Archive for the 'Futebol' Category



Era uma vez em La Paz

Há alguns dias lembrei-me da Copa do Mundo FIFA 1994 e da sua fase de apuramento. Consequentemente não dá pra se esquecer da seleção boliviana daquela época. Era uma grande equipe: Carlos Trucco, Baldivieso, Erwin Sanchez, Etcheverry marcaram toda uma geração, como a minha.

A Bolívia não é conhecida pela excelência no esporte. Os recursos financeiros são escassos. O baixo IDH reflete nos recursos humanos que o país possui à disposição. A economia e o esporte boliviano são muito prejudicados pela dificuldade de acesso entre as diferentes regiões do país. O altiplano limita muito, tanto para quem é das terras baixas quanto para quem é de lá mesmo. Ademais, a falta de saída ao mar dificulta ainda mais o escoamento dos produtos com a finalidade de serem exportados. Tudo isso, somado aos diversos desafios econômicos e sociais, deixam a prática esportiva em segundo plano, com raríssimas exceções, como o piloto de ralis Jorge Salvatierra; o executivo da IBM internacional, Jorge Quiroga; a atriz radicada no México, Ximena Herrera; o empresário Marcelo Claure, CEO da Sprint (telecomunicações); e as seleções de futebol de 1963 (campeã da Copa América) e de 1993, que se classificou ao mundial de 1994, nos EUA.

No ano passado o Bolívar (equipe de La Paz, uma das capitais do país, a outra é Sucre) foi semifinalista da Libertadores. Beirou o protagonismo. Recentemente Evo Morales tem adotado uma postura distante da Venezuela e de Cuba, mais próximo das grandes economias e isso tem dado um novo rumo para o PIB nacional. Tomara que continue. Pelo bem do esporte, do jogo e da América do Sul, queremos – de volta – ver uma seleção boliviana como a da foto acima. Inesquecível.

O Futebol Explica Santa Catarina

Marcel Mauss em suas obras citava o “fato social total”. Norbert Elias e Eric Dunning escreveram que o esporte é um fato social total, porque dele entendemos a economia, a geografia, dentre outros assuntos. O futebol é uma modalidade esportiva, logo, um fato social total. E pelo futebol entendemos a organização do estado de Santa Catarina.

Santa Catarina tem cerca de 95 mil km² e quase 7 milhões de habitantes. Portugal tem quase a mesma área, mas população de 11 milhões. O Paraguai tem o mesmo número de habitantes, mas 4 vezes maior de tamanho. A capital catarinense, antiga Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis, não é a maior cidade e nem a economicamente mais importante.

Santa Catarina

Santa Catarina

Ao tomar o futebol para entender Santa Catarina, consideramos o cenário atual, com 3 equipes desse estado na primeira divisão do nacional de futebol: Criciúma EC (da cidade homônima), AF Chapecoense (Chapecó) e Figueirense FC (Florianópolis); 1 da segunda divisão porém recém-promovido Joinville EC (Joinville) e o outro clube de Floripa, o Avaí – caso terminasse hoje a segunda divisão ele estaria na Série A. Cinco times! Nessa linha de pensamento, estados economicamente mais representativos como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais teriam respectivamente 5 (São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos e Ponte Preta), 3 (Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama), 2 (Grêmio e Internacional) e 2 (Atlético e Cruzeiro) clubes!

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Lance de Criciúma EC x AF Chapecoense

Possui Santa Catarina uma economia bastante diversificada e que se relaciona com a geografia de cada parte daquele estado. O extremo-oeste, cuja cidade mais importante é Chapecó, se baseia na agropecuária (Associação Chapecoense de Futebol). Joinville, no norte, pela indústria pesada (Joinville Esporte Clube). Florianópolis, pelos serviços (Figueirense Futebol Clube e Avaí Futebol Clube). O sul, representado pelo maior município, Criciúma, pela indústria de base (Criciúma Esporte Clube). Cada uma dessas regiões investe à sua maneira no esporte, em comum o futebol de alta competição. O resultado tem sido o êxito de vários clubes daquele estado, cuja representatividade sócio-econômica no cenário nacional está longe de ser protagonista.

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

O Índio (símbolo da Chape alusivo aos habitantes nativos da região) a matear e o Tigre (símbolo do Criciúma)

Privilegia-se Santa Catarina por haver uma economia bastante diversificada e um vínculo relativamente pequeno do interior com a capital, em comparação com os outros estados da federação. Ademais, a capital não é o principal centro urbano. Nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, os adeptos do futebol torcem para clubes da capital e o investimento em alta competição tem se dado em outras modalidades, como o basquete, o vôlei e o futsal. Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, infelizmente não é longe de Porto Alegre (125km), o que facilita o deslocamento de torcedores a fim de ver jogos que representem o estado deles em competições Brasil afora, em detrimento da dupla CaJu (locais SER Caxias e Juventude EC). Isso não acontece com o migrante Gaúcho do oeste catarinense, que pode ver in loco a Chapecoense, potencializando a ligação identitária com a equipe.

O título deste blog é “O Esporte e o Mundo” e Santa Catarina faz parte dele. Mesmo pequeno de tamanho e em população, faz-se grande pelo exemplo dentro do universo desportivo brasileiro.

A África do Sul, o Futebol e o pós-Apartheid

Maior economia da África, a República da África do Sul está fora do Mundial FIFA 2014. O estereótipo prevalece: um país com  população de maioria negra (em que os leigos dizem que preferem mais o futebol) não poderia ficar de fora.

Ora, os sul-africanos foram os anfitriões do último evento, mas o futebol por lá não dá grandes avanços. Não é a modalidade preferida deles. Lembro-me que quando lá estive, desembarquei no aeroporto de Joanesburgo (O. R. Tambo) durante um jogo. O aeroporto praticamente ‘parado’ com os olhos na TV. Não era futebol. Era jogo do antigo “Tri-Nations”, entre a Nova Zelândia e os Springboks.

Fish e Tovey

Fish e Tovey

Há mais negros hoje no rugby sul-africano de alto-rendimento do que brancos no futebol. E havia mais antes. Exemplos não faltam: Nos anos 1990, os dois craques dos Bafana-Bafana (montagem acima) eram brancos: Mark Fish e Neil Tovey (capitão da equipe campeã da Copa Africana de Nações de 1996). Hoje, as principais estrelas dos Springboks são negras: Cecil Afrika, Bryan Habana, por não falar em Tendai Mtawarira (montagem abaixo).

Afrika e Mtawarira

Afrika e Mtawarira

Uma equipe nacional multicultural representa muito – mas muito – mais os habitantes daquele país do que uma equipe apenas de brancos (como era a seleção de rugby/Springboks durante o Apartheid) ou de negros (como é a do futebol de hoje/Bafana-Bafana, pós-Apartheid).

Ademais, tudo isso teve o dedo de Mandela. Soube ele em 1995 trabalhar com o rugby ao transferir para a equipe nacional a representação da “Rainbow Nation” que ele propunha quando da sua eleição à presidência, em 1994 e, com isso, conferir ideia de nacionalidade, pertencimento e, consequentemente, integridade territorial, apesar de apenas Chester Williams ser o único não-branco da equipe. A vitória dos Springboks naquele mundial de rugby de 95 simbolicamente era a vitória do novo país, do sucesso de uma sociedade multiétnica e multicultural.

Não me surpreende o futebol da principal economia africana estar fora do Mundial. O esporte preferido deles, além de ser a manifestação desportiva do Estado-Nação da África do Sul – assim como falei do Brasil no texto anterior – é, sem dúvida alguma, o rugby.

O que a Copa do Mundo FIFA deixou de legado para o futebol da África do Sul? Até agora nada que se possa perceber. Talvez tenha influenciado geração cujos resultados serão apenas colhidos em quinze, vinte anos.

 

Populices

O São Paulo colocou parte bilhetes para os  jogos em casa, de hoje até a rodada final do Campeonato Brasileiro, a menos de dez reais. Os mais caros também abaixaram bastante. O clube tem a quinta pior assistência média e corre o risco de serem relegados a um escalão inferior do futebol nacional. Vive uma turbulência nos bastidores. Precisam de renda imediata, público e popularidade para os principais gestores da instituição.

ditadores

Medidas que lembram as dos grandes populistas, como Fidel Castro (Cuba), Kim Jong-Un (Coreia do Norte) e Hugo Chávez (Venezuela), que em meio a desmandos e ingerência, tomam(ram) decisões para conquistar a simpatia do povo. Pode-se estender isso ao atual presidente do clube de futebol, o 4º da montagem acima.

Como disse um amigo há uns meses, o São Paulo nunca se pareceu tanto com o Corinthians. E o Corinthians nunca se pareceu tanto com o São Paulo.

Produto Bem Alemão

#350

bundesliga2Sem abusos ou absurdos. É o melhor produto esportivo alemão e, como se sabe, cumpre com os requisitos de todos os produtos que vêm de lá: qualidade, excelência e harmonia. Esta última característica é a que mais dita o crescimento da liga de futebol local, a ‘Bundesliga’ (Liga Nacional).

O futebol alemão é transmitido no Brasil desde 1992, mas em função de políticas fiscais e bundesligadesportivas rigorosas, que dão preferência ao atleta, à associação e ao torcedor (os pilares do esporte), o seu crescimento foi devagar, mas constante. Hoje é um dos torneios mais interessantes, que combinam desempenho, espetáculo e competitividade, acessível a todos os tipos de público. É esta a harmonia a que me referi no parágrafo anterior. Diferentemente das outras ligas que existem pela Europa, como a Inglesa, Espanhola, Italiana ou Portuguesa (todas com poucos clubes de ponta). Doa a quem doer, produtos semelhantes só o Campeonato Brasileiro, o Argentino e o dos Estados Unidos (MLS).

A Bundesliga tem conquistado vários mercados e no Brasil cresce bastante. Logo terão que traduzir seu portal da internet para o Brasileiro. Como se vê na foto reproduzida, está disponível nos idiomas inglês, polonês e japonês. Vale a pena conferir, é um torneio muito bom, dentro e fora de campo. Começa neste sábado (10).

 

Nova York, Cosmo

do grego: Kosmos/σύμπαν, “universo”

MetlifeStadium_V2_460x285Nova York é uma cidade que é um universo nela mesma. Para os especialistas, é uma metrópole ‘Alfa’ e, para a opinião pública, capital do mundo. Recebe mais turistas que muitos países, assim como seu PIB que deve ser maior em comparação com tantos outros. Falar em Nova York, é falar no superlativo.

Há alguns dias a histórica franquia novaiorquina de futebol, o NY Cosmos, anunciou a equipe para disputa na Liga de Futebol da América do Norte (NASL -North American Soccer League). Sobressai o fato de eles não disputarem a principal liga do país, a MLS (Major League Soccer). Obviamente, ganhariam a MLS e a franquia com a participação do Cosmos. Uma, por receber instituição que possui um vínculo muito grande com a cidade, e que construiu uma marca com base em grandes jogadores nos anos 1970, como Pelé. Em troca, competiria em um torneio bem nycosmos1981New-York-Post-Battle-Of-New-York-Giants-Jetsdisputado e com outras grandes equipes que projetaram mundialmente o futebol norte-americano nos últimos 17 anos.

Mas o post não trata disso. Bom. Qual a concorrência do Cosmos? Além de adversários diretos, do mesmo esporte, da mesma liga de futebol, concorre também com uma cidade desportiva. É conhecida como “a capital do beisebol”. Nas grandes ligas (MLB) há duas equipes: Yankees e Mets. No futebol americano (NFL), os Giants e os Jets. No hóquei-no-gelo, os Rangers e os Islanders. Na NBA, os Knicks e os Nets, de Brooklyn. No futebol (soccer/MLS), os Red Bulls, o New York City FC e, agora, os NY Cosmos, que concorrem portanto contra todos eles, em busca de mercado consumidor dos seus produtos.

Vale-se a franquia de todo histórico – vitorioso e identitário – que possui. A cidade oferece um enorme mercado de diversos gostos e costumes, com alto poder de consumo. A mesma dinâmica de negócios no esporte não acontece em outros lugares do mundo como em Nova York. Por isso ela é um cosmo a parte.

Liberdade que, Embora Tarde

Há dez anos o magnata russo Roman Abramovich comprava o Chelsea FC e potencializava a hiperinflação no futebol. Altos salários, gastos sem medida, especulações, valores que caracterizam a configuração atual de uma – pequena – parte do futebol europeu. Abramovich abriu caminho para multimilionários tailandeses, indianos e árabes fazerem o mesmo, na Itália, na Espanha e na França.

A busca por resultados, portanto, ficou cada vez mais cara. Ao fazer a equipe, a diretoria do Clube Atlético Mineiro não mediu esforços e não economizou nos reforços. Confirma o que o seu presidente, Alexandre Kalil, diz sobre o marketing no futebol (caso queiram ver cliquem aqui).

Vale tudo isso? A que custo? Ao da liberdade. Conquistar uma Libertadores – com o maior rival tendo duas -, estar em evidência no cenário esportivo nacional e sair da sombra do maior rival nas últimas décadas. Para muitos, isso não tem preço. No entanto a futura retenção de gastos para o pagamento de dívidas pode ser drástica e triste. Mas essa já é outra história. Liberdade, antes tarde do que nunca.

Liberdade que, Embora Tarde – Em Latim a inscrição ‘Libertas Quae Sera Tamen’, da bandeira do estado de Minas Gerais

All Americans

É possível que em 2015 a Bridgestone Libertadores conte com equipes estadunidenses e canadenses, da MLS (Major League Soccer). CONCACAF (Confederação de Futebol das Américas do Norte, Central e do Caribe) e a CONMEBOL (Confederação Meridional de Futebol / Confederação Sul-Americana de Futebol) negociam.

Ganham as equipes latino-americanas e as televisões em mercado consumidor e poder de consumo. Ganham as equipes estadunidenses em competitividade e intercâmbio, fora a internacionalização da liga deles. Nós aqui no Brasil podemos acompanhar a MLS. O contrário não acontece em um canal de lá.

Acima de tudo ganha o torneio, com o know-how norte-americano, necessário para competir com uma liga semelhante que é a europeia ‘Liga dos Campeões’. Afinal, as crianças sul-americanas começam a torcer para Barcelona ou Borussia Moenchengladbach (sem sequer saberem pronunciar esse nome) e isso não é bom. Significa menor mercado consumidor.

Pontos a serem observados: logística e fuso horário, que interferem no desempenho do atleta e na audiência da TV. A caminho de uma Bridgestone Libertadores…das Américas!

Milionário Narcobol

O Millonarios, de Bogotá, na Colômbia, pode perder 2 títulos nacionais (1987 e 1988) se a Justiça Colombiana comprovar que o narcotráfico financiou o clube nestas conquistas.

À época, o futebol daquele país era sustentado pelos grandes carteis: os irmãos Rodriguez Orijuela mantinham o América de Cáli, enquanto que Pablo Escobar, o Atlético Nacional, de Medellín, campeão da Libertadores de 1989. Muito do sucesso do futebol colombiano do fim dos anos 80 e início da década de 1990 deu-se devido a influência dos narcotraficantes.

Quando o cerco começou a apertar, a partir do assassinato do jogador Andrés Escobar (fez o gol contra no jogo vs os EUA no Mundial de 1994), a ‘torneira’ fechou e o futebol colombiano entrou em crise. Classificou-se em 1998 para a Copa na França, ocasião em que fez péssima campanha. Depois, apenas em 2004 um resultado expressivo, com o título da Libertadores conquistado pelo Once Caldas, o 2º do futebol ‘cafetero’ no torneio.

Abaixo trecho do documentário da ESPN sobre o envolvimento do narcotráfico com o futebol colombiano:

Sem Fim

A morte de dois torcedores em decorrência das brigas entre torcidas em São Paulo no último fim-de-semana trouxe à tona novamente a discussão sobre a atuação das torcidas organizadas, a violência e da atuação do poder público.

Dizem que a polícia devia fazer isso ou aquilo e que o Governo devia ter atuado de uma determinada maneira, com o objetivo de eliminar esse tipo de violência no esporte, especificamente o futebol. Àqueles que acreditam nisso, lamento dizer: essa violência não vai terminar. Continuará por existir. Se alguns torcedores forem conduzidos à clandestinidade, isso pode ser pior: grupos de torcedores poderão, com o tempo, a cada dia parecerem-se mais com seitas, estabelecendo-lhes a condição de uma quadrilha e que, em um caso extremo, a constituição de um ‘estado paralelo’.

Dentro dos estádios a violência é sim capaz de ser reduzida. Novas políticas de aquisição de ingressos para os jogos – como, por exemplo, dar prioridade aos sócios ou aumentar o preço dos bilhetes – e atuação policial preventiva podem preservar o esporte. Imaginar que as brigas de torcedores, longe dos recintos de jogos, pode terminar, é inocência. É portanto preciso fazer com que estes enfrentamentos não envolvam inocentes. Para isso sim, é preciso da intervenção policial.

Série do Discovery, “Football Factories”, sobre as torcidas na Sérvia e na Croácia

É ruim pensar assim, mas necessário para encarar esse problema da violência em decorrência do esporte, de frente, para preservar o torcedor comum, aquele que realmente consome o esporte, sobretudo o futebol.

 


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