi assim com a Catalunha, com a Galícia e o País Basco. Em Barcelona, predomina o catalão entre os seus habitantes. Em Bilbao, os assentos de San Mamés conversam em euskera[1]. Em Vigo ou em Compostela, fala-se o galego, muito mais fácil de entender do que propriamente o castelhano.

Mapa do Reino da Espanha, com suas províncias

Com a instalação da República da Espanha em meados do século XX, tais províncias (Catalunha, Galícia e País Basco), ganharam bastante autonomia e caminhavam para a plena independência. Porém, com a vitória do General Franco na Guerra Civil (1936-1939) todo este período de euforia diminuiu e o “generalíssimo” (como Franco era conhecido) reprimiu todas as maneiras de autonomia, a começar pelo idioma. Donostia, no País Basco, tornou-se San Sebastián. Por sua vez, o FC (Fútbol Club) Barcelona, nome catalão, tornou-se C. de F. (Club de Fútbol) Barcelona, nome em castelhano, isso pelo fato de o clube ter levado para outros países – principalmente aos EUA e ao México – a causa catalã e a luta contra o franquismo. Estes atos de rebeldia levaram a equipe de Barcelona a sofrer intervenção estatal e por isso a mudança do nome. Na década de 40, em uma decisão da Copa do Rei, o Barcelona recusou-se a vencer, justamente para não recebê-la das mãos de Franco e de membros da família Real. Esta partida foi contra o Real Madrid, que, ao contrário do clube catalão, era utilizado pelo “generalíssimo” para promover a Espanha pelo mundo, em que o Real Madrid representava mais que muitas embaixadas, segundo um próprio membro do governo franquista. Apenas em 1955 a Espanha faria parte da ONU.

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Símbolo do Barcelona durante o governo de Franco. 

Notem que em vez do catalão ‘F. C. Barcelona’, o nome do clube foi castelhanizado para ‘Club de Fútbol Barcelona’

 

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Escudo atual do FC Barcelona, já com o nome catalão 

Estava então levado para dentro das quatro linhas o embate entre o governo central espanhol e a causa catalã, representados pelo Real Madrid e Barcelona, respectivamente. Já no País Basco, o Athletic só voltou a ser Athletic depois da morte de Franco. Enquanto ele estava vivo, era Atlético de Bilbao, mas manteve – como mantém até hoje – a política de contratar e aceitar em seu plantel apenas jogadores Bascos. É por isso que encontros entre Barcelona x Real Madrid, Athletic Bilbao x Real Madrid são muito mais que apenas jogos. Há toda uma história e um significado por trás disso: idiomas, guerra, submissão, intervenção. Simbolicamente, uma vitória barcelonista ou do Athletic sobre o Real significa o triunfo da causa catalã ou basca sobre o governo central, que no passado era dominador e repressor. Hoje em dia a Espanha é uma democracia plena e um dos países que mais crescem no mundo. A Catalunha e o País Basco possuem estatutos de região autônoma, mas a luta pela independência continua e nada melhor que o esporte para demonstrar isso. Quando atuam pela seleção espanhola, Puyol e Xavi (catalães) abaixam parte de suas meias, escondendo as cores da bandeira. A Federação permite que as regiões autônomas realizem um certo número de amistosos com outros países, assim como a Catalunha fez com o Brasil há certo tempo. Entretanto, desta vez tais regiões decidiram jogar entre si e no dia 29, em Bilbao, jogarão País Basco x Catalunha. Para incentivar a presença do público, a televisão local colocou um anúncio em forma de desenho animado em que a seleção Basca está para jogar contra o Brasil, mas de repente invadem o campo, impedindo a realização da partida: um guarda civil espanhol, o Manolo el del Bumbo (torcedor símbolo da Espanha), um personagem com o cartaz da Federação Espanhola e um galo com as cores da França trazendo uma placa da federação daquele país (vale lembrar que parte do território basco está na França). De repente o público se revolta com a entrada destes personagens que saem em disparada com o tratamento hostil e, assim, a partida pode ser iniciada sem problemas. Tal anúncio pode ser visto, em euskera, em:

 

Seleção espanhola. Reparem que nas meias de Puyol (nº5) e Xavi (nº8), catalães, não se nota a bandeira da Espanha

Exemplo de Estado-Nação, a Espanha não é, sem dúvida alguma. Que tais regiões serão independentes? Um dia, quem sabe. Em curto prazo, apenas se uma grande mudança no governo espanhol acontecer, o que não ocorrerá. Bascos, galegos e catalães não vão querer abrir mão da estabilidade e  crescimento por que a Espanha, o Reino da Espanha, onde todos eles vivem, vem passando. Desportiva e futebolisticamente falando, que graça teria se estas regiões fossem Estados soberanos? Nenhuma! Não teríamos mais Real Madrid x Barcelona e todo este debate acerca do esporte como meio de representar as nações-sem-Estado. Assim não há graça.

 


[1] Como Eduardo Galeano, em “O Futebol ao Sol e Sombra” escreve;

Os Melhores do Mundo

Independentemente de Kaká ter sido escolhido como o melhor jogador do mundo em 2007 – alguns dirão que o prêmio foi para o Brasil, para salvar o ano –, dos três finalistas (Messi, Kaká e Cristiano Ronaldo), os três são latinos, dois falam português, jogam em grandes clubes nas três maiores ligas do planeta e são as figuras principais das marcas desportivas que os patrocinam (Messi e Kaká, adidas; Cristiano Ronaldo, Nike). 

Com exceção de Cristiano Ronaldo, Messi e Kaká são latino-americanos. Um argentino e um brasileiro, respectivamente. Argentina e Brasil, 7 títulos mundiais juntos, líder e vice-líder do ranking da FIFA, onde o futebol surgiu por influência dos marinheiros e estudantes ingleses nas principais cidades destes países, como Buenos Aires e o Rio de Janeiro. Daí percebe-se o porquê de o Fluminense ser Football Club e do Newell’s possuir um nome tão inglês. Países que fizeram-se valer da mistura de etnias para abrilhantar o esporte mais popular do planeta e que assim, ganhariam o mundo (como mesmo ganharam e estão a ganhar). Em Portugal não é diferente: o futebol foi levado por marinheiros ingleses e o futebol português valeu-se do domínio colonial para variar o estilo de jogo da sua seleção e da modalidade em seu país. Levou os melhores jogadores das ex-colônias a jogar nos grandes clubes, como Eusébio e Mário Coluna, ambos de Moçambique, os mais recordados. Com o passar do tempo, mais tem-se a idéia de que Messi, Kaká e Cristiano Ronaldo estão perdendo suas identidades. Isso mesmo. A cada dia que passa Messi é menos argentino (ou nunca foi!), Kaká não é brasileiro e Cristiano Ronaldo menos português. Mesmo quando são convocados às suas respectivas seleções. Messi possui por acaso a mesma elasticidade de um Marangoni ou um Kempes (o de 78)? E Kaká? Habilidoso, sem sombra de dúvidas! Porém, incomparável a Júnior, Sócrates ou Tostão. Já Cristiano Ronaldo não é nem sombra de Eusébio ou Futre. Além disso, Messi foi completamente moldado ao estilo europeu de jogo (está na Catalunha desde os 13 anos). Não se fala tanto nele quando joga pela alvi-celeste. Kaká também não é o mesmo na seleção brasileira e Cristiano Ronaldo não é o mesmo de Manchester. Além disso, comportam-se como mandam os clubes, treinadores, agentes e patrocinadores. Afinal, são eles quem pagam. A bandeira nacional não lhes dá nada. Seria muita inocência pensar desta maneira, nos dias de hoje. 

Um brasileiro, um argentino e um português, muitos pensaram quando os indicados ao melhor jogador de 2007 foram anunciados. Outros disseram: Milan, Barcelona e United, ou Bwin, Unicef e AIG. Um protestante, um católico e outro não-sei-o-quê. Houve aqueles que bradaram: adidas, adidas e Nike (eu fui um deles). O próximo ano promete. Esses três jogadores, indiscutivelmente mereceram a indicação. Pelo menos isso. Atualmente as seleções nacionais estão desprestigiadas e talvez seja esta a tendência, com exceção da realização da Copa do Mundo. 

Que o jogo continue a ser jogado, em seu estado puro, imaculado. E que os atletas e os torcedores de todo o mundo sejam respeitados.

H.E. Mr. George Weah

Além de ter sido um dos melhores futebolistas da história (melhor jogador do mundo em 1995), George Weah é uma figura-chave na reconstrução de seu país, outrora arrasado pela guerra civil: a Libéria.

Este país foi o primeiro da África a ser independente (1847). Sua população era constituída de antigos escravos dos Estados Unidos, que os presenteou com um país em seu continente natal. Tal medida foi tomada pelo ex-presidente americano Monroe. Daí o nome da capital, Monróvia. O nome Libéria, por sua vez, remete à liberdade conquistada pelos ex-escravos. De 1847 até o início deste século este país vivenciou constantes trocas de poder, repressão, corrupção, pobreza e desigualdade. Milhares de liberianos procuravam uma vida melhor nos países vizinhos. Foi o que aconteceu com George Weah, que da Libéria partiu para os Camarões. De lá, ganhou a França. Mônaco, Paris. Do PSG (Paris Saint-Germain), rumo para o AC Milan, onde foi o melhor de sempre. O único. Ainda mais em seu país. Com ele, a Libéria era conhecida em todo o mundo.

  

Em 1995 os liberianos estavam à beira de um colapso. Era o auge da guerra civil e da disputa pelo poder. Qual era o motivo para o liberiano sentir-se liberiano? George Weah. Com recursos próprios o ex-jogador garantiu a participação da Libéria nas eliminatórias para a Copa de 98: era ao mesmo tempo treinador e jogador, convocava-os, pagava as passagens de avião e a hospedagem, além de garantir-lhes material esportivo. Em uma perspectiva avançada – idealista até, alguns podem dizer -, garantiu a existência de um país. E assim foi até o início deste século, quando sob a intervenção da Organização das Nações Unidas a Libéria conseguiu maior estabilidade política e realizou em 2005 as primeiras eleições multipartidárias depois de décadas de guerra civil. Os candidatos principais eram dois: Ellen Johnson-Sirleaf, economista com Doutoramento em Harvard, tendo trabalhado por muitos anos em organismos internacionais, como o Banco Mundial. Do outro lado estava – sim, era ele mesmo – George Weah, que já havia abandonado a carreira de jogador e que atuava na fundação de assistência a crianças carentes de seu país, e que levava o seu nome.  

  

O ex-jogador não venceu as eleições, mas é inegável que ele foi um símbolo para a sustentação de um país em sua época mais complicada. Aos poucos a Libéria vem conquistando mais estabilidade sócio-econômica, com um crescimento ainda tímido. O bom é saber que o país foi reconduzido a uma democracia, em que George Weah será ainda mais atuante, sem dúvida alguma.

Uma Tragédia Anunciada

O que aconteceu no estádio da Fonte Nova, em Salvador, no domingo passado (25/11), é o reflexo do descaso e desrespeito para com o torcedor em um país que será sede de uma Copa do Mundo. Quarenta pessoas caíram de uma altura de 20m depois que o chão de uma das bancadas cedeu. Com a queda, sete pessoas morreram. As imagens são impressionantes, não apenas da tragédia, mas também do tamanho do vão, bastante pequeno para 40 torcedores caírem. Sobrelotação, sem dúvida alguma.

  

No mundo e principalmente no Brasil existem pessoas – que devem entender muito de engenharia e segurança – que dizem que estádios como o Maracanã, o Mineirão e o Morumbi estão aptos para receberem a Copa. Ver um jogo e pagar para o “flanelinha” R$200,00 para cuidar do seu carro é um indicador de um estádio digno para receber uma partida de tão importante evento? Não. Parar o seu carro a quilômetros de distância do estádio e estar vulnerável a brigas e confusões durante o trajeto a pé também não é nada bom. Isso fora o torcedor não poder contar com transportes públicos, eficientes, suficientes, lugares numerados e demorar meia hora para sair do estádio. O contexto brasileiro neste quesito, para variar, é vergonhoso. Quem já teve a oportunidade de freqüentar estádios europeus, norte-americanos ou japoneses sabe do que isso se trata. 

A realização de Brasil x Uruguai no último dia 21/11 deixou a desejar. Nada sobre a partida, mas sim à organização. Atrasos e confusões, antes, durante e depois do jogo. Imprensa no gramado, o que é inaceitável. É preciso mudar este conceito e é para isso que existem as coletivas de imprensa após cada encontro. Alem disso faz-se necessário reprimir a ação dos cambistas e “flanelinhas”, que nada mais são do que frutos da má organização do futebol e do esporte em geral. Se para o Europeu de 2004 demoliram os principais estádios para a construção de novos, como o da Luz, o de Alvalade e o do Dragão, não faz sentido manter os principais estádios brasileiros, medíocres, para o maior evento do planeta, daqui a 7 anos. Daqui a ainda 7 anos, quando os conceitos de engenharia e segurança serão muito mais apurados e avançados do que os atuais, em que o Brasil está ainda muito aquém.

  

Depois os brasileiros dizem que os portugueses são “isso”, ou “aquilo”. Eles não mediram esforços para fazerem a melhor Eurocopa da história. Colocaram abaixo os lendários estádios da Luz e das Antas, que em termos de “lendas” nada devem a qualquer estádio brasileiro. Hoje em dia eles são incomparáveis, com serviços que cativam e fidelizam o público. Há muita coisa para se aprender, muita coisa para se mudar, muitas pessoas que devem largar o cargo que ocupam. É preciso pensar e respeitar o próximo. Isso foi o que não aconteceu no caso da Fonte Nova. Pensou-se mais no dinheiro. Sete pessoas precisaram morrer para que tomassem a decisão de derrubar um estádio que estava condenado. E pelo Ministério Público.  

Um tremendo desrespeito.


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