Archive for the 'Ídolos' Category



Sr Hélio

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O Brasil deve muito ao Sr Hélio Gracie, cujo centenário de nascimento acontece hoje, 1/10/2013. Graças a um trabalho na área que começou com ele, o país é visto como um celeiro de grandes atletas das artes marciais, mas, antes disso, de desportividade. Em meio a falsas e equivocadas impressões que os estrangeiros têm do Brasil – e até mesmo de nós mesmos -, o país é admirado e muito respeitado por quem no mínimo tem conhecimento de quem ele foi e o legado que ele deixou dentro e fora dos tatames.

Obrigado Sr Hélio por haver pensado muito adiante. Obrigado pelo exemplo.

Na seção ‘de Letra’, uma frase de Hélio Gracie

Museosportabilidade

Experiência. É o que um museu transmite aos frequentadores. Experiência de adentrar na história e reviver épocas. Um museu esportivo além disso, resgata os valores e a identidade de uma instituição e como ela foi sendo construída ao longo do tempo, a fim de cativar e fidelizar seguidores e simpatizantes.

O museu do FC Barcelona é o mais visitado daquela cidade, assim como o do futebol, em São Paulo. O memorial do Santos FC também. Os da União de Rugby da Nova Zelândia (NZRU), do Estádio Azteca e do futebol sul-americano, existem, possuem grande potencial, mas são pouco explorados. O esporte e as organizações esportivas fazem parte de contextos político-sócio-econômicos de uma sociedade e, associados à formação de uma identidade local, nada mais conveniente do que ganharem forma através de museus. Já dizia Marcel Mauss: ‘o futebol é um fato social total’.

Fisicamente ou não, cada apaixonado pelo esporte guarda um museu repleto de recordações. Essas recordações nos remetem a emoções positivas e dá mais magia ao ele, que se abastece de fatos dia a dia.

Veja como o Sport Lisboa e Benfica sabe bem utilizar a paixão de cada um dos seus adeptos e façam o quiz abaixo do video:

 

 

 

Sobre o Tempo

O drop de Wilkinson ao final do segundo tempo da prorrogação da final da Copa do Mundo de 2003.

O gol de Romarinho em uma La Bombonera repleta.

O gol de Gabiru pelo SC Internacional, contra um Barcelona tido como imbatível, em 2006.

Instantes que consagram ídolos. Que distinguem os herois das pessoas comuns, que correm o risco da desonra pública por algo maior. E conseguem. Essas pessoas cujas origens (social, política e econômica) são as mais desfavoráveis. A ascensão social no menor espaço de tempo e imprevisibilidade, tornando-os espelhos para uma juventude inteira. Eles provocam tensão, espelham o conflito, representam a ansiedade. A evidente meritocracia: talvez o esporte (algumas modalidades, pelo menos) seja um dos poucos ambientes em que mesmo o melhor faz parte das seleções nacionais, das equipes, ou seja, se alguém faz parte de uma elite, é porque merece.

O gol de Viola na decisão do Paulista de 1988.

O gol de Maurício, pelo Botafogo, na decisão do Carioca de 1989.

A cesta de Belov, nos centésimos de segundos finais da decisão Olímpica de 1972.

abaixo, o drop de Wilkinson, na final do Mundial de rúgbi de 2003:

Foto: a cesta de Belov na decisão do basquete nos Jogos Olímpicos de 1972

Além de Palavras

#300

Em todos os idiomas, toda palavra possui a sua origem e tem um significado. Quando a pronunciamos, no entanto, o homem é capaz de conferir a ela um significado completamente distinto. Quando se conta um fato, por exemplo. Mais ainda quando se vive este fato. Contar estes fatos, ao vivê-los, é uma arte. Processar milhares de informações que estão a disposição em um determinado momento e, no menor espaço de tempo,  transformar tudo isso em palavras, que devem ser ditas o mais rápido possível, para não perder as outras milhares de informações que vêm a seguir, é para poucos. São magos desta arte.

Comecei a admirá-los quando criança, quando ainda passava na TV Cultura, nos sábados à tarde, o programa ‘Grandes Momentos do Esporte’. Tudo bem, o futebol era mais lento, cadenciado, mas a arte de narrar, a mesma. Me encantava com as narrações do Luiz Noriega, quando depois dos gols, ele repetia: “Esporte também é Cultura” (e é isso mesmo, por isso o considero um visionário):

Mas é esta narração que consegue me deixar feliz e infeliz ao mesmo tempo:

Infeliz porque é um passado que não volta e eu não vivi nada daquilo. Porém, muito mais feliz, por que é o XV! Imaginar esses gols sem os relatos de Noriega não teriam absolutamente a mesma graça.

O narrador esportivo lida com a paixão o tempo todo e está sob constante avaliação de milhões de pessoas pelo mundo. É difícil agradar a todos, saber exatamente todas as informações, acertar todos os detalhes. Não, não se agrada a todos os ouvidos, não se sabe exatamente todas as informações e os detalhes passam desapercebidos quando ele deve prestar atenção a milhares de tantos outros detalhes. Vejam só este video, com Grant Fox, minha referência no rúgbi:

Vasculhei pelo YouTube inúmeras narrações, vários bons exemplos que podia citar aqui. Mas todos eles são muito bons! Esqueçam a equipe para quem eles puxam, esqueçam os erros (todos nós erramos), atentem-se aos fatos. Narrador ruim é aquele que não ama o que faz. E narrador bom, não é bom sozinho. Tem que haver um ótimo comentarista e uma grande equipe em campo e fora dele, responsáveis pelo infarto, ou melhor, emoção que você vai sentir em casa, no carro, onde quer que seja. Afinal, você procura o esporte para fugir da rotina, viver a tensão e o conflito entre opostos. Por isso mesmo que eles, os cronistas, são elementos do esporte. Fiquem com Jorge Perestrelo, de Portugal:

Para eles, um tiro-de-meta é muito mais que uma reposição de bola em jogo; uma falta é um crime; um escanteio contra, uma ameaça bélica; uma defesa a favor, digna da máxima condecoração nacional; um cartão amarelo ou vermelho, conspirações; um gol a favor transforma-se em orgasmo. Orgasmo público! E é o esporte talvez o único meio em que você pode demonstrar publicamente suas emoções, sem ser julgado pela sociedade.

Este texto – que por sinal é o número 300 deste blog – é dedicado a eles, no dia em que me tornei habilitado a desempenhar esta função. Estou longe de ser locutor, me especializei nisso para ajudar na minha atuação como comentarista, para, pelo menos, acompanhá-los mais de perto.

Legado à Cubana

Teófilo Stevenson (à direita)

Teófilo Stevenson (à direita)

O cubano Teófilo Stevenson foi o maior pugilista não-profissional de todos os tempos. Faleceu ontem, aos 60 anos. Só não foi tetracampeão Olímpico porque Cuba boicotou os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Das 321 lutas que disputou, venceu 301 e nunca perdeu por nocaute.

Grande atleta, sem dúvida alguma. Também grande em seus valores e princípios. Por muitas vezes tentaram levá-lo para fora de Cuba, por milhões de dólares. Não conseguiram. Leal aos seus princípios, Stevenson continuou a viver na ilha e transmitir o boxe para milhares de crianças. Ele dizia: “fora daqui eu não serei feliz”, e por lá ficou. Vários podem dizer que foi colaborador do regime de Fidel Castro, por isso da sua permanência em Cuba, mas esta é outra história. Importante é que ele foi leal aos seus ideais – algo muito difícil atualmente – e passou adiante todo o seu conhecimento em benefício da juventude, em benefício de seu País.

Em suma, Teófilo Stevenson deixou um legado. Dinheiro, fama, imprensa, patrocinadores, seduzem. Vejam bem, não há nada de errado em aceitar uma vida assim, desde que os valores do esporte se mantenham. Entretanto, na maioria das vezes, isso não acontece. Mesmo assim, Stevenson não se deixou levar. Exemplo de compromisso com a sociedade.

Ídolos

Algumas modalidades no Brasil recentemente têm enfrentado crises em termos de resultados expressivos e números de praticantes. Resultados também constituem fator que contribui para o número de praticantes. No entanto, estes resultados são gerados por expoentes em cada modalidade, em outras palavras, os ídolos.

Tomamos dois exemplos no Brasil: o basquetebol e o pugilismo. As grandes figuras do basquete nacional (masculino) atuam fora do país e possuem um historial recente de desentendimentos com Comissão Técnica e Corpo Diretivo da Seleção Brasileira, ou seja, pouco ou nada atuaram sob as cores nacionais, elemento necessário para a identificação torcedor/ídolo. O boxe atravessa um processo parecido. O último foi Popó Freitas, há alguns anos. Ao mesmo tempo que Popó se retirava dos ringues, os brasileiros se destacavam em outros esportes de luta, como o UFC, enquanto que não houve “substituição” de Popó. Com isso, parte do público do boxe passava a acompanhar essas outras lutas, enquanto que – com um produto bem trabalhado – conquistava outro em potencial.

Éder Jofre, referência do boxe nacional (idadecerta.com.br)

Éder Jofre, referência do boxe nacional (idadecerta.com.br)

O contrário aconteceu com o tênis e com a vela. Guga e Meligeni são claros exemplos de como os ídolos influenciam na repercussão da modalidade e no crescimento do número de praticantes. A vela também, com os irmãos Grael, com Robert Scheidt, Isabella Swan e Marcelo Ferreira. Obviamente velejadores não são vistos ao Brasil aos milhares, tampouco está perto de ser um esporte popular, porém, apesar de restrito, possui grande presença na mídia – em função de ter sido o esporte que mais deu medalhas de ouro ao Brasil nos Jogos Olímpicos – e progressivo aumento no número de atletas.

O mesmo caminho quer seguir – e está seguindo – o Rugby: criar ídolos e referências para gerações futuras, ao incentivá-los a serem como eles ou mesmo superá-los.

Ary Graça, hoje presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, dizia há 40 anos que, para o voleibol crescer, era preciso criar referências. E assim foi, com a “Geração de Prata”, vice-campeã do Mundial de 1982 e das Olimpíadas de 1984; depois vieram as medalhas de ouro e os campeonatos mundiais, juvenis e adultos. Exemplo a ser seguido.

Questão de Produto

Hoje (segunda-feira, 25 de Abril) FC Barcelona e Real Madrid CF foram tema da chamada de abertura (as manchetes) do Jornal Nacional, da Rede Globo. Tratava-se da semi-final da Liga dos Campeões da UEFA. Tudo bem o esporte – neste caso o futebol – fazer parte das manchetes, mas nada bem serem dois clubes da Espanha, cuja ligação máxima com o Brasil é o fato de terem alguns jogadores brasileiros no elenco. Isso não é bom para o futebol brasileiro, não é bom para o futebol sul-americano.

Tenho dito muito sobre este tema. Se isso acontece, isso é dado em função da precariedade da gestão do futebol brasileiro, não em relação aos resultados, mas sim em transformá-lo em produto. Muitos jogos da Libertadores terminam em batalhas campais. Avaí e Botafogo, pela Copa do Brasil, também terminou de maneira nada amistosa. Jogadores que xingam os árbitros e jogadores que se ofendem entre si à frente de milhares de pessoas, são alguns dos exemplos.

Na contramão dessa tendência, a Liga dos Campeões da UEFA – cuja semi-final foi manchete do Jornal Nacional – e a Liga Inglesa: hoje no jogo entre Blackburn e Manchester City, o juiz se dirigia unicamente ao capitão da equipe local, que aceitava as explicações. Por uns instantes pensei se não estava vendo um jogo de Rugby.

Em longo prazo a consequência disso é a perda de torcedores, baixo consumo do produto futebol local, estádios vazios com o tempo e desinteresse da imprensa do País, que cada vez mais vai se interessar por campeonatos estrangeiros. Há quem diga que o motivo principal para isso é a qualidade dos jogadores. Oras, o Brasil é muito “bem servido” de atletas e recursos humanos para um espetáculo não faltam. É pena que o produto de fora seja mais atraente.

Reputação

Neste fim-de-semana Walter Pandiani (Osasuna) disse “poucas e boas” de Cristiano Ronaldo, do Real Madrid, ao disparar que ele devia aprender com Messi lições de humildade e bom senso, ao deixar de lado uma suposta arrogância e prepotência do jogador Português.

Que Cristiano Ronaldo é um grande jogador, não há dúvidas. Entretanto, para ser um ídolo, ele está longe disso. É a letra “R” de TOPSTAR que falta ao “gajo”. “R” de reputação, condição sine qua non para a formação e construção de um ídolo. Os outros ele tem todos (ou quase todos): espírito de equipe (?), boa conduta fora-de-campo (?), características físicas, transferência e idade. Ainda bem que por estes fatores, alguns esportistas não podem ser considerados ídolos. Afinal, as crianças – futuro da sociedade – tomam estes atletas como exemplos de vida, e de maus exemplos, o mundo já está cheio.

Ídolos mesmo, que preencham todas as letras de T.O.P.S.T.A.R. são cada vez mais raros, mas ainda existem.

Para saberem dos significados das letras de T.O.P.S.T.A.R. acessem: https://virgilioneto.wordpress.com/2008/09/21/topstar/

T.P.S.T.A.

Estimados pacientes, este texto é uma continuação do que escrevi em 21-09-2008, com o título “T.O.P.S.T.A.R.”.

Há acadêmicos que dizem que um atleta, para ser um topstar deve reunir características que tenham as iniciais com “T” (team), “O” (off-field life), “P” (physical characteristics), “S” (success), “T” (transferability), “A” (age) e “R” (reputation). O siginificado de cada uma dessas características está naquele texto.

Notem que no título deste texto que escrevo, faltam as letras “O” (off-field life) e “R” (reputation). Neste momento, é que falta para o golfista Tiger Woods voltar a ser um topstar. Se ele quiser ser, claro! O acidente de carro, o adultério e o consumo de entorpecentes tiraram essas duas letras dele, os patrocínios e alguns milhões de dólares.

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O golfista estadunidese Tiger Woods

Rein, Kotler e Shields (2008) dizem que a perda de patrocínios, tida como uma punição, pode ser eficaz quando um “garoto-propaganda” de produtos famosos se envolve em situações questionáveis. Talvez por isso ele considere o que ocorreu. Segundo os mesmos autores, nada pode ser mais prejudicial para a imagem do atleta que a divulgação pública de semelhantes transgressões.

Já aconteceu com George Best, com Ronaldo Nazário, com Maradona e Schumacher. Uns souberam dar a volta por cima. Outros não. Resta saber como Tiger vai lidar com isso tudo.

T.O.P.S.T.A.R.

Deco, Kaká, Riquelme, Kun Agüero, Beckham, Ronaldinho, Drogba, Cristiano Ronaldo, Torres, Schweinsteiger, Van Nistelrooy. Tantos nomes, lendas do futebol mundial. Jogam nas melhores equipes do mundo, são patrocinados pelas maiores marcas, mas nem todos são grandes estrelas. Como assim? Todos estes jogadores, mais os outros vários sempre evidentes na mídia não são “topstars”? Não. Vejamos ao analisar letra a letra (em inglês) o que é preciso para um jogador ser um “topstar”!

T.O.P.S.T.A.R.

De acordo com estudiosos da gestão e comunicação no esporte, T: team. O: off-field life. P: physical characteristics. S: success. T: transferability. A: age. R: reputation.

Um atleta, para ser uma grande estrela precisa ter ao seu lado, uma grande equipe ou um retrospecto na carreira de grandes equipes. Uma vida de celebridade, conciliada com a vida familiar. Cortes de cabelo modernos e tatuagens chamam a atenção dos mais jovens, mas mais das mais jovens. Sucesso traduz-se em palmarés, em títulos conquistados. A idade reflete em quanto a marca do jogador ainda pode ser trabalhada (os mais jovens são mais próximos do público da mesma idade, com poder de consumo). Reputação entende-se pelo jogo limpo e relacionamento com o público.

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Cristiano Ronaldo (Fonte: uefa.com)

Vejamos três casos: David Beckham, Cristiano Ronaldo e Kaká. Muitos diriam que os 3 são “topstars”, que todos encaixam-se nas categorias acima citadas. Não. Falta para Kaká o corte de cabelo e quiçá as tatuagens (transferência) para fazer dele um “topstar”, algo que o aproxime do público ou de um nicho mais específico de torcedores.

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Beckham com o filho em jogo dos LA Lakers (Fonte: France Presse)

Beckham, por sua vez, preenche todos estes requisitos. O casamento com Victoria, ex-Spice Girl, o nascimento dos filhos e a manutenção deste casamento valorizou ainda mais a sua “marca”. Vê-se um Beckham zeloso com os filhos e a mulher em público. O seu estilo de penteado mais as várias tatuagens pelo corpo contribuem para a imagem dele, assim como o relacionamento com os fãs, os idiomas que ele fala e pelo esforço que fez em falar castelhano quando jogou em Madri. Características que contam, que cativam, além de ainda ser jovem e possuir um peculiar estilo de jogo combinado com um jogo limpo e disciplinado.

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Kaká: popular, mas não “topstar” (Fonte: acmilan.com)

É polêmico, muitos não vão concordar com esses pontos, no entanto em geral se aplicam. Ayrton Senna, Niki Lauda, Kelly Slater, Teofilo Stevenson, Muhammad Ali, Mark Spitz e Magic Johnson são exemplos em outras modalidades. Dos que foram citados acima, Cristiano Ronaldo e Beckham certamente preenchem os requisitos de T.O.P.S.T.A.R..