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Treme Terra

Não fazemos ideia no Brasil de um terremoto de grandes proporções. O blogueiro aqui já presenciou um, de baixa intensidade. Isso dá uma ideia – ainda muito distante – do efeito de um sismo em uma sociedade, especificamente no esporte.

lancasterparkNão estou falando de luto, como a seleção de futebol do Peru, que jogou o Mundial FIFA 1970 com uma faixa preta na manga das camisas. Nem do impacto na economia. Aqui abre-se um parênteses. Há o impacto negativo, como na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, com a interdição do Lancaster Park depois do tremor de fevereiro de 2011. Há o impacto positivo: Chile nos anos 1950 e 1960, quando desfiou o mundo em receber a Copa do Mundo de futebol de 1962, depois do terremoto de anos antes.

Digo do efeito contrário. Da ausência do esporte. O Lancaster Park, interditado, parece um enorme cemitério. O gramado, descuidado, parece que foi revirado e supostos cadáveres, retirados à força. Nos arredores, pobreza. Não a pobreza financeira, mas a de espírito, de atmosfera. Durante o mundial de rúgbi no ano passado apenas passei uma noite em Christchurch, o suficiente para perceber a atmosfera daquela cidade, triste em função da tragédia de meses antes. Obviamente que o efeito não poderia ser outro.

Nessa situação, as coisas não vão voltar a ser como eram antes. Só o tempo mesmo para apagar tantas feridas e minimizar os estragos.

Foto: Lancaster Park, depois de interditado

O mundo é ‘bão’, Sebastião

Muito diferente acompanhar a Fórmula 1 ao vivo, em plena manhã de segunda-feira. E quando terminou a transmissão, estranhar que não começa o Bom Dia Brasil, porque por aqui já marcavam 7:30 do dia 26/11.

Aproveitei para ver como é a narração em inglês e como os gringos vêem o GP Brasil. Bom, a narração é muito mais emocionante e muito mais sensata. Como automobilismo não é minha praia, não prestei muita atenção aos comentários, mas percebi muito entrosamento entre narrador, comentarista e repórter, uma mulher, assim como muitas vezes a TV brasileira faz.

Para os de fora, Interlagos é a melhor prova. Por ser um circuito ‘das antigas’, exige mais do piloto, o que para eles é o que falta à atual geração da F1: tudo é menos difícil em relação ao passado, a tecnologia possui relação direta com a condução. Entretanto, o equilíbrio dessa balança é a pressão comercial, muito maior atualmente. Há mais partes interessadas no negócio.

Segui muito pouco a temporada de 2012, cujo campeão do negócio em 2012 foi Vettel, Sebastian Vettel. O final, mesmo para quem não acompanhou, foi emocionante. Parabéns, Sebastião!

Por aí

Este blogueiro tem estado longe de casa, mas nada que o impede de ficar de fora do que se passa. Aliás, não há como. As notícias são as mesmas em qualquer lado hoje em dia. Talvez a única diferença que tenho notado é que tenho visto mais críquete. Entretanto, longe de tornar-se um crítico do críquete.

Crítico do críquete. Fale isso rapidamente.

Tudo aquilo que este blog trata é nitidamente visível pelo mundo todo, que o esporte é algo hoje global, gerador de emprego, renda e riqueza. Aos poucos, felizmente, o Brasil está percebendo isso. É preciso mais, é claro, mas caminhamos pra isso. Mundial de futebol e Jogos de 2016 ajudarão para tal.

Em Dubai, vi corrida de camelos pela televisão, mas predomina mesmo o futebol. Aqui na Nova Zelândia o balípodo cresce bem. Por exemplo, se vou ao supermercado e tenho a opção de comprar 2 tipos de sabão em pó: um da caixa preta, com o símbolo dos All Blacks (a seleção de rúgbi) e outra com o símbolo da NZ Football (federação nacional da modalidade no país). Obviamente o rúgbi predomina e há mais caixas pretas que brancas, mas o críquete também é muito presente, ainda mais em uma altura em que os ‘Black Caps’ estão em uma série de amistosos no Sri Lanka.

Curioso que a equipe do Sri Lanka tem como um de seus maiores expoentes um atleta chamado Aravinda da Silva, nome mais lusófono, impossível. E este foi o tema da minha conversa com o Vijay, atendente cingalês da loja de conveniência do posto cujo dono é de Cingapura, em frente ao hotel onde estamos, cujo proprietário é coreano.

O esporte é o mundo.

Flor da Escócia

“…and sent him homeward,

to think again”

Este é um trecho do hino da Escócia, cuja população poderá pensar de novo e escolher no final de 2014 pela independência ao Reino Unido, de que faz parte de 1707. O acordo para o referendo foi celebrado ontem entre o Primeiro-Ministro Britânico David Cameron e o presidente do Parlamento Autônomo Escocês, Alex Salmond.

Esportivamente, o que ganha ou perde o Reino Unido com a separação da Escócia? Não ganha nada. Perde pouco. Opa, em parte! No esporte-motor perde muito: Jim Clark, David Coulthard, Ian e Jack Stewart são ótimos exemplos. Os escoceses competem para o Comitê Olímpico Britânico, que reúne Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte. São poucos os atletas escoceses bem sucedidos nas Olimpíadas. O rúgbi e o futebol são duas modalidades em que a nacionalidade escocesa é bastante exaltada e não competem sob bandeira britânica. Diferentemente dos galeses do Swansea e do Cardiff, que atuam na Liga Inglesa, Celtic e Rangers jogam o campeonato escocês e fazem, para muitos, o maior clássico do futebol mundial, entre clubes. Os torcedores do Celtic são em sua maioria católicos e anti-monarquistas, por isso levam bandeiras da Irlanda (catolicismo) e Escócia (nacionalismo); adeptos do Rangers são monarquistas/leais e carregam consigo a Union Jack (bandeira do Reino Unido).

Sporting CP x Glasgow Rangers FC 10.04.2008 002

Torcida do Rangers

Celtic

Torcida do Celtic

Economicamente o Reino Unido não perde significamente com a independência escocesa. Ademais, ela não significa o rompimento de todos os lados. Uma saída pacífica solidifica uma relação de confiança que certamente vai se refletir em todos os aspectos da sociedade da Grã-Bretanha. Diferentemente do processo como houve com a Irlanda (Eire), cuja independência só foi possível através de uma Guerra (1916-1921), cujos resquícios que persistem até hoje através, por exemplo, do IRA (Exército Republicano Irlandês).

Na Península Ibérica, a Catalunha representa boa parte da economia espanhola; e não vai ser falando em catalão que um novo país conquistará novos mercados, sobretudo o latino-americano. Ou seja, Barcelona e a Catalunha precisam de Madri e do Rei. No esporte, o Barcelona só existe porque existe o Real Madrid. E vice-versa. Um faz o outro. Se querem independência, como demonstraram no último clássico, que se preparem para jogar contra o Sant Andreu, Hospitalet ou o Gimnàstic. Jogaços! É nos momentos de crise econômica que os grupos defensores da autonomia mais se fazem valer para convencer a população que a independência é a solução. E em catalão eles não vão chegar a lado algum.

Como diz uma amiga: que se joguem todos juntos e abraçados.

Não é este o caso da Escócia, que tem uma oportunidade única em 2014, como diz o seu próprio hino:

“But we can still rise now,

and be a nation again!…” 

Milionário Narcobol

O Millonarios, de Bogotá, na Colômbia, pode perder 2 títulos nacionais (1987 e 1988) se a Justiça Colombiana comprovar que o narcotráfico financiou o clube nestas conquistas.

À época, o futebol daquele país era sustentado pelos grandes carteis: os irmãos Rodriguez Orijuela mantinham o América de Cáli, enquanto que Pablo Escobar, o Atlético Nacional, de Medellín, campeão da Libertadores de 1989. Muito do sucesso do futebol colombiano do fim dos anos 80 e início da década de 1990 deu-se devido a influência dos narcotraficantes.

Quando o cerco começou a apertar, a partir do assassinato do jogador Andrés Escobar (fez o gol contra no jogo vs os EUA no Mundial de 1994), a ‘torneira’ fechou e o futebol colombiano entrou em crise. Classificou-se em 1998 para a Copa na França, ocasião em que fez péssima campanha. Depois, apenas em 2004 um resultado expressivo, com o título da Libertadores conquistado pelo Once Caldas, o 2º do futebol ‘cafetero’ no torneio.

Abaixo trecho do documentário da ESPN sobre o envolvimento do narcotráfico com o futebol colombiano:

Desconhecido Passado

Não sou um grande fã do esporte-motor, mas o documentário que a ESPN transmitiu hoje de madrugada chamou-me a atenção. “The Killer Years”, sobre a Fórmula 1 nos anos 60 e 70, que vitimou, dentre muitos, pilotos como Jim Clark, Lorenzo Bandini, Jochen Rindt (único campeão mundial depois de falecido) e Roger Williamson (acidente abaixo, em que seu amigo e piloto David Purley, tenta socorrê-lo):

Não havia segurança nas pistas. Não havia ambulâncias, não havia o mínimo de infra-estrutura. As provas não tinham limite de horas, mas sim de voltas (o GP de Mônaco tinha 100). Quantos pilotos, quantos jovens, quantos talentos faleceram para que houvesse hoje segurança e a integridade física dos condutores? Condutores hoje que não ganham por serem os melhores mas por terem os melhores! Os melhores carros, os maiores patrocínios.

Esses pilotos – e os sobreviventes – escreveram parte importante dentro da história do automobilismo, que não seria o mesmo atualmente se não fosse por eles.

Fizeram algo no passado para deixar um futuro melhor, assim como acontece em todos os setores da sociedade. Na indústria aeroespacial, quantos não arriscaram suas vidas a fim de promover a aviação e a conquista do espaço? Na medicina, na farmácia. Na comunicação, muitos no início faziam tudo pelo amor ao rádio e à TV, bem antes da mídia poder pagar altos salários.

Para entendermos isso, basta observarmos duas palavras: legado e herança. O respeito àqueles que se arriscaram em um ‘desconhecido’ passado para hoje vivermos melhor. Que ao menos estejamos nesse caminho e fazendo algo melhor para entregar às gerações futuras, em que farão parte nossos filhos e netos.

Numeritos #3

Permita-me, Sr Eduardo Galeano, a utilizar como título deste pequeno texto, o título de um de seus contos em um dos diversos livros que já escreveu, e de que gosto muito.

Sem saber se permitiu, obrigado.

Ontem este blog atingiu a marca – Olímpica (porque foi durante os Jogos de Londres) – de 80 mil visitas, a 54 dias de completar 5 anos de existência (30-09-2007).

Muito se fala no Brasil sobre medalhas Olímpicas e a cobrança por elas. São estas as primeiras Olimpíadas em que o Brasil está entre as 10 maiores economias do mundo, medido através do PIB (Produto Interno Bruto). Segundo estudo conduzido pelo ‘Euromonitor’, há uma grande relação entre o tamanho do PIB e posição no quadro de medalhas. Nos Jogos de Pequim (2008), 7 dos 10 primeiros colocados tinham os maiores PIBs do planeta (exceções: Austrália, Rússia e Coreia do Sul) . Vamos ver o caso do Reino Unido:

Em 1992 (Barcelona), o Reino Unido tinha o 8º maior PIB e ficou em 12º no quadro de medalhas;

Em 1996 (Atlanta), 6º no PIB e 17º em medalhas;

Em 2000 (Sydney), 7º no PIB e 9º em medalhas;

Em 2004 (Atenas), 6º no PIB e 9ª em medalhas;

Em 2008 (Pequim), 7º no PIB e 4º em medalhas.

O Brasil tem o sexto maior Produto Interno Bruto, mas está longe de estar entre os 10 no quadro de medalhas. Precisamos estar lá de imediato? Ou é melhor investir na base? A segunda opção, por favor.

 

Apátridas Olímpicos

Quatro atletas competiram em Londres de forma independente, sem país. Três são das Antilhas Holandesas (Reginal de Windt, judô; Liemarvin Bonevacia, 400m rasos; Philipine van Aanholt, vela) e um do Sudão do Sul (Guor Marial, maratona) . As Antilhas foram reanexadas à Holanda em 2011, já os sudaneses do sul ainda não tem um Comitê Olímpico organizado, reconhecido pelo COI. Os quatro competem pela sigla: IOA (Atleta Olímpico Independente, em inglês).

Há ainda uma quinta atleta, de Kosovo (país dos Bálcãs cuja maior parte da população é de etnia albanesa). É a judoca Majlinda Kelmendi, que optou por lutar pela vizinha Albânia, já que não foi organizado um Comitê Olímpico Kosovar.

O judoca antilhano, de Windt (foto, nascido em Curaçao, a maior ilha das Antilhas), diz que não vê mal nenhum nisso, que os atletas deveriam competir sem país e que esporte tem que existir sem política. Ora, se isso acontecesse iria contra um dos princípio dos Jogos Olímpicos, o da trégua enquanto acontecem as competições. Se não existem Estados-Nação, não há porque ter trégua. O propósito dos jogos ficaria vazio. Não existiriam interesses individuais, comerciais, financeiros e sobretudo, desportivos. Não haveria mercado consumidor para os Jogos Olímpicos. Nesse caso, o mercado consumidor é o torcedor de cada País. Ou então, seria assim:

“Vou nadar pelo espírito Olímpico.”

“A luta unicamente pela excelência humana.”

Oh, que lindo!

Que romântico!

Já dizia o Prof Gustavo Pires: “Fair-play é uma treta!”

Volta Olímpica

Jogos Olímpicos de Londres, ano 2012 d.C, Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, que já foi o maior Império, onde o sol nunca se punha, cujas relações comerciais trouxeram o futebol para o Brasil, mas também para o seu grande rival no esporte, a Argentina. As argentinas formam uma das melhores seleções de hóquei-na-grama feminino, conhecidas como “las Leonas”, que têm como grandes rivais as holandesas, que se orgulhavam da equipe de voleibol masculino dos anos 90, vice-campeão Olímpico em Barcelona’92 e campeão em Atlanta’96, cidade-sede da CNN (rede de TV) e da Coca-Cola. Esta última empresa, é patrocinadora TOP (Parceira Olímpica TOP), conceito de marketing esportivo criado por Michael Payne no fim dos anos 70 e início dos 80, influenciado pela FIFA (Federação Internacional de Futebol), que já tinha algo parecido com a mesma fábrica de refrigerantes e também com a Adidas.

Esse tipo de governança nas entidades de administração esportiva teve origem nos anos 60, aqueles da chegada do homem à lua, das revoltas estudantis na França, de Woodstock, e de quando os recém-independentes países africanos solicitavam ao mundo o não-reconhecimento de uma África do Sul que estava no auge do ‘Apartheid’. Os Sul-Africanos despontavam no tênis, natação e rúgbi, esporte com origem Britânica, assim como Stanley Rous, que presidia a FIFA, mas relutante à exclusão dos sul-africanos. Isso motivou ainda mais a candidatura do brasileiro João Havelange à presidência daquela entidade, mesmo nunca tendo sido atleta do futebol. Havelange fora nadador e jogou as Olimpíadas de 1936 pela Seleção Brasileira de pólo-aquático, em Berlim, capital do Nacional-Socialismo de Hitler, austríaco de nascimento e idealizador da ‘anschluss’, anexação da Áustria ao território alemão. Esse gesto motivou o suicídio do também austríaco e um dos maiores atletas da época, Matias Sindelar, o ‘homem-papel’, que se recusava a jogar sob outra bandeira que não a de origem, sob domínio do nazismo alemão, aliado do Império Japonês.

Império Japonês cuja miséria e pobreza do início do século XX motivou a partida de centenas de milhares de imigrantes para o mundo através de navios. Um deles era o ‘Kasato Maru’, o primeiro que trouxe muitos deles ao Brasil. Com eles, também trouxeram a luta suave japonesa, o Judô. Um século depois e o Brasil é referência mundial nesse esporte. No último fim-de-semana deu ao país uma medalha de ouro e outra de bronze nos Jogos Olímpicos em Londres, capital do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

Timón

A conquista do principal torneio de clubes do continente tem levado o Corinthians a expandir as suas fronteiras econômicas, para além das futebolísticas. As contratações do argentino Martínez e do peruano Guerrero não sugerem somente potencializar o plantel, mas também a marca do clube.

O peruano vem do alemão Hamburgo, o que pode trazer a audiência dos seus fãs do país vizinho. O mesmo caso pode acontecer com Martínez. Ao chamar a atenção para o público estrangeiro não apenas significa que mais camisas serão vendidas no exterior. No entanto haverá uma maior demanda de consumo pelo futebol brasileiro, fazendo com que emissoras de televisão de diversos países se interessem em transmitir o nosso campeonato nacional. E, para isso, se paga uma boa quantia de dinheiro.

É pena que o Brasil e seus clubes estejam fazendo isso só agora, mas bom que faça, em uma altura em que o Campeonato Brasileiro foi considerado, pela IFFHS (Federação Internacional de Estatísticas de Futebol) o 3º torneio mais competitivo do mundo. O Corinthians, pela BDO, a marca esportiva mais valiosa do país. O futebol e clubes argentinos fazem isso há algum tempo. Para se ter uma ideia, nós aqui ‘consumimos’ a II Divisão deles. Nomes como ‘Desamparados’, ‘Defensa y Justicia’ e ‘Almirante Brown’ são cada vez mais comuns entre aqueles que seguem o futebol pelo mundo.

Num momento em que já se passou da hora de encarar o esporte como um produto, internacionalizá-lo tornou-se mais que uma obrigação em um mercado global. Os corinthianos não fazem isso sozinhos: Santos, com Fucile e Internacional, com D’Alessandro e Forlán, são grandes exemplos. Quem ganha é o espetáculo e, sobretudo, os consumidores (também conhecidos como torcedores) que pagam por ele.


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