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Cidades Sul-Americanas do Futebol

Na Europa, com a exceção de Madrid e há algum tempo Amsterdã e Lisboa, os clubes campeões das Liga dos Campeões da Europa são de cidades que não são capitais de Países. Na América do Sul o processo é inverso. Alguns vão me dizer: São Paulo , Belo Horizonte , Porto Alegre não são capitais de Países. Entretanto o Brasil é exceção em função da dimensão territorial, o que aumenta a descentralização e algumas capitais estaduais serem tão ou mais importantes que a Capital Federal, Brasília.

Levando isso em linha de conta, qual portanto na América do Sul são os únicos clubes campeões da Taça Libertadores da América que são do interior do País? Colômbia, duas vezes: a primeira com o Atlético Nacional, de Medellín, em 1989 e a segunda vez com o Once Caldas, de Mañizales, em 2004. Santos é muito próxima a São Paulo (como se fosse Região Metropolitana) e não a consideraremos como sendo do “interior”, mesmo porque a cidade é litorânea. Avellaneda, na Argentina, cidade de Racing e Independiente, é parte da Grande Buenos Aires, e por isso também não a consideramos como sendo interior.

No Chile, o Colo-Colo, da capital Santiago, já foi campeão. Em Buenos Aires, são vários os campeões, com ou sem Racing e Independiente, ambos de Avellaneda. No Equador, a LDU, campeã em 2008, é da capital Quito. Os clubes montevideanos Nacional e Peñarol representam o Uruguai. Em Assunção, Paraguai, temos o Olímpia tricampeão. Todos de capitais de Países. Clubes do interior que chegaram mais próximos foram Newell’s Old Boys (Rosário/ARG), América e Deportivo (Cáli/COL) e Cobreloa (Calama/CHI). Clubes do interior, campeões da Libertadores, apenas os 2 supracitados. No entanto suas cidades não são menos importantes (Medellín e Mañizales).

Atlético Nacional de Medellín, Campeão da Libertadores em 1989 (elespectador.com)

Atlético Nacional de Medellín, Campeão da Libertadores em 1989 (elespectador.com)

Entender por que isso acontece de maneira inversa à da Europa é compreender a história desses Países. Na América do Sul, o crescimento destes Países já se deu em período da revolução industrial (aproximadamente 1850-1900), quando a cidade mais importante do País concentrava a elite política (por isso de ser a capital), econômica e com potencial de investimento em fábricas que originariam os clubes (ferrovias, companhias de gás, tecelagem). Na Europa, a revolução industrial e outros períodos de surto industrial, que originaram vários clubes de futebol deu-se além das capitais (que já abrigavam a elite política), como é o caso da Inglaterra (Manchester, Birmingham), Espanha (Barcelona, Valência), Itália (Milão e Turim) e Alemanha (Munique e Dortmund).

Uma hipótese que faz da Colômbia, mesmo sendo bem menor que o Brasil, mas com campeões da Libertadores de cidades que não são a capital, Bogotá, é a de que os Andes – onde está a grande maioria da economia colombiana – dificultam a integração nacional colombiana e com isso o favorecimento à descentralização. O resultado disso é o desenvolvimento de capitais regionais, como Cáli, Medellín, Barranquilla e Cartagena.

Com o desenvolvimento do interior dos Países da América do Sul a tendência é que este quadro mude? Não. Muitas destas novas equipes não possuem torcida e a grande maioria das pessoas levam no coração as equipes das capitais – nacionais ou regionais. Na verdade o futebol do interior corre um sério risco em função da abissal diferença com equipes mais populares, em consequência, mais competitivas.

Os Recursos Humanos (Esportivos)

Para que um elenco esportivo seja bem sucedido em termos de resultado e de convívio, são necessários inúmeros fatores. Estamos mais habituados a ver/ouvir pessoas como Bernardinho (vôlei) e Carlos Alberto Parreira (futebol) tratarem deste tema. Segue aqui uma humilde contribuição.

Um grupo esportivo é uma organização. Esportiva, claro, mas antes disso, uma organização. Cada um tem as suas funções e especificidades e busca cumpri-las. Para um bom funcionamento de uma organização, talvez o fator mais importante seja a transparência, que é dada através da comunicação. Não menos importante mas tão necessário quanto, julgo ser a pró-atividade e o espírito de equipe. De acordo com o dicionário, “equipe” é um grupo de pessoas que trabalha para o mesmo fim.

Enfim, uma delegação esportiva é obviamente uma “equipe”, mais complexa, que vai mais além daqueles que estão em campo, em competição. Eles ali em campo são resultado do trabalho de uma organização. O resultado esportivo será o resultado da organização que os jogadores terão ali em campo. Ambas devem trabalhar com transparência e espírito. Antes disso, no plano de uma delegação esportiva, o sucesso dos trabalhos se dá através deste quadro:

Uma delegação esportiva (adaptado de Woodward, 2008)

Uma delegação esportiva (adaptado de Woodward, 2008)

Liderança: é importante para a delegação. São as referências e os exemplos do grupo. Treinamento, que é fundamental para a obtenção dos resultados esportivos, para a condução do jogo que o treinador julgar necessário. Preparação física e nutrição, para a execução dos treinamentos e a realização do jogo. Psicologia, para que o treinador tenha em mãos peças saudáveis não apenas em corpo, mas em mente. Suporte médico para que o grupo esteja em condições ideais de atuar e que os jogadores estejam prontamente recuperados em tempo de atuar; análise/TI porque as estatísticas são importantes para que pontos fortes e deficiências da equipe sejam verificados e seus erros, minimizados. Por fim, a gestão de toda essa delegação, que fornece as condições e necessárias para o trabalho de todos eles.

Por palavras, parece tudo muito simples, mas não é. Tudo isso acima funciona: com transparência, comunicação e espírito de equipe.

Ceni 100

Parabéns ao guardião de metas com mais gols marcados na história do futebol, Rogério Ceni: 100 gols marcados ontem, 27 de Março, contra o Corinthians. Histórica marca, consequência de muito trabalho e dedicação.

No entanto, enquanto comentava-se em uma rádio sobre a marcação deste gol, certo repórter disse que este 100º gol, para um goleiro, estava como o milésimo gol para o Pelé. Exagero do repórter, obviamente. Muito longe disso, de 100 para mil, além de haver 900, há todo um currículo, há toda uma história. Rogério possui currículo, possui história, mas não como a de Pelé, Maradona entre outros grandes jogadores. Todavia em função da velocidade das informações e da potenciação do esporte como produto – este centésimo gol será muito comercializado -, o feito do goleiro-artilheiro ganhará o Brasil não apenas através dos vídeos, mas também de produtos relacionados ao fato.

É esta ânsia em vender os fa(c)tos esportivos que leva a equívocos, como dizer que o 100º gol de Rogério Ceni, para os goleiros, está para o 1000º gol de Pelé, para os jogadores de linha. Todos sabem que não.

Com o Gaúcho da Copa

Recentemente (anteontem) este blogueiro esteve com o Gaúcho da Copa. Aquele que vai pilchado aos jogos do Brasil, com o chapéu repleto de pins e uma réplica da Copa do Mundo nas mãos. Tem sido ele o embaixador da torcida do Brasil nas partidas da Seleção Nacional de futebol. Ele no verão tem uma barraca na praia e conversamos muito não sobre futebol, mas sobre os trabalhos para 2014.

com o Gaúcho da Copa

com o Gaúcho da Copa

Clóvis (o Gaúcho) tem muita razão ao dizer que nada tem sido feito, que um Mundial FIFA vai muito além de estádios e de jogos, ou mesmo aeroportos. A organização de eventos como estes passa também pelas rodovias, ferrovias e, fundamentalmente, educação: preparar a cidade para bem receber os visitantes do próprio estado, do resto do País e do mundo todo. Que as aulas de Educação Física nas escolas façam perceber a grandeza de megaeventos esportivos nas crianças e adolescentes. Que entendam o porquê de gostarmos tanto dos esportes a ponto de ocupar várias horas do nosso dia-a-dia. Que policiais, agentes de trânsito e profissionais que lidam diretamente com as pessoas estejam habilitados a bem servirem os consumidores da Copa do Mundo.

Um megaevento esportivo será  a imagem da cidade/estado/País para o mundo todo. Por isso a importância da boa educação também, repensar hábitos – como cuspir e urinar na rua, jogar lixo no chão e usar a buzina do carro sem qualquer motivo aparente – e rever conceitos.

Desde 2007, quando o Brasil soube que sediaria o Mundial FIFA, não houve planejamento para receber este megaevento esportivo. E sem este planejamento, não haverá execução dos projetos a 100%. Uma pena. E o Gaúcho da Copa tem muita razão nisso.

A Turbulência usa Turbante

Cancelaram o GP do Bahrein. Muitos dizem que é um sinal de alívio para a Fórmula 1, diante da instabilidade política por que passam uns Países do mundo Árabe. Tunísia, Egito, Iêmen, Bahrein inclusive, e até a Líbia passam por momentos delicados. Estão preocupados com o Bahrein! Não convém.

Oras, Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen não são tão ricos quanto o Bahrein. Não são tão pequenos quanto o Bahrein, em área e número de habitantes. Não se dão ao luxo de não cobrarem impostos da população, com faz o governo Barenita. Oras, o regime daquele País, em função destes fatores, tem muito maior poder de manipulação do que outros Países, muito mais pobres e autoritários. Sem uma prestação de serviços adequada e pobreza que se destaca, é óbvio que estarão insatisfeitos, o suficiente para causar uma revolta popular.

Enfim, a Fórmula 1 e seus eventos são alheios a isso. Movimentos populares desta natureza não vão alcançar o “circo” da F1. Este é um evento global, com interesses locais, nacionais, regionais e mundiais. O evento respeita o calendário e tradições da Sociedade local, portanto, estão por fazer tempestade em copo d’água, ao dizerem que a turbulência deste momento veste turbante, afinal pode colocar em risco pilotos, equipes e fãs. Para os habitantes destes Países, a ameaça não é externa, mas sim interna.

A turbulência não usa turbante. A turbulência é o despotismo, a indiferença e o autoritarismo.

Liozada Racing

A Liozada Racing faz a sua estreia neste domingo, na Granja Viana, em São Paulo, pelo campeonato “Os Navalhas da Olympikus”. Ontem na Shed, em uma conferência de imprensa, o CEO da Liozada Racing, Raphael “Monga” Moggioni, apresentou a equipe e houve a divulgação do carro, o “BREJA 01”, que será pilotado por Rodrigo Alonço e Virgílio Neto. Moggioni está contente: “investimos milhões. Esperamos retorno. Estamos pressionando os pilotos por resultados. O 2º lugar é inadmissível”, disse o CEO, conhecido mundialmente no automobilismo pela sua tolerância.

Rodrigo Alonço também é piloto conhecido mundialmente e suas palavras refletem bem os objetivos da equipe: “vamos tentar os 3 pontos para subir na tabela e fazer jus ao trabalho do nosso professor. A equipe está bem e o grupo está unido. Na pista somos todos homens, 11 contra 11. Esperamos fazer uma boa prova.”

Compareçam: Kartódromo Internacional da Granja Viana, domingo (20). 1ª bateria a partir das 19h30.

Reputação

Neste fim-de-semana Walter Pandiani (Osasuna) disse “poucas e boas” de Cristiano Ronaldo, do Real Madrid, ao disparar que ele devia aprender com Messi lições de humildade e bom senso, ao deixar de lado uma suposta arrogância e prepotência do jogador Português.

Que Cristiano Ronaldo é um grande jogador, não há dúvidas. Entretanto, para ser um ídolo, ele está longe disso. É a letra “R” de TOPSTAR que falta ao “gajo”. “R” de reputação, condição sine qua non para a formação e construção de um ídolo. Os outros ele tem todos (ou quase todos): espírito de equipe (?), boa conduta fora-de-campo (?), características físicas, transferência e idade. Ainda bem que por estes fatores, alguns esportistas não podem ser considerados ídolos. Afinal, as crianças – futuro da sociedade – tomam estes atletas como exemplos de vida, e de maus exemplos, o mundo já está cheio.

Ídolos mesmo, que preencham todas as letras de T.O.P.S.T.A.R. são cada vez mais raros, mas ainda existem.

Para saberem dos significados das letras de T.O.P.S.T.A.R. acessem: https://virgilioneto.wordpress.com/2008/09/21/topstar/

O Valor de 90 Minutos

Quanto valem 90 minutos para um clube? Sem dúvida que depende do clube, mas pergunto isso porque o CR Flamengo conseguiu para o jogo de estreia de Ronaldinho Gaúcho – apenas para a estreia -, um patrocínio “pontual” de R$900 mil reais.

Do parágrafo acima, algumas coisas: 1) o CR Flamengo precisa urgentemente destes recursos; 2) por outro lado, perderam uma chance para valorizarem-se; 3) o historial nos leva a pensar que alguém ganha com isso. Vamos levar em consideração os pontos 1 e 2. Não tenho nada contra os patrocínios pontuaise exclusivos para um jogo. De acordo com os planos do clube, eles precisam destes recursos de maneira urgente. Por outro lado, poderiam trabalhar com política de patrocínios em longo prazo e valorizar a marca e a camisa da instituição. Só que isso não se daria apenas dentro do campo, com resultados. É preciso também estar “limpo” de tudo o que acontece fora dele também e que é associado ao seu nome. Em resumo, é preciso credibilidade para agregar valor à marca patrocinadora. Que é um clube grande e vencedor, todos já sabemos e boa parte está cansada de saber.

Infelizmente os patrocínios pontuais vão durar por muito tempo no País, enquanto não houver planejamento em longo prazo nas organizações esportivas e empresas dispostas a fazerem esse tipo de colaboração.

Antijogo

Racismo no esporte existe, infelizmente. Os exemplos são vários. Racismo no esporte e na América do Sul? Existe, sim senhor! Escrevo um “infelizmente” elevado à 2ª, 3ª, 4ª potência. É constrangedor e decepcionante, afinal trata-se de um continente que reúne várias etnias de índios, negros e brancos.

A última aconteceu no Sul-Americano Sub20 no Peru. Diego Maurício, jogador do Brasil, foi hostilizado com sons feitos pelos torcedores e que lembravam um macaco. Ora, levando em consideração que a maior parte do público daquele jogo era peruano, quem é o maior jogador da história daquele País? Teófilo Cubillas, negro. No mínimo contraditório. Os exemplos históricos não param por aí. As imprensas argentina e uruguaia costumavam debochar do Brasil com humor negro. Alguma parte da imprensa brasileira se atualmente se refere ao Paraguai com falta de consideração.

Foram (são) índios, negros e brancos que construíram e formam este continente. Se o esporte Sul-Americano é bem sucedido, muito se deve a essa mistura de raças, como dizia Gilberto Freyre no Brasil e como é preconizado na Argentina com o estilo “criollo”. Este tipo de antijogo, no século XXI, em nossa própria casa, não.

Palavras que Valem

Um dos trabalhos de conclusão de curso dos meus alunos é sobre o “media training”, que consiste em a pessoa ser treinada e preparada para poder se comportar diante da imprensa e perante um público que o acompanhará. Deve ter cuidados com a postura, com as palavras, com o traje e com o olhar. Deve estar pronto para quaisquer perguntas e responder o suficiente para sanar a dúvida do entrevistador. Sem rodeios, sem vícios de linguagem, objetivo.

Atualmente o media training é muito comum no meio esportivo, afinal o esporte está cada vez mais profissional e movimenta muito dinheiro. Os atletas e dirigentes representam uma instituição e em função disso conferirão, através das suas condutas e das suas palavras, a imagem desta instituição. Quanto mais ela se preserva e prepara os seus profissionais para as situações de exposição pública, melhor a sua marca fica conhecida no mercado. Entretanto se o atleta dá entrevistas de brinco, chinelo e camiseta regata – como acontece em muitos casos -, a última imagem que o público terá da instituição será o de profissionalismo.

Dessa maneira percebe-se o porquê de clubes estrangeiros de futebol preferirem muito mais argentinos a brasileiros. Profissionalismo. Com raríssimas exceções (Tevez), o argentino sabe falar muito melhor que o brasileiro. É pouco comum vermos argentinos, uruguaios e paraguaios perderem-se em festas e bebidas, ao contrário dos brasileiros. Enquanto em muitos casos os demais Sul-Americanos esforçam-se a falar a língua do País local, o brasileiro tem tradutor e outros serviços, “cheio de quereres”, como diria meu amigo Luizão. Recentemente via um programa de entrevistas na Fox Sports Argentina, bem descontraído. O entrevistado no estúdio: um jovem goleiro do All Boys, da 1ª divisão local. All Boys, pessoal, All Boys! Com o merecido respeito, mas alguém que não fanático conhece os All Boys? Ora, eu não sabia distingui-lo (o goleiro) dos apresentadores, tamanha a desenvoltura do atleta. No Brasil isso é bem menos possível.

Não venham com a desculpa sobre a origem socioeconômica do atleta. Lá eles também vêm em sua maioria de condições bem humildes.

É preciso refletir sobre isso, afinal as palavras valem milhões e são capazes de construir a imagem de uma organização.

No entanto eu não queria dizer isso: media training para atletas no Brasil é indicador de subdesenvolvimento. Significa um esforço em preparar o atleta para vendê-lo a um mercado mais rico e que gerará mais rendimentos para a instituição aqui no Brasil, já que não consegue através de outras maneiras.


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