Archive for the 'Futebol' Category



O Futebol Explica Santa Catarina

Marcel Mauss em suas obras citava o “fato social total”. Norbert Elias e Eric Dunning escreveram que o esporte é um fato social total, porque dele entendemos a economia, a geografia, dentre outros assuntos. O futebol é uma modalidade esportiva, logo, um fato social total. E pelo futebol entendemos a organização do estado de Santa Catarina.

Santa Catarina tem cerca de 95 mil km² e quase 7 milhões de habitantes. Portugal tem quase a mesma área, mas população de 11 milhões. O Paraguai tem o mesmo número de habitantes, mas 4 vezes maior de tamanho. A capital catarinense, antiga Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, não é a maior cidade e nem a economicamente mais importante.

Santa Catarina

Santa Catarina

Ao tomar o futebol para entender Santa Catarina, consideramos o cenário atual, com 3 equipes desse estado na primeira divisão do nacional de futebol: Criciúma EC (da cidade homônima), AF Chapecoense (Chapecó) e Figueirense FC (Florianópolis); 1 da segunda divisão porém recém-promovido Joinville EC (Joinville) e o outro clube de Floripa, o Avaí – caso terminasse hoje a segunda divisão ele estaria na Série A. Cinco times! Nessa linha de pensamento, estados economicamente mais representativos como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais teriam respectivamente 5 (São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos e Ponte Preta), 3 (Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama), 2 (Grêmio e Internacional) e 2 (Atlético e Cruzeiro) clubes!

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Possui Santa Catarina uma economia bastante diversificada e que se relaciona com a geografia de cada parte daquele estado. O extremo-oeste, cuja cidade mais importante é Chapecó, se baseia na agropecuária (Associação Chapecoense de Futebol). Joinville, no norte, pela indústria pesada (Joinville Esporte Clube). Florianópolis, pelos serviços (Figueirense Futebol Clube e Avaí Futebol Clube). O sul, representado pelo maior município, Criciúma, pela indústria de base (Criciúma Esporte Clube). Cada uma dessas regiões investe à sua maneira no esporte, em comum o futebol de alta competição. O resultado tem sido o êxito de vários clubes daquele estado, cuja representatividade sócio-econômica no cenário nacional está longe de ser protagonista.

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

Privilegia-se Santa Catarina por haver uma economia bastante diversificada e um vínculo relativamente pequeno do interior com a capital, em comparação com os outros estados da federação. Ademais, a capital não é o principal centro urbano. Nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, os adeptos do futebol torcem para clubes da capital e o investimento em alta competição tem se dado em outras modalidades, como o basquete, o vôlei e o futsal. Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, infelizmente não é longe de Porto Alegre (125km), o que facilita o deslocamento de torcedores a fim de ver jogos que representem o estado deles em competições Brasil afora, em detrimento da dupla CaJu (locais SER Caxias e Juventude EC). Isso não acontece com o migrante Gaúcho do oeste catarinense, que pode ver in loco a Chapecoense, potencializando a ligação identitária com a equipe.

O título deste blog é “O Esporte e o Mundo” e Santa Catarina faz parte dele. Mesmo pequeno de tamanho e em população, faz-se grande pelo exemplo dentro do universo desportivo brasileiro.

A África do Sul, o Futebol e o pós-Apartheid

Maior economia da África, a República da África do Sul está fora do Mundial FIFA 2014. O estereótipo prevalece: um país com  população de maioria negra (em que os leigos dizem que preferem mais o futebol) não poderia ficar de fora.

Ora, os sul-africanos foram os anfitriões do último evento, mas o futebol por lá não dá grandes avanços. Não é a modalidade preferida deles. Lembro-me que quando lá estive, desembarquei no aeroporto de Joanesburgo (O. R. Tambo) durante um jogo. O aeroporto praticamente ‘parado’ com os olhos na TV. Não era futebol. Era jogo do antigo “Tri-Nations”, entre a Nova Zelândia e os Springboks.

Fish e Tovey

Fish e Tovey

Há mais negros hoje no rugby sul-africano de alto-rendimento do que brancos no futebol. E havia mais antes. Exemplos não faltam: Nos anos 1990, os dois craques dos Bafana-Bafana (montagem acima) eram brancos: Mark Fish e Neil Tovey (capitão da equipe campeã da Copa Africana de Nações de 1996). Hoje, as principais estrelas dos Springboks são negras: Cecil Afrika, Bryan Habana, por não falar em Tendai Mtawarira (montagem abaixo).

Afrika e Mtawarira

Afrika e Mtawarira

Uma equipe nacional multicultural representa muito – mas muito – mais os habitantes daquele país do que uma equipe apenas de brancos (como era a seleção de rugby/Springboks durante o Apartheid) ou de negros (como é a do futebol de hoje/Bafana-Bafana, pós-Apartheid).

Ademais, tudo isso teve o dedo de Mandela. Soube ele em 1995 trabalhar com o rugby ao transferir para a equipe nacional a representação da “Rainbow Nation” que ele propunha quando da sua eleição à presidência, em 1994 e, com isso, conferir ideia de nacionalidade, pertencimento e, consequentemente, integridade territorial, apesar de apenas Chester Williams ser o único não-branco da equipe. A vitória dos Springboks naquele mundial de rugby de 95 simbolicamente era a vitória do novo país, do sucesso de uma sociedade multiétnica e multicultural.

Não me surpreende o futebol da principal economia africana estar fora do Mundial. O esporte preferido deles, além de ser a manifestação desportiva do Estado-Nação da África do Sul – assim como falei do Brasil no texto anterior – é, sem dúvida alguma, o rugby.

O que a Copa do Mundo FIFA deixou de legado para o futebol da África do Sul? Até agora nada que se possa perceber. Talvez tenha influenciado geração cujos resultados serão apenas colhidos em quinze, vinte anos.

 

Populices

O São Paulo colocou parte bilhetes para os  jogos em casa, de hoje até a rodada final do Campeonato Brasileiro, a menos de dez reais. Os mais caros também abaixaram bastante. O clube tem a quinta pior assistência média e corre o risco de serem relegados a um escalão inferior do futebol nacional. Vive uma turbulência nos bastidores. Precisam de renda imediata, público e popularidade para os principais gestores da instituição.

ditadores

Medidas que lembram as dos grandes populistas, como Fidel Castro (Cuba), Kim Jong-Un (Coreia do Norte) e Hugo Chávez (Venezuela), que em meio a desmandos e ingerência, tomam(ram) decisões para conquistar a simpatia do povo. Pode-se estender isso ao atual presidente do clube de futebol, o 4º da montagem acima.

Como disse um amigo há uns meses, o São Paulo nunca se pareceu tanto com o Corinthians. E o Corinthians nunca se pareceu tanto com o São Paulo.

Produto Bem Alemão

#350

bundesliga2Sem abusos ou absurdos. É o melhor produto esportivo alemão e, como se sabe, cumpre com os requisitos de todos os produtos que vêm de lá: qualidade, excelência e harmonia. Esta última característica é a que mais dita o crescimento da liga de futebol local, a ‘Bundesliga’ (Liga Nacional).

O futebol alemão é transmitido no Brasil desde 1992, mas em função de políticas fiscais e bundesligadesportivas rigorosas, que dão preferência ao atleta, à associação e ao torcedor (os pilares do esporte), o seu crescimento foi devagar, mas constante. Hoje é um dos torneios mais interessantes, que combinam desempenho, espetáculo e competitividade, acessível a todos os tipos de público. É esta a harmonia a que me referi no parágrafo anterior. Diferentemente das outras ligas que existem pela Europa, como a Inglesa, Espanhola, Italiana ou Portuguesa (todas com poucos clubes de ponta). Doa a quem doer, produtos semelhantes só o Campeonato Brasileiro, o Argentino e o dos Estados Unidos (MLS).

A Bundesliga tem conquistado vários mercados e no Brasil cresce bastante. Logo terão que traduzir seu portal da internet para o Brasileiro. Como se vê na foto reproduzida, está disponível nos idiomas inglês, polonês e japonês. Vale a pena conferir, é um torneio muito bom, dentro e fora de campo. Começa neste sábado (10).

 

Nova York, Cosmo

do grego: Kosmos/σύμπαν, “universo”

MetlifeStadium_V2_460x285Nova York é uma cidade que é um universo nela mesma. Para os especialistas, é uma metrópole ‘Alfa’ e, para a opinião pública, capital do mundo. Recebe mais turistas que muitos países, assim como seu PIB que deve ser maior em comparação com tantos outros. Falar em Nova York, é falar no superlativo.

Há alguns dias a histórica franquia novaiorquina de futebol, o NY Cosmos, anunciou a equipe para disputa na Liga de Futebol da América do Norte (NASL -North American Soccer League). Sobressai o fato de eles não disputarem a principal liga do país, a MLS (Major League Soccer). Obviamente, ganhariam a MLS e a franquia com a participação do Cosmos. Uma, por receber instituição que possui um vínculo muito grande com a cidade, e que construiu uma marca com base em grandes jogadores nos anos 1970, como Pelé. Em troca, competiria em um torneio bem nycosmos1981New-York-Post-Battle-Of-New-York-Giants-Jetsdisputado e com outras grandes equipes que projetaram mundialmente o futebol norte-americano nos últimos 17 anos.

Mas o post não trata disso. Bom. Qual a concorrência do Cosmos? Além de adversários diretos, do mesmo esporte, da mesma liga de futebol, concorre também com uma cidade desportiva. É conhecida como “a capital do beisebol”. Nas grandes ligas (MLB) há duas equipes: Yankees e Mets. No futebol americano (NFL), os Giants e os Jets. No hóquei-no-gelo, os Rangers e os Islanders. Na NBA, os Knicks e os Nets, de Brooklyn. No futebol (soccer/MLS), os Red Bulls, o New York City FC e, agora, os NY Cosmos, que concorrem portanto contra todos eles, em busca de mercado consumidor dos seus produtos.

Vale-se a franquia de todo histórico – vitorioso e identitário – que possui. A cidade oferece um enorme mercado de diversos gostos e costumes, com alto poder de consumo. A mesma dinâmica de negócios no esporte não acontece em outros lugares do mundo como em Nova York. Por isso ela é um cosmo a parte.

Liberdade que, Embora Tarde

Há dez anos o magnata russo Roman Abramovich comprava o Chelsea FC e potencializava a hiperinflação no futebol. Altos salários, gastos sem medida, especulações, valores que caracterizam a configuração atual de uma – pequena – parte do futebol europeu. Abramovich abriu caminho para multimilionários tailandeses, indianos e árabes fazerem o mesmo, na Itália, na Espanha e na França.

A busca por resultados, portanto, ficou cada vez mais cara. Ao fazer a equipe, a diretoria do Clube Atlético Mineiro não mediu esforços e não economizou nos reforços. Confirma o que o seu presidente, Alexandre Kalil, diz sobre o marketing no futebol (caso queiram ver cliquem aqui).

Vale tudo isso? A que custo? Ao da liberdade. Conquistar uma Libertadores – com o maior rival tendo duas -, estar em evidência no cenário esportivo nacional e sair da sombra do maior rival nas últimas décadas. Para muitos, isso não tem preço. No entanto a futura retenção de gastos para o pagamento de dívidas pode ser drástica e triste. Mas essa já é outra história. Liberdade, antes tarde do que nunca.

Liberdade que, Embora Tarde – Em Latim a inscrição ‘Libertas Quae Sera Tamen’, da bandeira do estado de Minas Gerais

All Americans

É possível que em 2015 a Bridgestone Libertadores conte com equipes estadunidenses e canadenses, da MLS (Major League Soccer). CONCACAF (Confederação de Futebol das Américas do Norte, Central e do Caribe) e a CONMEBOL (Confederação Meridional de Futebol / Confederação Sul-Americana de Futebol) negociam.

Ganham as equipes latino-americanas e as televisões em mercado consumidor e poder de consumo. Ganham as equipes estadunidenses em competitividade e intercâmbio, fora a internacionalização da liga deles. Nós aqui no Brasil podemos acompanhar a MLS. O contrário não acontece em um canal de lá.

Acima de tudo ganha o torneio, com o know-how norte-americano, necessário para competir com uma liga semelhante que é a europeia ‘Liga dos Campeões’. Afinal, as crianças sul-americanas começam a torcer para Barcelona ou Borussia Moenchengladbach (sem sequer saberem pronunciar esse nome) e isso não é bom. Significa menor mercado consumidor.

Pontos a serem observados: logística e fuso horário, que interferem no desempenho do atleta e na audiência da TV. A caminho de uma Bridgestone Libertadores…das Américas!

Milionário Narcobol

O Millonarios, de Bogotá, na Colômbia, pode perder 2 títulos nacionais (1987 e 1988) se a Justiça Colombiana comprovar que o narcotráfico financiou o clube nestas conquistas.

À época, o futebol daquele país era sustentado pelos grandes carteis: os irmãos Rodriguez Orijuela mantinham o América de Cáli, enquanto que Pablo Escobar, o Atlético Nacional, de Medellín, campeão da Libertadores de 1989. Muito do sucesso do futebol colombiano do fim dos anos 80 e início da década de 1990 deu-se devido a influência dos narcotraficantes.

Quando o cerco começou a apertar, a partir do assassinato do jogador Andrés Escobar (fez o gol contra no jogo vs os EUA no Mundial de 1994), a ‘torneira’ fechou e o futebol colombiano entrou em crise. Classificou-se em 1998 para a Copa na França, ocasião em que fez péssima campanha. Depois, apenas em 2004 um resultado expressivo, com o título da Libertadores conquistado pelo Once Caldas, o 2º do futebol ‘cafetero’ no torneio.

Abaixo trecho do documentário da ESPN sobre o envolvimento do narcotráfico com o futebol colombiano:

Sem Fim

A morte de dois torcedores em decorrência das brigas entre torcidas em São Paulo no último fim-de-semana trouxe à tona novamente a discussão sobre a atuação das torcidas organizadas, a violência e da atuação do poder público.

Dizem que a polícia devia fazer isso ou aquilo e que o Governo devia ter atuado de uma determinada maneira, com o objetivo de eliminar esse tipo de violência no esporte, especificamente o futebol. Àqueles que acreditam nisso, lamento dizer: essa violência não vai terminar. Continuará por existir. Se alguns torcedores forem conduzidos à clandestinidade, isso pode ser pior: grupos de torcedores poderão, com o tempo, a cada dia parecerem-se mais com seitas, estabelecendo-lhes a condição de uma quadrilha e que, em um caso extremo, a constituição de um ‘estado paralelo’.

Dentro dos estádios a violência é sim capaz de ser reduzida. Novas políticas de aquisição de ingressos para os jogos – como, por exemplo, dar prioridade aos sócios ou aumentar o preço dos bilhetes – e atuação policial preventiva podem preservar o esporte. Imaginar que as brigas de torcedores, longe dos recintos de jogos, pode terminar, é inocência. É portanto preciso fazer com que estes enfrentamentos não envolvam inocentes. Para isso sim, é preciso da intervenção policial.

Série do Discovery, “Football Factories”, sobre as torcidas na Sérvia e na Croácia

É ruim pensar assim, mas necessário para encarar esse problema da violência em decorrência do esporte, de frente, para preservar o torcedor comum, aquele que realmente consome o esporte, sobretudo o futebol.

 

Lado B

“Quando se vence, dá-se mais mérito ao talento, mas não se olha para a organização. Quando se perde, colocam culpa na falta de organização, mas não na falta de talento, e sempre será assim”. Esta frase é de Ricardo Teixeira, ex-Presidente da Confederação Brasileira de Futebol, um dos cinco nomes mais falados do Brasil, que ocupava um dos cargos mais importantes do País, como presidente do organismo máximo da modalidade mais popular da nação e do planeta. Lidava aproximadamente com 200 milhões de apaixonados.

Sob denúncias de tráfico de influência, corrupção dentre outros escândalos, Ricardo Teixeira renunciou ontem à Presidência da CBF. Não falaremos aqui sobre estes temas, para isso já basta toda a imprensa. Ademais, é uma entidade privada, sem a necessidade de levar ao público a sua prestação de contas. Entretanto, falamos sobre o trabalho dele com a Seleção Brasileira de futebol, um dos produtos da CBF.

E realmente um produto. Na administração dele, o futebol brasileiro tornou-se definitivamente um produto e ganhou corpos do mundo inteiro que vestem a camisa do Brasil, quer seja em um Mundial de futebol, em encontro com amigos ou em uma balada. Obviamente, com contratos de patrocínio, o Brasil conseguiu uma maior projeção mundial. Em função disso, não convém mais fazer jogos no País: o estrangeiro é tão fanático quanto o brasileiro pela Seleção, menos contestador (o que sugere um ambiente menos hostil) e está disposto a pagar muito mais caro pelo ingresso do que um brasileiro comum.

Recebeu uma instituição falida em 1989 e a transfere financeiramente bem saudável. De títulos, só falta a medalha de ouro Olímpica. Seleções adulta e de base, com todo o suporte e infra-estrutura necessários para estarem nos lugares mais altos das competições. A CBF é sim exemplo de administração esportiva em como ela reverte os seus recursos em benefícios para atletas (em serviço da CBF) e funcionários, haja vista a antiga Granja Comary, a nova sede da instituição na Barra da Tijuca e o novo centro de alto-rendimento, no Rio de Janeiro.

Realmente quando se ganha, só se vê o talento dos jogadores, porque é só isso que é mostrado pela TV ou visto no estádio. Não se vê a organização/trabalho que faz com que o jogador seja colocado em campo, o ‘Lado B’. Realmente quando se perde, colocam culpa numa suposta falta de organização e não na ausência do talento. Para a ausência do talento, há a desculpa de haver ‘altos e baixos’