Archive for the 'Legado' Category



A África do Sul, o Futebol e o pós-Apartheid

Maior economia da África, a República da África do Sul está fora do Mundial FIFA 2014. O estereótipo prevalece: um país com  população de maioria negra (em que os leigos dizem que preferem mais o futebol) não poderia ficar de fora.

Ora, os sul-africanos foram os anfitriões do último evento, mas o futebol por lá não dá grandes avanços. Não é a modalidade preferida deles. Lembro-me que quando lá estive, desembarquei no aeroporto de Joanesburgo (O. R. Tambo) durante um jogo. O aeroporto praticamente ‘parado’ com os olhos na TV. Não era futebol. Era jogo do antigo “Tri-Nations”, entre a Nova Zelândia e os Springboks.

Fish e Tovey

Fish e Tovey

Há mais negros hoje no rugby sul-africano de alto-rendimento do que brancos no futebol. E havia mais antes. Exemplos não faltam: Nos anos 1990, os dois craques dos Bafana-Bafana (montagem acima) eram brancos: Mark Fish e Neil Tovey (capitão da equipe campeã da Copa Africana de Nações de 1996). Hoje, as principais estrelas dos Springboks são negras: Cecil Afrika, Bryan Habana, por não falar em Tendai Mtawarira (montagem abaixo).

Afrika e Mtawarira

Afrika e Mtawarira

Uma equipe nacional multicultural representa muito – mas muito – mais os habitantes daquele país do que uma equipe apenas de brancos (como era a seleção de rugby/Springboks durante o Apartheid) ou de negros (como é a do futebol de hoje/Bafana-Bafana, pós-Apartheid).

Ademais, tudo isso teve o dedo de Mandela. Soube ele em 1995 trabalhar com o rugby ao transferir para a equipe nacional a representação da “Rainbow Nation” que ele propunha quando da sua eleição à presidência, em 1994 e, com isso, conferir ideia de nacionalidade, pertencimento e, consequentemente, integridade territorial, apesar de apenas Chester Williams ser o único não-branco da equipe. A vitória dos Springboks naquele mundial de rugby de 95 simbolicamente era a vitória do novo país, do sucesso de uma sociedade multiétnica e multicultural.

Não me surpreende o futebol da principal economia africana estar fora do Mundial. O esporte preferido deles, além de ser a manifestação desportiva do Estado-Nação da África do Sul – assim como falei do Brasil no texto anterior – é, sem dúvida alguma, o rugby.

O que a Copa do Mundo FIFA deixou de legado para o futebol da África do Sul? Até agora nada que se possa perceber. Talvez tenha influenciado geração cujos resultados serão apenas colhidos em quinze, vinte anos.

 

À Prova

Não dá pra levar a sério um país onde, em um jogo de futebol da primeira divisão de profissionais, do principal esporte do país, torcedor entra com uma barra com pregos na ponta para atingir torcedor da equipe adversária. Onde acontecem brigas de torcida, sem a presença de policiais.

E os organizadores se defendem: ‘ah, mas não quiseram polícia no contrato’.

Ora, não levam a vida humana a sério! É para esse tipo de gente que conferimos autoridade pública? Não devíamos.

Ontem um turista canadense foi morto em uma autoestrada no litoral de São Paulo. Hoje essa briga em Joinville. Neste momento em que vos escrevo converso com um amigo no whatsapp e ele diz que o que viu pela TV eram cenas de barbárie. E estamos no século XXI.

2013 foi um ano que passou a colocar o Brasil à prova. Se o Brasil quer ser uma grande nação e reconhecida como tal, é preciso agir para. Tudo isso a prazo contribui na construção do ‘Produto Brasil’, vendido mundo afora. Atualmente, o ‘Produto Brasil’ é: sexo, drogas, violência extrema, bunda, futebol, violência extrema no futebol, chinelo, preguiça, caipirinha e falta-de-compromisso.

Com tudo isso dou toda razão à Fernanda Lima, em sua declaração depois de apresentar a cerimônia do sorteio de grupos do Mundial FIFA 2014, perguntada se tentaria a carreira internacional:

“Bem que eu gostaria, mas tem a barreira da língua e a barreira cultural, que sempre existirá por mais que a gente tente.”

Língua não é barreira. Ela tem um inglês impecável!

Cultura sim. Olhem como os outros veem o nosso país.  

Justa Escolha

Tóquio foi escolhida no último sábado (7) a sede dos Jogos Olímpicos de 2020. O Japão portanto sediará dois dos eventos mais vistos do tokyo 2020planeta em dois anos: mundial de rugby (2019) e as Olimpíadas, no ano seguinte. Para acrescentar, o Extremo Oriente em três anos receberá 3 dos maiores e mais vistos eventos esportivos, um em cada ano: Jogos Olímpicos de 2018 em Peyongchang (Coreia do Sul) mais os dois citados antes. Duas Olimpíadas e um mundial de rugby.

Justa escolha. Não foram os protestos turcos nem o conflito na Síria que influenciaram o COI na decisão. Se fosse por isso Pequim não seria a escolhida porque faz fronteira com países em constante belicismo (Afeganistão, Paquistão e Coreia do Norte). Ou nem em Seul (1988), já que tecnicamente as duas coreias ainda estão em guerra desde 1953. Perderam Espanha e Turquia pelos recentes escândalos de doping, sobretudo com os espanhóis. E isso o princípio Olímpico não aceita. O Japão, alheio a tudo isso, passou limpo e foi escolhido.

As Olimpíadas agora voltam-se para o Extremo Oriente, berço de sociedades com ideais, princípios e valores que se encontram com aquilo que o Olimpismo prega. Vão os Olímpicos praquele lado do planeta a fim de restaurar e resgatar o espírito do esporte.

#Seedorf

A presença de Clarence Seedorf no cenário esportivo do Brasil tem sido excelente não apenas para o esporte dentro de campo, mas fora dele também. Impressiona o profissionalismo do atleta, clareza, sinceridade e objetividade nas ações e no discurso. É extremamente competitivo eseedorf1 preza pela concentração total no trabalho, quer seja dele, quer seja dos seus colegas de equipe. A reprimenda ao companheiro que reclamava com o árbitro no último jogo contra a Portuguesa de Desportos, é prova disso.

Tamanho profissionalismo enobrece o jogo e o esporte, vai contra todo o comportamento mesquinho da dissimulação, simulação e pequenez da sociedade. É o ‘fala muito’ do Tite. De falar muito e fazer pouco, da falta de atitude, da inércia e de tentar justificar o injustificável. Tudo isso reflete de maneira escrota e nojenta no nosso dia-a-dia: de jogar lixo nas ruas, da agressividade no trânsito, de levar vantagem na vida em prejuízo do próximo.

Obrigado Seedorf por estar por aqui e com pequenos gestos poder mostrar o que falta – e como podemos fazer – para o Brasil ser grande, de facto.

Financiamento Coletivo em Prol do Esporte

por Flávio Perez, da SalveSport

reebokcobjos1996A SalveSport, uma recente plataforma de financiamento coletivo 100% esportiva, ajuda a psicóloga e pesquisadora Kátia Rubio a conseguir arrecadar fundos para concluir o projeto Memórias olímpicas por atletas olímpicos brasileiros. Após 40 dias de ação, a campanha já ultrapassou a marca dos R$ 120 mil, valor mínimo da iniciativa. A enciclopédia irá retratar as conquistas dos atletas do País desde os Jogos de 1920 até 2012, além de traçar o perfil dos 1.872 atletas olímpicos que participaram do maior evento do planeta.

“Foi como uma verdadeira maratona virtual e presencial. Eram pelo menos 18 horas por dia no ar fosse de São Paulo ou de qualquer outro lugar onde estivesse fisicamente. Foram incontáveis reuniões, presenciais e virtuais, com pessoas que fui conhecendo ao longo do processo e que queriam colaborar de alguma forma. Foram muitas promessas, mas muito mais ações, para não deixar a pesquisa parar. E, quando atingimos o mínimo, foi como se estivesse entrando no estádio olímpico para dar a volta final de uma maratona. Estava cercada de muita gente, cada um em sua casa, em algum lugar com um computador ou telefone, acompanhando os momentos finais da arrecadação”,  diz Kátia Rubio, que ofereceu aos padrinhos recompensas como uma velejada com Lars Grael e meligeni_lars (1)um jogo de tênis com Fernando Meligeni.

O Brasil esteve representado em 16 das 25 edições dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, conquistando a primeira medalha olímpica em Antuérpia (1920). Até os Jogos de Londres (2012) o Brasil totalizou 109 medalhas, sendo 23 de ouro, 31 de prata e 55 de bronze, das quais apenas 14 foram ganhas em modalidades coletivas. Essa é uma indicação do quanto o esporte nacional sobrevive à custa de esforços individuais, uma vez que o processo de formação de equipes esportivas é complexo e envolve mais do que a soma de valores individuais, necessitando de tempo e a construção de vínculo entre os atletas e comissão técnica para que resultados positivos sejam alcançados.

Sobre a SalveSport – O site www.salvesport.com é uma plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) exclusiva para as modalidades esportivas. Atletas, treinadores, gestores e escritores, por exemplo, podem tornar, de maneira segura, seus projetos pessoais voltados ao universo esportivo em prática. A ação chamada também de “vaquinha pela internet” nada mais é que um patrocínio em pequenas cotas. Para participar da SalveSport, o autor precisa apenas publicar de maneira gratuita sua ideia e qualquer pessoa física ou jurídica pode colaborar com os projetos. Além da contribuição com valores pré-definidos, existe a opção de doação livre. Em todos os casos, a pessoa pode optar pela participação anônima. Cada campanha dura 40 dias, no mínimo, podendo chegar a 55 dias.

Prato Cheio

Copa das Confederações, Mundial FIFA, Jogos Olímpicos. Prato cheio para greves, reivindicações, manifestações. Foi assim com os sul-africanos no último Mundial FIFA. Foi assim em Atenas, nos Jogos Olímpicos de 2004.

O mundo está de olho no Brasil, que obviamente não quer ser mal avaliado sob o risco da diminuição do investimento externo e do turismo, em função da falta de credibilidade gerada por trabalhadores mal remunerados, serviços públicos mal prestados – muito em parte devido à desvalorização de algumas profissões, como a do professor – e custo de vida desproporcional.

Brasil colocado à prova se quer ser realmente grande.

Difícil Projeção

Ontem vi um cartaz do mundial de futebol 2014, em que mostrava a reforma do Beira-Rio (estádio do SC Internacional) para o evento. Imediatamente a foto (não é a deste post) me lembrou o coliseu, em Roma.

O coliseu estava para a Roma do Império o que os estádios de futebol representam hoje em boa parte do planeta. Isso há cerca de 2 mil anos, com as corridas de bigas, lutas e espetáculos atléticos. O futebol, representante do esporte moderno, é fenômeno muito recente, com cerca de 150 anos. Entre o que acontecia em Roma e a atualidade, tivemos como ‘esportes’: duelos de cavaleiros, caças, a própria tourada, além dos jogos com bola medievais. Atualmente temos o basquete, futebol, voleibol e o rúgbi, que substituem os jogos com bola. As artes marciais que substituem as lutas. Os carros de corrida no lugar das bigas. Eles geram muitos rendimentos, emprego e riqueza, realidade completamente distinta da de dois mil anos atrás.

Em 150, 200 anos provavelmente os espetáculos que atrairão as multidões não serão mais os mesmos. Os esportes modernos não durarão 500 anos, ou mil. Essas outras manifestações populares da Idade Média não duraram metade disso. Engana-se quem acha que essa discussão não levará a lugar nenhum. Pelo contrário, faz-nos pensar em aproveitar o agora, o rúgbi, o futebol, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, com a diferença de deixar um legado de sabedoria e humanismo para as futuras gerações.

Integração

A Associação Europeia de Futebol (UEFA) anunciou na semana passada que a Euro de 2020 não terá um país-sede, mas sim várias cidades-sede espalhadas por aquele continente. A explicação é repartir os ganhos do torneio por todo o território europeu. Sábia ideia.

uefaEventos parecidos são possíveis de ser realizados em apenas algumas regiões do planeta: Europa, Estados Unidos/Canadá, Austrália/Nova Zelândia e Golfo Pérsico. Fatores que contribuem para isso: integração regional em termos políticos, econômicos, sociais e que favorecem o deslocamento. Aos mais céticos, um voo Berlim-Lisboa leva cerca de quatro horas. Auckland-Sydney cerca de duas horas e meia.

Na América do Sul isso não seria possível. Não há integração política, econômica e social. Enquanto Colômbia, Peru e Chile caminham para um futuro próspero, Venezuela, Equador, Bolívia e, às vezes Argentina, retrocedem. O deslocamento também não é nada fácil: no nosso continente temos os Andes, a Amazônia, o altiplano, o calor tropical e o frio polar. A língua não chega a ser uma barreira. Na Europa poderia ser, mas as políticas para o turismo são excelentes. São estes os mesmos fatores que também fazem com que a decisão da Libertadores não seja jogada em um campo neutro, como a Liga dos Campeões da UEFA faz na Europa.

O rúgbi também faz isso. O mundial de 1991 teve jogos na Ilha da Irlanda, no Reino Unido e na França. O de 2007 contou com partidas, além da França, no Reino Unido.

Assim como no esporte, só mesmo a integração para que o bolo seja dividido justamente.

Treme Terra

Não fazemos ideia no Brasil de um terremoto de grandes proporções. O blogueiro aqui já presenciou um, de baixa intensidade. Isso dá uma ideia – ainda muito distante – do efeito de um sismo em uma sociedade, especificamente no esporte.

lancasterparkNão estou falando de luto, como a seleção de futebol do Peru, que jogou o Mundial FIFA 1970 com uma faixa preta na manga das camisas. Nem do impacto na economia. Aqui abre-se um parênteses. Há o impacto negativo, como na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, com a interdição do Lancaster Park depois do tremor de fevereiro de 2011. Há o impacto positivo: Chile nos anos 1950 e 1960, quando desfiou o mundo em receber a Copa do Mundo de futebol de 1962, depois do terremoto de anos antes.

Digo do efeito contrário. Da ausência do esporte. O Lancaster Park, interditado, parece um enorme cemitério. O gramado, descuidado, parece que foi revirado e supostos cadáveres, retirados à força. Nos arredores, pobreza. Não a pobreza financeira, mas a de espírito, de atmosfera. Durante o mundial de rúgbi no ano passado apenas passei uma noite em Christchurch, o suficiente para perceber a atmosfera daquela cidade, triste em função da tragédia de meses antes. Obviamente que o efeito não poderia ser outro.

Nessa situação, as coisas não vão voltar a ser como eram antes. Só o tempo mesmo para apagar tantas feridas e minimizar os estragos.

Foto: Lancaster Park, depois de interditado

Desconhecido Passado

Não sou um grande fã do esporte-motor, mas o documentário que a ESPN transmitiu hoje de madrugada chamou-me a atenção. “The Killer Years”, sobre a Fórmula 1 nos anos 60 e 70, que vitimou, dentre muitos, pilotos como Jim Clark, Lorenzo Bandini, Jochen Rindt (único campeão mundial depois de falecido) e Roger Williamson (acidente abaixo, em que seu amigo e piloto David Purley, tenta socorrê-lo):

Não havia segurança nas pistas. Não havia ambulâncias, não havia o mínimo de infra-estrutura. As provas não tinham limite de horas, mas sim de voltas (o GP de Mônaco tinha 100). Quantos pilotos, quantos jovens, quantos talentos faleceram para que houvesse hoje segurança e a integridade física dos condutores? Condutores hoje que não ganham por serem os melhores mas por terem os melhores! Os melhores carros, os maiores patrocínios.

Esses pilotos – e os sobreviventes – escreveram parte importante dentro da história do automobilismo, que não seria o mesmo atualmente se não fosse por eles.

Fizeram algo no passado para deixar um futuro melhor, assim como acontece em todos os setores da sociedade. Na indústria aeroespacial, quantos não arriscaram suas vidas a fim de promover a aviação e a conquista do espaço? Na medicina, na farmácia. Na comunicação, muitos no início faziam tudo pelo amor ao rádio e à TV, bem antes da mídia poder pagar altos salários.

Para entendermos isso, basta observarmos duas palavras: legado e herança. O respeito àqueles que se arriscaram em um ‘desconhecido’ passado para hoje vivermos melhor. Que ao menos estejamos nesse caminho e fazendo algo melhor para entregar às gerações futuras, em que farão parte nossos filhos e netos.



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